Viver cansado tornou-se normal
Há uns dias reparei numa coisa simples, mas que me deixou a pensar. Estava num café e numas mesas ao meu lado alguém dizia ao telefone: “Está tudo, estou é cansado.” No dia seguinte, ouvi exatamente a mesma frase noutra conversa. E foi aí que comecei a reparar que a palavra se repete demasiadas vezes. Cansado, cansada… Sempre com muita naturalidade, quase como se fosse parte da descrição da pessoa.
Não é o cansaço de uma semana mais puxada, é um traço permanente mesmo. É a sensação de estar sempre a gerir alguma coisa: trabalho, contas, horários, preocupações, compromissos… Mesmo quando o dia acaba, a cabeça continua.
Há quem esteja a começar a vida profissional e já fala assim. Há quem tenha décadas de trabalho acumuladas e continue a procurar mais tarefas. Mesmo depois da reforma, muita gente não abranda, às vezes por necessidade, outras vezes porque parar parece estranho, quase considerado “desleixo”. Como se para descansar fosse preciso dar uma justificação.
Crescemos com a ideia de que o esforço traz estabilidade. E sim, o esforço continua a ser necessário. Mas, na maioria das vezes, não traz descanso. Traz manutenção, mantém a vida a funcionar, mantém tudo equilibrado no limite… E já não sobra muito.
Criou-se também um hábito curioso: estar ocupado tornou-se sinal de valor, a agenda cheia dá estatuto e a falta de tempo soa a importância. Dizer que se está exausto parece prova de dedicação e empenho. E talvez seja isso que mais assusta, quando o cansaço vira identidade, um traço que se aspira a ter.
Entretanto, pequenas coisas vão ficando para trás: conversas sem pressa, participação, silêncio, o simples ato de apenas observar o que está ao nosso redor… Até a capacidade de pensar com calma começa a falhar quando a energia está sempre no mínimo.
Se tantas pessoas em fases tão diferentes da vida, sentem o mesmo desgaste, talvez não seja apenas uma questão individual, talvez estejamos a aceitar como inevitável um ritmo que nunca foi feito para ser sustentável.
Não é uma questão de trabalhar menos. É uma questão de viver melhor. E talvez o primeiro passo seja reconhecer que não é normal sentir-se permanentemente cansado e chamar a isso de “maturidade”.
Porque se isto é o normal, talvez esteja na altura de perguntar se o normal faz sentido.