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Big band europeia fecha um Guimarães Jazz com público de idades várias

Tiago Dias
Cultura \ segunda-feira, novembro 20, 2023
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Espetáculo da Kathrine Windfeld Big Band, perante um Vila Flor lotado, foi o último de 12 concertos na 32.ª edição do festival. Programadores enaltecem diversidade estilística e etária do evento.

A multidão, unânime, levantou-se pela segunda vez para aplaudir Kathrine Windfeld, a big band que a acompanha e os solistas Gilad Hekselman (guitarra) e Immanuel Wilkins (saxofone); a plateia que encheu o Grande Auditório Francisca Abreu, no Centro Cultural Vila Flor (CCVF), já se levantara pela primeira vez assim que se desvaneceram os últimos sons de “Orca”, sob comando de uma pianista e compositora que assumia a pele de maestrina no final de cada uma das oito peças apresentadas.

A 32.ª edição do Guimarães Jazz acabou no sábado à noite, na mesma escala em que começou: com big bands, as formações mais extensas do jazz, com uma secção de trombones, outra de trompetes e ainda uma de saxofones, a complementar a secção rítmica – piano, contrabaixo e bateria. Mas se a nova-iorquina Vanguard Jazz Orchestra, referência da segunda metade do século XX, expressou as peripécias da vida noturna e os pequenos senãos da vida quotidiana, a Kathrine Windfeld Big Band evoca experiências universais do que é ser-se humano, partindo de elementos naturais e até cósmicos – duas das peças intitulavam-se “Júpiter” e “Aldebaran”, uma estrela bem distante.

Pontuada pelos diálogos da guitarra de Hekselman e do saxofone de Wilkins, a música de Windfeld podia ser sóbria, tocando a formalidade da música clássica europeia, mas também evocativa de uma situação de terror e de calafrio – foi o caso de “Undertow”, com a sua secção rítmica ameaçadora.

No final, a multidão juntou-se em grupos na praça coberta antes de parte dela migrar para o café-concerto para a última jam session dos Landlide Plus One, quinteto residente do festival, que dera um concerto no Pequeno Auditório nesse mesmo dia e orientara jovens músicos nas oficinas de jazz. Entre as pessoas que ali trocavam impressões, encontravam-se o diretor artístico da cooperativa A Oficina para as artes performativas, Rui Torrinha, e o programador do festival, Ivo Martins.

“Não demos vida fácil ao público, e acho que as pessoas reagiram bem. A quantidade de público até superou a do ano passado. O festival do ano passado já era interessante e, neste ano, apresentando propostas mais exigentes, com mais critério e dificuldade em termos de assimilação, sentimos que há boa reação das pessoas”, descreve o programador, expressando a convicção de que as pessoas estão “sedentas de coisas boas”.

A noite de sábado foi o culminar de uma segunda semana que arrancou na quinta-feira, com meia casa para assistir ao fruto da colaboração entre a Orquestra de Guimarães e o quarteto do baterista Mário Costa, que prosseguiu na sexta, com lotação quase cheia para ver Buster Williams, referência entre os contrabaixistas do século XX, num espetáculo em que os restantes instrumentistas também sobressaíram, e que, no sábado, enveredou pela diversidade, começando, por exemplo, com Elliot Sharp e o seu trabalho que cruza o jazz, a eletrónica e a antropologia, a escolha do projeto Sonoscopia para este ano.

O leque de propostas da 32.ª edição tenta precisamente espelhar um anseio de diversidade, considera Rui Torrinha. “Uma das coisas importantes que o festival demonstrou mais uma vez na sua grande vitalidade é a diversidade de propostas e o arrojo que tem. É muito invulgar no panorama nacional e, mesmo a nível internacional, ver esta capacidade que o Ivo tem em colocar a diversidade num programa com arrojo e a forma como o público responde”, crê.

Ouvidos os últimos ecos do saxofone e do contrabaixo, do piano e da bateria, Ivo Martins crê que este Guimarães Jazz cumpriu o desígnio de ser “plural, aberto, horizontal”, fugindo à tentação de ter “grandes vedetas” numa noite e de ter um programa inferior nos outros dias. “Queremos harmonias. Queremos uma proposta que funcione como um bloco e exponencie”, disse, enaltecendo a vocação agregadora de uma iniciativa com “pessoas que pensam de maneira diferente, com a sua individualidade” e se cruzam para criar “alguma coisa de diferente”.

 

“Um público jovem que começa a aparecer e a integrar-se”

Fundado em 1992, o Guimarães Jazz alimenta-se dos aficionados que seguem o festival há anos, mas é cada vez mais frequente verem-se caras jovens na plateia, entre músicos e apreciadores. Rui Torrinha descreve a circunstância como “interessante num tempo em que os vínculos são difíceis de conseguir”. “Nota-se uma transversalidade de faixas etárias, de um público mais velho, informado, mas também de um público jovem que começa a aparecer e a integrar-se”, resume.

Uma das causas para essa crescente presença jovem são os projetos colaborativos do Guimarães Jazz – Associação Porta-Jazz, ESMAE, Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro, Orquestra de Guimarães e Sonoscopia -, que “despertam uma relação forte com o festival” e o impulso para pensar no projeto do ano seguinte assim que cada edição termina. “Há âncoras que ficam. Essas parcerias criam uma diferenciação na promoção do talento em Portugal. O festival contribuiu decisivamente para a alteração da paisagem do jazz em Portugal”, considera o responsável d’A Oficina.

Convencido de que o Guimarães Jazz é “um lugar de encontros, cruzamentos e cumplicidades”, Rui Torrinha diz-se feliz com uma edição que serviu de teste “em tempos de mudança acelerada”.

Ao lado, Ivo Martins também lança um olhar positivo sobre o festival recém-concluído, mas lembra que cada “festival parte do zero”. “O que aconteceu bem não garante que o próximo ano vá ser melhor ou pior. Isto tem lógicas em que não vale a pena estarmos com ilusões de que este ano foi um sucesso e isso vai continuar. Temos sempre de partir do zero, no sentido da procura, da busca, de uma ideia, de uma capacidade de juntar muitas coisas”, perspetiva.