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A geração que ouve tudo, mas nada escuta

João Ribeiro
Opinião \ quinta-feira, fevereiro 26, 2026
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Se não ensinarmos as crianças a escutar hoje, amanhã teremos adultos incapazes de ouvir o mundo que constroem.

Recentemente, num café, presenciei uma cena simples que me fez pensar. Uma mãe pediu ao filho que pousasse o telemóvel para, em vez de estar a assistir a vídeos, começarem a brincar ali mesmo com pequenos jogos improvisados ou a pintar folhas de papel com lápis de cor. Aos poucos, a criança começou a conversar com a mãe, concentrada no que fazia, e de repente o ambiente mudou.

Não aconteceu nada de extraordinário, mas talvez seja precisamente esse o ponto, pois vivemos rodeados de som, música constante, vídeos curtos, notificações, estímulos digitais permanentes. Nunca tivemos tanto ruído à nossa volta e, paradoxalmente, nunca foi tão evidente a dificuldade em escutar.

Nas escolas, este fenómeno começa a tornar-se visível de forma preocupante. Muitos professores reconhecem o mesmo padrão: alunos que têm dificuldade em manter a atenção durante explicações orais, que se dispersam facilmente, que pedem para repetir instruções simples. Não se trata de falta de inteligência nem de vontade de aprender, mas, na maioria das vezes, trata-se de falta de treino da escuta.

A sociedade acelerou, tudo se passa a uma velocidade estonteante, mas a escola continua a exigir atenção. Entre estes dois ritmos cresce um desajuste que já não pode ser ignorado. As crianças habituaram-se a estímulos rápidos, a mudanças constantes, a sons que se sucedem sem pausa, mas escutar exige precisamente o contrário: tempo, silêncio e atenção.

Mas o que me preocupa é que esta questão ultrapassa as salas de aula, pois é cultural e social. Quando o tempo dedicado às artes e às linguagens expressivas é frequentemente tratado como secundário, quando a música e outras áreas criativas são vistas como complemento e não como parte essencial da formação, estamos a perder uma oportunidade fundamental de desenvolver atenção, concentração e relação com o outro.

A dificuldade crescente de concentração não se resolve apenas com mais conteúdos ou mais exigência. Existe uma dimensão humana da aprendizagem que depende da capacidade de parar e prestar atenção ao que o outro diz. Sem escuta, não há verdadeiro diálogo e, sem diálogo, o conhecimento transforma-se em ruído.

Aquela cena no café fez-me pensar nisso, pois a criança não precisava de mais estímulos, precisava de um ritmo diferente. Bastou um momento simples, partilhado e criativo para surgir atenção verdadeira. Talvez o problema não esteja nas crianças, mas no ambiente que construímos à sua volta.

Perante este cenário, não basta identificar o problema, mas sim reagir, e a escola pode e deve criar mais momentos que desenvolvam atenção auditiva, silêncio e observação. As artes precisam de ser valorizadas como espaços onde se aprende a escutar e a estar presente.

As famílias também têm aqui um papel decisivo no que se trata de tecnologia. Não se trata de a demonizar, mas de criar um equilíbrio entre os momentos sem ecrãs, tempo para conversar, brincar e simplesmente estar.

As decisões educativas e culturais precisam de reconhecer esta realidade, pois falar de concentração, bem-estar e aprendizagem exige escolhas claras sobre aquilo que valorizamos no desenvolvimento das novas gerações. Porque, no fundo, a questão não é tecnológica nem geracional. É uma escolha coletiva sobre o tipo de atenção que queremos construir.

Talvez ainda vamos a tempo de recuperar algo essencial: a capacidade de parar, ouvir e pensar antes de reagir.

Se não ensinarmos as crianças a escutar hoje, amanhã teremos adultos incapazes de ouvir o mundo que constroem.

 

Doutor João Ribeiro
Professor de Educação Musical
Investigador colaborador no Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC)
Instituto da Educação da Universidade do Minho