Temos opinião sobre tudo, mas reflexão sobre pouco
Hoje em dia, a opinião aparece quase ao mesmo tempo que aquilo que vemos ou ouvimos. Uma notícia, um comentário ou uma situação qualquer do dia a dia chegam até nós e, sem grande pausa, já estamos a reagir. Dizemos o que achamos, partilhamos, comentamos... Tudo acontece num ritmo tão rápido que quase não há espaço entre receber a informação e formar uma opinião sobre ela.
O problema não está em termos opinião, mas sim na forma como a construímos. Pensar exige tempo, exige alguma dúvida e, acima de tudo, exige disponibilidade para perceber que podemos não ter toda a informação. Mas isso nem sempre encaixa bem num ritmo em que parece que temos de ter sempre uma resposta pronta.
Isto nota-se muito nas redes sociais. Quantas vezes vemos comentários que mostram logo que a pessoa só leu o título ou a descrição, sem ter ido mais longe? Ou que viu apenas os primeiros segundos de um vídeo e decidiu, ali mesmo, o que pensar sobre aquilo? Ainda assim, esses comentários surgem muitas vezes com um tom seguro e, não raras vezes, bastante crítico ou até maldoso, sobre assuntos que, na verdade, nem chegaram a conhecer bem.
E o mais interessante é que isto não é exclusivo de uma geração. Não é só “culpa” dos mais novos ou de quem cresceu com tecnologia. É algo que atravessa várias idades. A falta de procurar perceber melhor antes de comentar, especialmente quando o comentário negativo está cada vez mais presente em todo o lado.
Nas conversas do dia a dia, a coisa não é muito diferente. Interrompe-se mais, ouve-se menos e muitas vezes já estamos a pensar no que vamos responder, em vez de tentar perceber o que o outro está realmente a perguntar. As conversas acabam por ser uma troca rápida de opiniões, mas nem sempre um verdadeiro momento de compreensão.
Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanto acesso à informação. Temos tudo à distância de um clique. Ainda assim, isso não significa que compreendamos melhor o que se passa à nossa volta. Pelo contrário, tanta informação e tanta rapidez acabam por levar a leituras mais superficiais e a conclusões feitas à pressa.
Ter opinião é importante, claro. Faz parte de estarmos envolvidos no que nos rodeia. Mas quando essa opinião nasce sem reflexão, perde a força. Fica apenas mais uma reação no meio de muitas.
Talvez o desafio esteja mesmo em reaprender a parar um pouco. Em ouvir com mais atenção, em ler até ao fim, em dar algum tempo antes de reagir. Porque, num tempo em que todos têm algo a dizer, pensar antes de falar pode ser o que mais faz falta.