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Cutelarias “pressionadas pelo disparo” do preço das matérias-primas

Bruno José Ferreira
Sociedade \ sábado, fevereiro 26, 2022
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Pandemia levou a uma subida abrupta dos preços das matérias-primas e o setor das cutelarias está a sentir esse aumento. A dificuldade em encontrar matérias-primas é também uma realidade.

A pandemia colocou vários problemas à sociedade e, se a questão da saúde tem sido a mais premente, há outros setores de atividade que têm sentido na pele os efeitos de uma crise sanitária à escala planetária. É o caso das indústrias de cutelaria, um importante tecido empresarial das Taipas e das freguesias circunvizinhas, que por mês – apenas as quatro empresas abordadas para realizar esta reportagem – produzem mais de um milhão de peças para exportar para todo o mundo. Aliás, a tradição das Taipas e arredores no ramo das cutelarias é reconhecida, chamando a si o estatuto de Capital da Cutelaria; essa marca – Caldas das Taipas-Capital da Cutelaria – foi registada em 2011 pela Junta de Freguesia de Caldelas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Até já foi renovada, vigorando agora até 2031. O setor já atravessou várias crises e momentos de menor fulgor, estando neste momento a braços com mais um momento de pressão, conforme dão conta algumas das principais empresas de cutelaria ao Reflexo.

O aço inoxidável, principal matéria-prima de produção, sofreu um “aumento abrupto de preço como não há memória”, refere Clara Marques, presidente do conselho de administração da Herdmar: “Os preços das principais ligas de aço dispararam em 2021, em algumas delas superando um aumento de 100 por cento no último trimestre”. A representante da empresa com 110 anos de história explica que, “tendo como principal matéria--prima uma commodity como o aço inoxidável, seria impossível sairmos impunes desta crise económica e social instalada após o surgimento da pandemia”, tendo argumentado que após os períodos de confinamento os lockdowns que daí advieram “potenciaram de imediato uma quebra de stocks dos principais players siderúrgicos”.

Uma perceção em tudo idêntica à sentida pela Cutipol, conforme reporta de forma mais prática o gestor de operações João Pedro Ribeiro. “Para se ter uma ideia, o preço de uma chapa de espessura específica de 4,5 milímetros, desde a última vez que comprámos para o momento em que estamos agora a comprar, mais do que triplicou. Por aqui dá para ter uma ideia do aumento dos custos e o que significa no dia a dia das empresas”, refere ao nosso jornal. Já Jorge Silva, da administração da empresa Serafim Fertuzinhos, aponta que a subida de preços tem sido um processo gradual que, na sua evolução, atinge os números referidos. “A realidade é que os preços têm vindo a subir desde o início da pandemia; começaram a ser notados em meados de 2020 e têm vindo a crescer sucessivamente, sendo que nesta altura os metais, como o aço, já ultrapassaram o dobro do preço”.

Na Cristema, repete-se o figurino. “Hoje compramos a dois euros, amanhã vamos comprar a três e depois a quatro. Tem sido assim sucessivamente e temos aumentos superiores a 90 por cento”, sublinha o administrador Emanuel Fertuzinhos, que lança outro dado para o panorama geral das em
presas de cutelaria: “Tem havido grande dificuldade em encontrar matérias-primas”.

“Pior do que o preço é não ter matérias-primas”

Este dado leva-nos para outra dimensão do problema. A escassez de matéria-prima leva a que haja dificuldade em cumprir prazos e obter entregas em tempo útil. “Hoje fechamos uma encomenda e, se não tivermos a matéria-prima dentro de portas, vamos comprar a matéria-prima. O que podemos dizer é que fechámos uma encomenda, mas não a vamos entregar”, admite Emanuel Fertuzinhos. Isso traz implicações naturais para o dia a dia das empresas, sendo que, na Cristema, “a empresa tem um planeamento gerido ao mês. Neste momento, a realidade é que estamos a fazer a gestão ao dia”. Voltando à Herdmar, sediada em Barco, a empresa conseguiu mitigar o problema com “algumas alternativas encontradas no mercado” para fazer face à escassez nas principais ligas de aço inoxidável e também a consumíveis afetos à produção “logo no início de 2021”, com “impacto imediato” no período que decorre entre formalização da encomenda e a entrega. Isso comprometeu “os prazos de entrega de muitas encomendas”, destaca Clara Marques.

“A instabilidade tem trazido alguns dissabores que remetem à necessidade constante de reorganizar e replanear todas as atividades produtivas”. Um planeamento que passa agora a fazer em microciclos tão curtos quanto possível, na medida em que é impossível organizar a produção a longo prazo. “Na Cutipol, temos feito a análise da cobertura de risco, para que esse mesmo risco seja reduzido”, expõe João Pedro Ribeiro. O gestor de operações da empresa diz que o processo está a ser mediado com o diálogo também por parte de quem fornece as matérias-primas. “Fomos desde logo avisados pelos fornecedores que, para além do aumento do preço, haveria ainda risco devido ao aumento generalizado da procura”, dá nota, expressando aquele que foi, e continua a ser, um receio: “Maior dano do que ter de comprar matéria-prima mais cara é não ter matéria-prima”.

