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Hospital e vereadores esperam que ULS melhore cuidados de saúde primários

Tiago Dias
Sociedade \ quinta-feira, setembro 14, 2023
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A entrada em vigor do modelo está prevista para 01 de janeiro de 2024, com Hospital Senhora da Oliveira e ACES Alto Ave numa só entidade. Vice-presidente da Câmara admite, contudo, “processo lento”.

O diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), Fernando Araújo, disse, no final de agosto, que a criação de 31 Unidades Locais de Saúde, como acréscimo às oito já em funcionamento, é a “grande reforma” do SNS, e o presidente do conselho de administração do Hospital Senhora da Oliveira – Guimarães (HSOG) corrobora desse pensamento.

No próximo ano, HSOG e Agrupamento de Centros de Saúde do Alto Ave (ACES Alto Ave) passam a estar integrados numa mesma entidade. Até agora de fora da área de referência do hospital, o centro de saúde de Celorico de Basto também vai integrar a ULS. Para Henrique Capelas, a integração dos cuidados primários e hospitalares numa só entidade garante ao utente a “prestação de cuidados em contínuo” e pode terminar ou, pelo menos, mitigar o que classifica de “jogo de pingue-pongue” – por exemplo, o facto de um utente precisar de recorrer ao centro de saúde e também ao hospital para obter autorização para um determinado procedimento médico, com o processo a circular entre as duas entidades e a gerar demora na prestação de cuidados de saúde. “Nos cuidados integrados, não há separação de responsabilidades. O foco está no cidadão, não na organização”, defendeu, numa sessão de esclarecimento na Câmara Municipal de Guimarães, a anteceder a reunião quinzenal do executivo.

Para o responsável, é preciso garantir cuidados de saúde sem forçar os portugueses a pagarem mais impostos; segundo os dados que apresentou, Portugal gasta uma percentagem dos impostos que cobra superior à média europeia. Esse valor, que, anualmente, ronda os 15,6 mil milhões de euros está ainda sujeito a um desperdício entre os 20 e os 22%. “São três mil milhões desaproveitados. Aqui está a diferença entre gastar mais e gastar melhor”, realça. Henrique Capelas considera que a gestão é a “doença crónica” do SNS. “O problema do SNS não é falta de médicos, nem ter maus médicos. O problema do SNS é um problema de gestão. A saúde não tem gestores. Fernando Araújo [diretor executivo do SNS] já o disse”, vinca.

 

“Processo vai ser lento”, diz vice-presidente da Câmara

Responsável pelo pelouro da saúde, a vice-presidente da Câmara Municipal de Guimarães crê que a reorganização dos cuidados hospitalares e primários na Unidade Local de Saúde é “uma boa aposta”, mas avisa que “o processo tem de ser muito célere”; a entrada em vigor do novo modelo está prevista para 01 de janeiro de 2024 e ainda não se conhece qual a futura comissão instaladora, qual o futuro conselho de administração e até qual a futura sede, embora o Hospital Senhora da Oliveira – Guimarães seja a solução mais provável.

“O processo tem de ser muito célere, dentro do hospital e do centro de saúde. Partilho das preocupações. É um tempo muito curto para colocar as coisas em marcha”, vincou Adelina Paula Pinto, na reunião de Câmara desta quinta-feira. A ULS vai fundir o HSOG e o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Alto Ave sob uma única administração, e a vereadora tem-se reunido com ambas as entidades.

Confirmando-se que a ULS é “uma mais-valia”, Guimarães vai estar na linha da frente para o implementar, mas Adelina Paula Pinto assume que a reorganização merecia uma melhor comunicação por parte do Ministério da Saúde. A otimização da ULS vai ser um processo lento, avisa. “Não é por entrar 2024 que vai funcionar tudo de repente. É um processo vai ser lento (…). Não vamos ter uma ULS perfeita”, acrescenta.

A vereadora lamenta ainda o facto de a avaliação das oito ULS existentes não ser público e de virem a público sobretudo “más notícias”, circunstâncias que dificultam a implantação de um modelo que, a seu ver, exige “um forte investimento nos cuidados de saúde primários”. “Muitas das situações que o hospital tem de resolver estão a montante. Se o centro de saúde resolver, já não se vai entupir o hospital. Atenção aos cuidados de saúde primários”, realçou.

A ULS também pode aproximar os seis concelhos que a integram; o presidente do conselho de administração do HSOG, Henrique Capelas, já deu conta de que os médicos do hospital podem prestar atendimento nos centros de saúde em certos contextos, numa aproximação às populações mais distantes como a de Mondim de Basto. Adelina Paula Pinto avisou, porém, que é preciso “muito cuidado” na forma como se planeia esses atendimentos para evitar possíveis sobrecargas dos profissionais de saúde.

“Um pediatra do hospital pode ir ao centro de saúde de Mondim, mas não pode ir de forma avulsa. Ninguém vai de repente para atender a um pedido. Tem de se verificar se se reúne um certo número de crianças num certo dia e horário para o hospital prestar atendimento descentralizado no centro de saúde. Não podem perder as condições de trabalho, se não vamos ter uma reação dos profissionais de saúde numa área em que já há tanto desagrado”, esclareceu.

 

Oposição é favorável, mas lembra hemodinâmica

Após a intervenção de Henrique Capelas, o presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Domingos Bragança, considerou que a reorganização da saúde em ULS é “um projeto excecional que exige coragem”, e um dos vereadores da coligação Juntos por Guimarães (JpG), Ricardo Araújo, mostrou-se “tendencialmente favorável ao modelo”, embora queira saber mais sobre o que está em causa.

Outro dos representantes do PSD, Bruno Fernandes, admitiu que a ULS pode ser mais-valia, mas lembrou a demora na implementação do serviço de hemodinâmica para expressar algum ceticismo. “Que o cidadão possa sentir melhorias neste sistema de saúde que não tem melhorado. Se tivermos como referência a demora que levou à implementação do Serviço de Hemodinâmica do Hospital Senhora da Oliveira, temos algum ceticismo. Mas somos otimistas. Que essa melhoria dos modelos de gestão possa representar uma mais-valia”, disse.