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“Vamos levar mais rapidamente o que fazemos às pessoas" - Miguel Oliveira

Redação
Ciência & Tecnologia \ sábado, março 27, 2021
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Complementar ao Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa, o novo edifício do Avepark permitirá a obtenção de resultados mais precisos.

A futura casa do Instituto Cidade de Guimarães (ICG) já se vê no Avepark: a volumetria e as linhas da construção, com três pisos, assemelham-se às do Instituto Europeu de Excelência em Engenharia de Tecidos e Medicina Regenerativa, logo ao lado, onde o 3B’s – grupo de pesquisa em biomateriais, biodegradáveis e biomiméticos – experimenta a recriação de tecido celular a partir de cartilagem ou de pele, por exemplo. Na função, também são parecidos, mas não idênticos, quais gémeos falsos. “´É uma infraestrutura complementar, não redundante da já existente. Vamos ter uma outra capacidade em termos de equipamentos científicos e fazer também um upgrade no desenvolvimento dos tecidos, microtecidos ou biomateriais que desenvolvemos em laboratório”, adianta ao Reflexo Miguel Oliveira, vice-presidente do 3B’s, grupo de investigação a que pertence desde 2003.

Um dos avanços garantidos pelo novo edifício, designado TERM Research Hub – em português, eixo de pesquisa em engenharia de tecidos e medicina regenerativa -, é a instalação de duas “salas limpas”, salienta o cientista taipense. Uma delas terá um “nível muito elevado de pureza”, com “controle atmosférico muito preciso” e um número de partículas em suspensão no ar muito baixo”, atesta. A outra será um laboratório de cultura celular de “qualidade superior” face aos do instituto vizinho. O grupo de investigação da Universidade do Minho (UMinho) espera assim suprir a escassez de “salas e laboratórios climatizados”, imunes à “contaminação das tecnologias”, e acelerar a tradução dos resultados laboratoriais em aplicações para a humanidade. “O desenvolvimento dos materiais e tecnologias para a aplicação em humanos requer salas limpas. Neste edifício, já teremos laboratórios que vão levar mais rapidamente o que fazemos ao humano”, esclarece.

O investimento de 12 milhões de euros vai garantir mais oito salas de investigação, destinadas aos biomateriais marinhos, a laboratórios químicos semelhantes aos do lado e a algumas das tarefas hoje asseguradas pelo edifício que é casa do 3B’s desde 2008; as escuras salas de microscopia do rés do chão, onde, por exemplo, se analisa a viabilidade da gelatina de tubarão, vão-se mudar para o novo edifício, adianta Miguel Oliveira.

No piso superior, o mesmo acontece com o laboratório de histologia (área da biologia que estuda tecidos). “Esta infraestrutura vai ser ampliada. A ideia é também fazer serviços de histologia para fora. Este pequeno laboratório serve o propósito do grupo, mas, para serviços, vai ser expandido”, esclarece o vice-presidente do 3B’s enquanto mostra os equipamentos ao Reflexo. A sala de histologia no imóvel em funcionamento será ocupada pelo laboratório de biorreatores. Por sua vez, o espaço dos biorreatores estará ligado ao TERM Research Hub por uma passagem pedonal interna. A nova infraestrutura vai ainda “triplicar a capacidade de gabinetes para investigadores” – estarão na parte frontal do edifício, em formato open space.

 

“Temos equipamentos para avaliar a superfície de diferentes ligas metálicas usadas em cutelaria e aferir se o aço tem qualidade suficiente”

Mas a ciência a cargo do ICG não se cinge a aplicações para a saúde. O 3B’s já produz conhecimento para a indústria da cortiça e, graças às novas instalações, também o vai fazer para as indústrias têxtil e do calçado, espalhadas pelo concelho de Guimarães, e para a indústria de cutelaria, concentrada nas Caldas das Taipas. “Queremos abrir-nos a um outro conjunto de indústrias com forte impacto local e regional. Além da ciência que levamos para um humano, queremos também dinamizar os setores tradicionais”, explica Miguel Oliveira.

No caso da cutelaria, o ICG vai, por exemplo, verificar se há oxidação ou corrosão na superfície das ligas metálicas. “Temos equipamentos para avaliar a superfície de diferentes ligas metálicas usadas em cutelaria e aferir se o aço tem qualidade suficiente. Se há processos de corrosão, é possível perceber o que se está a passar com as ligas metálicas”, esclarece o investigador. Além da análise físico-química do material, os investigadores a cargo desse serviço farão também a análise morfológica com recurso à microscopia, acrescenta.

O edifício destinado ao instituto distingue-se ainda como membro do Roteiro Nacional de Infraestruturas de Investigação de Interesse Estratégico – foi uma das 40 infraestruturas selecionadas pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) nos resultados conhecidos a 16 de Dezembro de 2014, após 121 candidaturas. Nessa condição, o equipamento tem a “missão de servir não só a investigação dos 3B’s, mas também o panorama nacional de investigação”, refere o cientista taipense, licenciado em bioquímica e doutorado em engenharia de tecidos e materiais híbridos. Assim, qualquer investigador português poderá usar o TERM Research Hub. Basta um pedido de acesso. “Imagine-se que um investigador da Universidade de Lisboa precisa de fazer um ensaio numa sala limpa. Pode pedir o acesso à infraestrutura. Nós aferimos a qualidade ou o interesse do trabalho e o investigador vem cá”, detalha.

