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Amizades que se vestem a rigor ou um Carnaval improvável

Ana Sofia Freitas
Opinião \ quinta-feira, fevereiro 05, 2026
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Entre disfarces improváveis e ruas sem destino, um grupo de amigos provou que os melhores momentos não precisam de grandes palcos.

Era sábado de manhã e o Carnaval aproximava-se devagar. Tinham combinado tomar o pequeno-almoço juntos. Entre meias de leite bem quentinhas, torradas que aqueciam o coração e um pouco de riso e piadas, surgiu uma ideia que iria mudar os planos daquela manhã.

- E se fôssemos ver disfarces? - perguntou a Margarida, já com o seu sorriso.

- Oh, Margarida, não inventes. Queres ir ver disfarces para quê? - disse o Luís, já a reclamar.

- Até podemos ir ver, mas só por ir… e se usarmos na terça-feira de Carnaval? Andávamos pela rua com os disfarces, era giro! Ninguém estaria à espera! - respondeu a Bânia, enquanto sorria e bebia mais um gole da sua meia de leite.

- Que ideia genial, Bânia! Quero muito escolher o meu fato! - respondeu a Margarida, já aos saltinhos.

- Isto vai dar confusão, já estou a ver! Eu não me disfarço de nada! - respondeu, mais uma vez, o Luís, a reclamar.

- Luís, deixa de ser assim e alinha connosco, eu alinho! Vai ser super divertido! Podíamos ir comprar gomas, chupas e oferecíamos às pessoas. Íamos divertir-nos muito! - respondeu a Sofia, enquanto terminava de comer a sua torrada.

- Vamos então comprar os fatos. Tenho de ir buscar as minhas filhas antes, elas devem querer também fatinhos de Carnaval! - respondeu a Bânia, enquanto pegava na mochila e vestia o casaco.

Percorreram diversas lojas com prateleiras cheias de brilhos, máscaras exageradas e fatos improváveis. A Margarida queria experimentar tudo. A Bânia incentivava, chamava o resto dos colegas e ria-se. O Luís reclamava, mas amorosamente alinhava. A Sofia fazia piadas, resmungava e acabava por tirar fotografias.

Saíram com sacos na mão e com a leve satisfação de quem cumpriu um pequeno plano improvável.

Ficou decidido que o disfarce seria usado na terça-feira de Carnaval. E assim foi. Vestidos de Capivara, percorreram as ruas sem destino certo, animando cada rua por onde passavam. Levavam chupas, rebuçados e gomas, que iam distribuindo por quem passavam: crianças, adultos, desconhecidos surpreendidos por um grupo improvável de mamíferos sorridentes.

Entre gargalhadas, piadas e fotografias, tornaram aquelas ruas mais especiais. Ou talvez o grupo de amigos tenha apenas sentido que aquele momento era especial demais para passar despercebido. Caminhavam juntos, às vezes espalhados, mas sempre atentos uns aos outros, como se aquele disfarce lhes tivesse dado autorização para serem ainda mais leves.

No fim do dia, já cansados, pararam na roulotte do pão com chouriço. Comeram ali, de pé, entre migalhas e risos, comentando episódios do dia, repetindo piadas e rindo outra vez, como se ainda não fosse suficiente.

Não foi um Carnaval grandioso. Não houve palco nem desfile organizado. Mas houve amizade. Daquela que se constrói em momentos simples, inesperados, partilhados sem pressa.

E, enquanto riam à volta do pão quente com chouriço e queijo, perceberam que algumas histórias não precisam de muito tempo para se tornarem inesquecíveis. Precisam apenas das pessoas certas e, quiçá, de um disfarce de Capivara.