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A Reconstrução da História ou Сила есть, ума не надо

Amadeu Faria
Opinião \ quinta-feira, março 03, 2022
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Podemos ter agora a certeza, se é que ela não existia antes, que Putin está plasmado no provérbio com que iniciei este texto: Quando alguém tem poder, não precisa de inteligência.

Tendo o pensamento posto nos resultados das eleições em Portugal (resultados que me espantaram mas, pelos vistos, a mais ninguém, e que numa próxima oportunidade voltarei a abordar), resolvi tirar este tempo para refletir; refletir… uma ação necessária, indispensável e do mais elementar bom senso em todas as ações da nossa vida e, principalmente, quando enfrentamos tempos conturbados e difíceis, tendo em conta a agressão russa à Ucrânia.


Parece que muitos previam a invasão russa da Ucrânia… diplomatas, politólogos, comentadores e afins “sabiam”, perspetivavam esta situação.


Como sou uma pessoa normal, fui apanhado de surpresa com a magnitude desta operação militar. Mas acaso não sabia da personalidade narcisista/megalómana, com vários matizes de totalitarismo do ditador Vladimir Putin? Claro que sabia, arriscando-me a afirmar que todos quantos gostam de se manter informados o sabiam. Podemos pensar no que foi feito na Ossétia, no que acontece à oposição russa, na plutocracia dos oligarcas russos e até, num tempo bem mais próximo, na reconstrução de factos históricos feitos por Putin na sua arenga à nação e ao mundo. Mas tudo isto, para mim, seria sempre obstaculizado com duas certezas (que se revelaram pouco certas): a solidariedade política existente na União Europeia e a força digna da ONU. Bem sei que alguns me considerarão um otimista. Foi esta mesma União que acolheu no seu seio, para permitir o alargamento a leste, outros oligarcas e ditadores que, repetidamente, desrespeitam os princípios mais sagrados inscritos no preâmbulo da Carta dos Direitos Fundamentais - a União baseia-se nos valores indivisíveis e universais da dignidade do ser humano, da liberdade, da igualdade e da solidariedade; assenta nos princípios da democracia e do Estado de direito. Foi esta mesma União que se colocou nas mãos da oligarquia e plutocracia russa a nível energético. Somos os mesmos europeus que constantemente viram os atropelos existentes dos direitos humanos na Rússia (casos de Navalny, de Nemtsov, Alexander Litvinenko, do grupo Pussy Riot, etc.) e, olhando para o lado, assobiaram tranquilamente à custa de uma anacrónica visão das já extintas “áreas de influência”. Somos os mesmos europeus que acharam (e alguns continuam a achar) que a doutrina dos direitos históricos sobre um território é algo que faz sentido no relacionamento Rússia/Ucrânia (permitam-me fazer uma proposta tendo por base os que defendem o direito histórico da posse da Ucrânia pela Rússia: Que tal afirmarmos o nosso direito histórico sobre Olivença?).


No fim disto tudo, tento manter algumas, poucas, certezas: não era complicado ter a paz, através de esforços diplomáticos sérios que levassem à “détente” entre Rússia/Ucrânia/Geórgia; a ineficácia da UE para enfrentar mais uma guerra em solo europeu (pese a reação tida agora mas que esconde a inação anterior); há historiadores e opinadores para todos os gostos (incluindo nas comparações descontextualizadas das reações da Inglaterra e França perante Hitler ou a reação perante as invasões de Granada, Afeganistão e Iraque); podemos ter agora a certeza, se é que ela não existia antes, que Putin está plasmado no provérbio com que iniciei este texto: Quando alguém tem poder, não precisa de inteligência.