Aquilo que a Inteligência Artificial nunca conseguirá ensinar
A Inteligência Artificial entrou definitivamente nas nossas vidas. Está nos telemóveis, nos computadores, nas empresas e inevitavelmente também nas escolas. Os alunos já a utilizam para estudar, esclarecer dúvidas ou realizar trabalhos. Os professores começam a integrá-la na preparação das suas aulas e o debate divide-se entre o entusiasmo e a preocupação.
Eu próprio utilizo Inteligência Artificial muitas vezes e como professor de Música, recorro a estas ferramentas para preparar aulas, adaptar atividades às diferentes necessidades dos alunos, criar fichas de trabalho, planificar avaliações, procurar novas abordagens pedagógicas ou simplesmente ganhar tempo em tarefas administrativas. Seria pouco sério negar a utilidade da IA, pois quando utilizada com critério, permite-nos ser mais eficientes e dedicar mais tempo àquilo que realmente importa: ensinar.
Mas quanto mais utilizo estas ferramentas, mais convicto fico de uma ideia: a Inteligência Artificial pode ajudar um professor, mas nunca poderá ser um professor.
Uma plataforma consegue criar uma ficha em segundos. Pode sugerir exercícios, explicar conceitos ou até compor uma melodia. Contudo, não entra numa sala de aula e percebe que um aluno está mais calado porque teve um problema em casa. Não reconhece o brilho nos olhos de uma criança que finalmente conseguiu ultrapassar uma dificuldade. Não sente quando uma turma precisa de parar cinco minutos para respirar, rir ou simplesmente conversar.
Na música, esta diferença torna-se ainda mais evidente. A música não é apenas um conjunto de notas escritas numa pauta. É emoção, interpretação, escuta, criatividade e partilha. Um coro não canta em harmonia apenas porque todos conhecem as notas. Uma orquestra não toca em conjunto apenas porque cada músico sabe a sua parte. É preciso aprender a ouvir o outro, respeitar o silêncio, esperar o momento certo para entrar e compreender que o sucesso individual depende sempre do grupo e nenhum algoritmo ensina isso.
A Inteligência Artificial pode gerar uma composição tecnicamente correta, mas não sente o nervosismo de uma criança antes de subir ao palco pela primeira vez. Não partilha a alegria de um concerto que correu bem. Não percebe a emoção de um aluno que descobre que é capaz de fazer muito mais do que imaginava. É precisamente por isso que acredito que a IA não diminui a importância da educação artística, bem pelo contrário.
Num mundo onde uma máquina consegue escrever textos, criar imagens, compor músicas e responder a praticamente qualquer pergunta em poucos segundos, aquilo que verdadeiramente distingue as pessoas são competências que nenhuma tecnologia consegue replicar por completo: a criatividade, a sensibilidade, a empatia, a comunicação, o pensamento crítico e a capacidade de trabalhar em equipa.
Talvez o maior desafio da escola já não seja transmitir informação, pois essa está disponível em qualquer telemóvel. O verdadeiro desafio passa por ensinar os alunos a pensar, a questionar, a selecionar informação credível e a utilizar estas novas ferramentas de forma ética e responsável.
Acho que também nós, professores, temos de aceitar essa mudança. Fingir que a Inteligência Artificial não existe ou proibi-la indiscriminadamente não resolverá o problema. A escola sempre evoluiu com as transformações da sociedade e a calculadora não acabou com a Matemática, a Internet não acabou com os livros e a Inteligência Artificial não acabará com os professores. Mas obriga-nos a refletir sobre aquilo que realmente faz sentido ensinar e, sobretudo, sobre a forma como avaliamos os nossos alunos.
Eu continuarei a utilizar Inteligência Artificial. Aliás, acredito que os professores que souberem tirar partido destas ferramentas terão melhores condições para inovar e responder às necessidades dos seus alunos. Contudo, espero nunca esquecer que o verdadeiro valor da educação continua a nascer da relação humana. Do olhar atento de um professor, da palavra certa no momento certo, do incentivo quando tudo parece difícil e da capacidade de acreditar num aluno, muitas vezes antes de ele acreditar em si próprio.
Porque ensinar nunca foi apenas transmitir conhecimentos.
Ensinar é inspirar. Ensinar é acompanhar. Ensinar é transformar vidas. E isso, felizmente, continua muito para além daquilo que qualquer algoritmo consegue fazer.
A terminar, porque este será o último artigo antes da pausa de verão, desejo a todos os leitores umas excelentes férias. Que sejam dias de descanso, de convívio em família, de boas leituras, de música, de descobertas e de tempo vivido sem pressas. Aproveitem para criar memórias, porque são essas experiências, genuinamente humanas, que nenhuma Inteligência Artificial conseguirá alguma vez substituir.
Boas férias!!