Um panorama algo distinto do que se vê na Serafim Fertuzinhos, já com “todas as encomendas para 2023 a nível das matérias-primas” que a empresa mais consome. “A política da empresa é ter stocks altos”, considera Jorge Silva, que, apesar de ter as encomendas feitas, não consegue fugir ao limbo da incerteza. Uma incerteza que vai para além das matérias-primas primárias, como o aço, uma vez que vários outros produtos necessários, como químicos e produtos de embalagem, sofreram um incremento no preço.

“Assusta viver neste clima de incerteza há mais de um ano”

A juntar o aumento dos preços à incerteza das entregas de matéria-prima, cria-se um clima de desconfiança que “assusta”, no entender do membro da administração da Serafim Fertuzinhos, empresa especializada em tesouras técnicas. “Mesmo com toda a programação e com as encomendas feitas, devido à sobrecarga sobre as empresas que fabricam o aço, tem havido bastantes atrasos que condicionam a programação”, admite. Um argumento que não é novo, mas que acaba por transportar a gestão das empresas para o tal clima de desconfiança. “Assusta viver num clima em que já se vive há mais de um ano, pela a forma como está a ser abafado pelo poder político e como não há o devido realce pela comunicação social. Há uma diferença entre as subidas que temos tido e a inflação que se verifica no final do ano. Não é o que se sente na realidade”, conclui.

Argumentos que, de certa forma, vão ao encontro da visão geral de João Pedro Ribeiro sobre o momento que as empresas do setor estão a vivenciar. “Tem havido uma pressão enorme neste ramo, não só devido ao custo das matérias-primas como devido a todos os restantes custos, tais como mão-de-obra, transportes, custos energéticos, entre outros. Sente-se o contexto geral de inflação com uma perda de margem da nossa empresa, e de outras, o que leva a dificuldades” destaca o gestor de operações da Cutipol, confirmando que se está a “sentir na pele este fenómeno de incerteza”.

Na Cristema, o administrador Emanuel Fertuzinhos realça que esta incerteza, com a “grande dificuldade em encontrar matérias-primas”, será um entrave ao “crescimento económico” das empresas, na medida em que se tem visto as encomendas aumentar, segundo um fenómeno que se julgou menos prolongada no tempo, conforme acredita João Pedro Ribeiro, da Cutipol. “Pensou-se que seria um fenómeno transitório, mas os últimos dados indicam que este cenário que deverá prevalecer nos próximos tempos”, sublinha.

Mais encomendas e o preço a subir

Apesar de todo este contexto de dificuldades, a verdade é que os números indicam que as quatro em
presas abordadas pelo Reflexo estão a conseguir manter o volume de negócios. Daí Emanuel Fertuzinhos considerar que esta conjetura está a ser mais do que um momento de crise, figurando como um entrave ao crescimento que tinha condições para se efetivar. “Temos tido um aumento significativo de encomendas: se temos aumento de encomendas e diminuição de entrega de matérias-primas. Já que sempre que vamos ao mercado o preço sobe, é natural que seja difícil gerir”, comenta o administrador da Cristema.

O efeito prático desta dicotomia é o natural aumento do preço junto do consumidor final. “No espaço de um ano mexemos na nossa tabela geral de preços quatro vezes, quando normalmente mexemos uma vez por ano e, às vezes, de dois em dois anos. Com estes aumentos que se têm registado, as peças chegam ao consumidor final ao triplo do preço”, destaca o administrador da empresa. Também na Herdmar a subida dos preços foi uma inevitabilidade, apesar de numa primeira instância se ter privilegiado a gestão “de forma consciente, sensível e conjunta com os parceiros todo este aumento abrupto e generalizado de materiais e serviços”.

No segundo semestre de 2021, “com o escalar contínuo dos custos, fomos forçados a rever os preços e condições de venda por duas vezes”, sempre tendo em conta “uma boa comunicação com os clientes”, assegura Clara Marques, presidente do conselho de administração da Herdmar. Mesmo tendo de “reajustar de forma contínua o processo produtivo”, a empresa que produz sensivelmente 30 mil peças por dia manteve o volume de negócios dentro do previsto em 2021, com “um aumento de cerca de 45% face ao período homólogo”. Na Serafim Fertuzinhos, a perceção de que todo este cenário que se vive se vai prolongar no tempo é igualmente uma certeza. Com a mudança de paradigma que se verifica, notando-se o regresso de clientes que tinham fugido para a Ásia, a empresa está a perder “margem” na sua gestão. “Felizmente o volume de negócios tem crescido, mas este aumento dos preços, e não é só nas matérias-primas, está a cortar toda a margem que temos, porque há também as questões do transporte e da energia”, sustenta Jorge Silva.

Na Cutipol, também ainda não se nota “perda de volume de negócios”. Os preços foram atualizados, tal como é prática da empresa, no início do ano, e João Pedro Ribeiro acredita que a subida acaba por ser “generalizada” face às circunstâncias, acompanhando a subida do preço das matérias-primas. É neste limbo que as empresas de cutelaria têm vivido nos últimos tempos. As encomendas aumentam, mas com o aumento dos preços das matérias-primas, de forma generalizada, e até mesmo a escassez de materiais, há uma pressão e incerteza constantes que inviabilizam o planeamento desejado para a produção. Inevitavelmente, o preço de cata utensílio sofre um incremento quando chega ao consumidor final.

[ndr] Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro do Jornal Reflexo.