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De quem é o Centro Cultural Vila Flor?

João Ribeiro
Opinião \ quinta-feira, agosto 13, 2026
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Abrir mais portas, sim, e levar mais cultura às freguesias, sem dúvida, mas valorizar todo o tipo de cultura, sempre.

Nas últimas semanas, a cultura voltou ao centro do debate político em Guimarães. O regresso da Noite Branca, as Gualterianas, a saída de Rui Torrinha da direção artística do Centro Cultural Vila Flor, a passagem do espetáculo de João Baião pelo seu Grande Auditório e, sobretudo, a afirmação do presidente da Câmara de que terminou a chamada “cultura do gosto”, levantaram uma discussão que considero importante.

Mas talvez estejamos a fazer a pergunta errada, pois a questão não é saber se João Baião merece atuar no Centro Cultural Vila Flor; é evidente que merece. O teatro de revista não é culturalmente inferior à dança contemporânea, da mesma maneira que uma banda filarmónica não é inferior a uma orquestra sinfónica, nem um grupo folclórico é menos digno do que uma companhia internacional.

Passei muitos anos a estudar o ensino da música em Guimarães e uma das conclusões a que cheguei é precisamente que os diferentes contextos culturais não precisam de competir para demonstrarem a sua importância. A riqueza está muitas vezes na diversidade e na capacidade de os colocar em diálogo; por isso, não me interessa uma guerra entre a cultura popular e a cultura erudita.

Interessa-me questionar outra evidência: qual deve ser a missão de um equipamento como o Centro Cultural Vila Flor?

Dizer que um equipamento público “é de todos” parece indiscutível. Mas ser de todos não significa necessariamente servir para tudo. Uma escola pública é de todos e tem uma missão; uma biblioteca pública também; um museu, um conservatório ou um centro cultural têm igualmente identidades, objetivos e responsabilidades próprias.

É precisamente esta identidade que devemos discutir. Durante anos, Guimarães construiu uma política cultural que lhe permitiu conquistar uma posição que poucas cidades portuguesas da sua dimensão conseguiram alcançar. A Capital Europeia da Cultura de 2012 não apareceu do nada. O Guimarães Jazz, o GUIdance, os Festivais Gil Vicente, o Westway LAB, as residências artísticas, as coproduções e tantos outros projetos criaram públicos e colocaram artistas e criadores de Guimarães em contacto com o país e com o mundo. Nem todos estes acontecimentos tiveram grandes audiências, e ainda bem.

Porque, se o único critério para avaliar uma política cultural for o número de pessoas presentes, então será sempre mais fácil organizar uma grande festa popular do que apoiar uma criação artística experimental. Mas uma Câmara Municipal não é uma empresa de espetáculos; tem uma outra responsabilidade.

Tem de proporcionar aquilo que o mercado oferece, mas também aquilo que o mercado dificilmente ofereceria. Tem de apoiar a tradição, mas também a criação. Tem de preservar aquilo que recebemos das gerações anteriores e ajudar a construir aquilo que as próximas gerações irão receber de nós.

Mas é aqui que a expressão “cultura do gosto” me provoca alguma inquietação, porque quem decide o que é “o gosto”?

Se programarmos apenas aquilo de que as pessoas já gostam, nunca lhes daremos a possibilidade de descobrir aquilo de que ainda não sabem que gostam.

Também na educação isto é evidente. Nenhum professor pergunta aos alunos apenas aquilo que já querem aprender. Apresenta-lhes mundos que desconhecem. Algumas coisas irão acompanhá-los para sempre; outras serão esquecidas. Mas houve descoberta e a cultura também deve fazer isso; mas isto não significa defender uma programação fechada, destinada apenas a especialistas ou a pequenos círculos culturais.

Se durante anos houve vimaranenses que olharam para o Centro Cultural Vila Flor e sentiram que aquele espaço não era para eles, então alguma coisa falhou.

E isso também deve ser dito.

Democratizar a cultura não pode significar apenas abrir as portas. É necessário criar pontes para que as pessoas tenham vontade de entrar. É aqui que vejo uma enorme oportunidade para Guimarães. Em vez de discutirmos se devemos ter João Baião ou dança contemporânea, talvez devêssemos perguntar como conseguimos ter João Baião e dança contemporânea; bandas filarmónicas e Guimarães Jazz; folclore, criação experimental e residências artísticas, mas para isso existe uma condição: não transformar tudo na mesma coisa.

Uma política cultural séria precisa de compreender que diferentes equipamentos podem ter diferentes missões e que precisa também de sair do centro da cidade e esta é, para mim, uma discussão ainda mais importante.

Durante demasiado tempo falámos da cultura em Guimarães olhando sobretudo para os grandes equipamentos culturais da cidade. Mas o concelho de Guimarães tem também as suas freguesias, as bandas, os grupos de teatro amador, os ranchos, os coros, as escolas de música, as associações e centenas de pessoas que trabalham culturalmente durante todo o ano.

Mas não precisamos de retirar ambição ao Vila Flor para valorizar todo o tipo de cultura, precisamos de fazer exatamente o contrário: ligá-la. Imagino um Centro Cultural Vila Flor que não seja apenas um edifício onde as pessoas vão assistir a espetáculos, mas o centro de uma verdadeira rede cultural municipal, onde existem artistas residentes a trabalhar com associações das freguesias, músicos internacionais convidados pelo Guimarães Jazz a realizar atividades com jovens músicos de todo o concelho, companhias de teatro a trabalhar com grupos amadores, projetos de dança a entrar nas escolas, bandas filarmónicas a participar em novas criações e o Conservatório,  as academias de música, associações e escolas a cruzarem-se com artistas profissionais. Mas essencialmente todas as crianças e de qualquer freguesia de Guimarães a crescerem sabendo que o Vila Flor também lhes pertence.

Não porque lá foi colocado um espetáculo que já conheciam, mas porque alguém lhes deu instrumentos para descobrir tudo aquilo que ainda não conheciam. Talvez seja esta a verdadeira democratização cultural e não baixar a fasquia para chegar a mais pessoas.

Dar a mais pessoas a possibilidade de chegar à fasquia e para isso Guimarães não precisa de escolher entre ser popular e ser cosmopolita, entre tradição e contemporaneidade, entre festa e criação, entre encher o Toural e ter cinquenta pessoas numa sala a assistir a uma obra experimental, pois precisa das duas coisas.

O erro começará no dia em que utilizarmos a multidão de uma para provar a inutilidade da outra.

Uma Noite Branca cheia é um sucesso, um espetáculo experimental com uma pequena audiência pode também ser um sucesso, mas são sucessos diferentes porque cumprem missões diferentes. Depois de décadas de investimento cultural e depois da enorme herança deixada pela Capital Europeia da Cultura, Guimarães tem agora uma oportunidade interessante: corrigir aquilo que afastou públicos sem destruir aquilo que tornou a cidade culturalmente relevante.

Abrir mais portas, sim, e levar mais cultura às freguesias, sem dúvida, mas valorizar todo o tipo de cultura, sempre.