300 anos de história. E agora?
Há territórios cuja identidade se constrói ao longo de gerações. Outros têm a felicidade de possuir recursos que, durante séculos, ajudaram a definir aquilo que são. As Caldas das Taipas têm ambas as coisas.
A história termal das Caldas das Taipas é trimilenar. Ao longo de milhares de anos, estas águas marcaram a ocupação, a identidade e o desenvolvimento deste território, deixando-nos um património que atravessou diferentes épocas e gerações.
Em 1726, Francisco da Fonseca Henriques publicava o Aquilégio Medicinal, uma obra fundamental para o conhecimento das águas minerais portuguesas. Trezentos anos depois, essa referência constitui um marco importante numa história muito mais antiga e recorda-nos que a ligação das Taipas às suas águas termais não é recente, nem circunstancial. Faz parte da nossa identidade.
Mas celebrar três séculos sobre a publicação desta obra não pode significar apenas olhar para trás.
Preservar a memória é fundamental, mas o verdadeiro desafio está em saber o que fazemos hoje com aquilo que recebemos das gerações anteriores. Um património só permanece verdadeiramente vivo quando consegue continuar a criar conhecimento, atividade económica, emprego, qualidade de vida e capacidade de diferenciação para o território.
É precisamente por isso que acredito que o futuro das Caldas das Taipas deve continuar profundamente ligado à saúde.
O termalismo mudou. Hoje já não pode ser visto apenas através da imagem tradicional das termas ou limitado ao tratamento de determinadas patologias. Saúde, prevenção, bem-estar, envelhecimento saudável, investigação, turismo de saúde e acompanhamento clínico são áreas que cada vez mais se cruzam e que abrem novas possibilidades para territórios com recursos e história como o nosso.
Também nesse sentido tem vindo a ser desenvolvido um trabalho de reforço da Clínica de Saúde da Taipas Turitermas, procurando alargar progressivamente a resposta à população através da introdução de novas especialidades médicas e de uma oferta de cuidados cada vez mais diversificada.
Não se trata de abandonar aquilo que sempre fomos. Pelo contrário. Trata-se de perceber como podemos fazer evoluir essa vocação histórica para a saúde e adaptá-la às necessidades do presente.
As Taipas têm condições para ambicionar mais. Para não serem apenas uma vila onde existem termas, mas um território reconhecido pela saúde, pelo termalismo, pelo bem-estar e pelo conhecimento associado aos seus recursos naturais.
É também com esse espírito que, no próximo dia 19 de setembro, iremos assinalar os 300 anos do Aquilégio Medicinal através de uma sessão pública dedicada à história e ao conhecimento das nossas águas.
Será uma oportunidade para revisitar Francisco da Fonseca Henriques e a importância da sua obra, mas também para aprofundar o conhecimento sobre a hidrologia e a evolução das águas termais das Caldas das Taipas, contando, entre outras intervenções, com a participação do tesoureiro da Taipas Turitermas, Carlos Marques, nesta área.
Mais do que realizar uma comemoração, queremos promover reflexão.
Porque conhecer aquilo que temos debaixo dos nossos pés, compreender a história das nossas águas e perceber a forma como foram utilizadas e estudadas ao longo dos séculos é também uma forma de pensar aquilo que podemos construir a partir delas.
Há milhares de anos que estas águas fazem parte da história das Caldas das Taipas. Há 300 anos, Francisco da Fonseca Henriques voltou a colocá-las no conhecimento escrito do seu tempo.
Hoje, a responsabilidade é nossa.
Temos de conhecer este património, preservá-lo e, sobretudo, dar-lhe futuro.
Porque celebrar 300 anos de um marco da nossa história só fará verdadeiramente sentido se formos capazes de continuar a escrever a história que começou muito antes de nós.