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Bem longe de ser unânime, casa mortuária de Vila Nova de Sande está à vista

Tiago Dias
Sociedade \ domingo, fevereiro 20, 2022
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“Espetacular” para uns e digno de “demolir” para outros, edifício está concluído por fora. Faltam os interiores e os arranjos em volta. União de Freguesias quer obra pronta até ao fim do ano.

Ao largo da Estrada Nacional 310, à passagem da igreja paroquial de Vila Nova de Sande e do parque verde em redor, há um novo volume que salta à vista: a camada cor de ferrugem realça um desenho oval, que se afasta das linguagens arquitetónicas que habitualmente pontuam as casas mortuárias da região.

“Tenho tido reações das mais diversas, desde pessoas que já me disseram que é espetacular, fora do normal e que gostam muito a pessoas que me perguntam se vou mandar demolir, porque não tem jeito nenhum”, adianta ao Reflexo o presidente da União de Freguesias (UF) de Sande Vila Nova e Sande São Clemente, Tiago Rodrigues.

Eleito pela coligação Juntos por Guimarães no sufrágio de desempate realizado a 10 de outubro, 15 dias depois das eleições para os órgãos locais, o autarca está agora encarregue de prosseguir a obra iniciada sob a vigência do anterior presidente da UF, o socialista Bruno Falcão.

E não é possível ainda estimar a data a que vai terminar. Fruto do subsídio de 96.525 euros atribuídos pela Câmara Municipal, na reunião de 14 de junho de 2021, a empreitada orçada em 182 mil euros (mais IVA de 6%) avançou ao longo do último ano. Com os arranjos exteriores “prestes a terminarem”, os trabalhos no interior vão arrancar, prevendo-se que durem “três ou quatro meses, detalhou Tiago Rodrigues; estarão, portanto, concluídos no primeiro semestre de 2022.

Os arranjos exteriores requerem, todavia, um outro contrato. “Aquando da minha tomada de posse, essa parte já estava falada, mas não contratada e projetada. Ainda não há orçamento. Já tivemos reunião com o arquiteto e serão ajardinados, à partida”, acrescentou o responsável.

Como ainda falta apresentar o projeto à Assembleia da Freguesia antes do pedido de subsídio à Câmara – a Junta “não temos verbas próprias” para sustentar toda a intervenção, é difícil prever se os arranjos exteriores estarão concluídos até dezembro. “Gostaria muito de ter isto pronto até ao final do ano, mas tudo depende da atribuição de um subsídio”, reconhece. “Ainda não fizemos o pedido porque falta apurar valores. Estou certo de que vamos receber o apoio para a conclusão da obra, mas ainda não dá para saber quando”.

Independentemente das opiniões divergentes em torno da arquitetura ou do prazo de conclusão, Tiago Rodrigues reitera que a casa mortuária é essencial para “conferir a dignidade necessária” aos velórios e aos funerais de Vila Nova de Sande, até pelas experiências passadas com “familiares próximos”. “Esta é uma questão de que se fala há 20 anos. A paróquia cedia uma sala, mas não conferia a dignidade suficiente”, considera.

 

“Útero para uma vida nova”

O pároco de Vila Nova de Sande concorda que a obra em curso é “há muito desejada pela comunidade”, face à ausência de um “local digno para o velório das pessoas que partiam”: a sala no piso inferior da residência paroquial podia acolher um máximo de 10 pessoas e tornou-se inviável desde o início da pandemia. “Visto que aquilo não tinha grandes condições, o conselho económico optou por fazer os velórios no salão paroquial, onde há capacidade para umas 400 pessoas e para manter a segurança e o distanciamento”, esclarece ao Reflexo o sacerdote católico Marc Monteiro, responsável pela paróquia da Arquidiocese de Braga desde 2017.

Apesar do equipamento se destinar a todos os cidadãos de Vila Nova de Sande, independentemente do credo que seguem, o padre elogia a arquitetura da casa mortuária, devido à “simbologia bem pensada”. “Faz lembrar um ovo ou um útero. E, para os cristãos, o útero é uma metáfora para o início de uma vida nova. Tem um sentido teológico de que a morte é uma porta a abrir para uma outra vida em que acreditamos”, descreve.

Marc Monteiro considera ainda que as “novas linguagens” são “necessárias” para as pessoas “saírem um bocadinho da caixa”, mostrando-se agradado com a integração da nova estrutura com a igreja paroquial e o parque de lazer. “A arquitetura moderna também pode levar-nos ao transcendente. E a estrutura não choca a nível ambiental. Adequa-se àquele espaço, ainda que haja opiniões diferentes. Enquadra-se bem com o verde em redor”, sentencia.