 

Inauguração em junho ou julho

Mais de um ano depois da obra ter arrancado, em novembro de 2019, há ainda etapas por cumprir até ao ICG estar pronto a inaugurar. É certo que a cerimónia solene não vai acontecer antes do final de Maio, avança Miguel Oliveira. Essa espera, acrescenta, também resulta da possível “disponibilidade de agenda de algumas personalidades”, nomeadamente a do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. “Será sempre em Junho ou em Julho. A inauguração oficial vai ser agendada tendo em conta essas agendas, em particular a do Presidente da República”, admite. O investigador reconheceu que 24 de Junho, feriado municipal habitualmente reservado às inaugurações, é uma hipótese.

Está, assim, por meses a conclusão de um processo que arrancou em 2013, com uma proposta para um protocolo de cooperação entre a UMinho e a Câmara Municipal, aprovada em reunião do executivo, a 14 de Novembro. O anúncio para o concurso público da obra, todavia, só foi publicado em Diário da República em 30 de janeiro de 2019. Inicialmente, o projecto foi submetido ao overbooking (recurso a fundos não utilizados) do quadro comunitário da União Europeia entre 2007 e 2013, mas a candidatura foi recusada por “falta de maturidade”, admite Rui Reis, presidente do 3B’s e coordenador do TERM Research Hub. “Teve a ver com alguns documentos burocráticos que aquele aviso, ao qual concorremos na primeira vez, exigia e ainda não tínhamos”, diz.

Após a integração no roteiro nacional da FCT, o TERM Research Hub assegurou um financiamento de 10,8 milhões de euros – 9,2 do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (85%) e 1,6 do Governo -, verba à qual se juntaram os 1,2 milhões da Câmara Municipal de Guimarães, segundo o protocolo de cooperação entre autarquia e universidade, assinado em 15 de maio de 2018.

 

“A nossa ideia é, nos próximos anos, atingir 240 ou 250 investigadores”

Relativamente à quantia disponibilizada ao projeto, o vice-presidente do 3B’s explica que 50% se destina à aquisição de equipamento científico, como microscópios, 25% ao edifício – o valor-base do concurso público era de 3,1 milhões de euros -, e outros 25% à contratação de investigadores “altamente qualificados”. “A contratação destes investigadores tem vindo a ocorrer, mas vai ser aumentada. A perspetiva é contratar mais 40 pessoas a diferentes níveis. A nossa ideia é, nos próximos anos, atingir 240 ou 250 investigadores”, esclarece o investigador.

O 3B’s oscila, para já, entre os 170 e os 200 investigadores, consoante os projetos em curso e o financiamento assegurado. Graças ao Estímulo ao Emprego Científico, da FCT, a entidade tem contratado pessoas a termo incerto, sejam elas investigadores, assistentes de laboratório ou técnicos da equipa de gestão. Esse reforço é um passo rumo ao fim da “precariedade na investigação”, considera Miguel Oliveira, sem no entanto assegurar que o grupo sediado no Avepark ver-se-á livre do fenómeno a curto ou médio prazo. “Com esta incerteza, não podemos garantir que, nos próximos três ou quatro anos, o consigamos fazer, mas estamos a trabalhar nesse sentido”, diz o responsável, um dos 10 investigadores de carreira do 3B’s.

 

Aquários de conhecimento

Uma das novas salas do ICG estará vocacionada para a investigação dos recursos marinhos e possível conversão para saúde, alimentação e indústria.

Poder-se-ia esperar os adereços mais distintos num laboratório coordenado por um doutorado em química fossem os balões volumétricos, os funis ou os tubos de ensaio. Não é o caso de Tiago Silva; no futuro espaço de trabalho do investigador, membro do 3B’s desde 2006, as estrelas serão os aquários. A sala projetada para o ICG terá mesmo um aquário de exibição entre os vários aquários de trabalho. “Queremos tê-lo para ficar evidente que trabalhamos com recursos marinhos. Teremos cerca de uma dezena de espécies na sala”, justifica ao Reflexo. Entre essas espécies, sobressai o peixe-zebra, animal nativo dos rios do Sul da Ásia que tem algo em comum com os humanos: vários dos genes que originam doenças, cujo conhecimento poderá ser útil para o seu tratamento.

Responsável dos 3B’s pela investigação em biomateriais marinhos, Tiago Silva adianta que, graças às instalações melhoradas do Term Research Hub, a sua equipa vai isolar mais facilmente os compostos de interesse nos organismos marinhos com que trabalha, ao invés de confiar esse trabalho a entidades parceiras. “Podemos verificar a citotoxicidade dos compostos ou avaliar um primeiro desempenho dos biomateriais que desenvolvemos”, adianta. A partir da informação providenciada pelos modelos de laboratório, nem sempre imediatamente replicável nos seres humanos, a equipa decide ou não avançar com mais estudos, acrescenta.

Esse trabalho é a base para parcerias com empresas da área alimentar, nomeadamente de produção de algas – a Algaplus, em Ílhavo, por exemplo -, mas também para colaborações com indústrias de processamento de pescado, com o intuito de valorizar subprodutos como as escamas e as espinhas; isso já acontece com a Soguima, empresa de Vila Nova de Sande que contribuiu para a criação de sapatos ou de acessórios a partir da pele de peixe.

A investigação dos 3B’s em recursos marinhos também quer estreitar os laços com a Galiza, nomeadamente com universidades como a de Vigo e a de Santiago de Compostela. Tanto o Norte de Portugal, como a Galiza têm uma “forte investigação” sobre recursos marinhos e subprodutos, mas sem se traduzir num tecido empresarial forte na área da biotecnologia, diz Tiago Silva. “À semelhança do resto da Península Ibérica, as regiões não são particularmente fortes em empresas de biotecnologia, quando comparadas com outros países europeus. As empresas são fundamentalmente spin-offs de universidades”, assume.

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