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Talvez seja isto a comunidade

Movita em Reflexo
Opinião \ quinta-feira, maio 21, 2026
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Uma comunidade não se mede apenas pelo que consegue apresentar no fim. Mede-se também pelo que acontece durante o caminho. Pelas pontes que se criam.

Escrevo este texto a poucos dias do ENTRE com uma sensação difícil de explicar. Há cansaço, há nervos, há orgulho, há medo de falhar e há, acima de tudo, uma esperança que continua a resistir mesmo quando tudo parece mais difícil do que imaginávamos.

Quando começámos a pensar este encontro, talvez não tivéssemos plena consciência da dimensão que ele podia ganhar. Queríamos criar um momento de comunidade, abrir espaço para que pessoas, associações, instituições, escolas, empresas e projetos se encontrassem. Mas, pelo caminho, percebemos que organizar algo desta natureza não é apenas fazer um programa, confirmar horários ou montar estruturas. É lidar com pessoas. Com expectativas. Com sensibilidades. Com ritmos diferentes. Com entusiasmo, mas também com frustração. Com disponibilidade, mas também com limites.

E talvez seja precisamente aí que este processo se tornou mais verdadeiro.

O ENTRE tem sido bonito, mas não tem sido fácil. Tem-nos obrigado a aprender depressa, a errar, a corrigir, a pedir ajuda, a aceitar que nem tudo acontece como gostaríamos. Houve ideias que sonhámos e que não conseguimos concretizar. Houve momentos que imaginámos de uma forma e que acabaram por seguir outro caminho. Houve ausências que sentimos. Houve incompatibilidades que nos entristeceram. Houve conversas difíceis, decisões tomadas em cima do tempo, dúvidas, desgaste e alguma inexperiência nossa também. Seria injusto fingir que não.

Mas houve, sobretudo, pessoas.

Houve instituições que abriram portas. Houve equipas que se envolveram muito para além do que era esperado. Houve jovens, idosos, técnicos, voluntários, professores, associações e parceiros que começaram a olhar para este encontro como algo que também lhes pertencia. Ver o Centro Social disponível para fazer parte. Ver a Cercigui envolvida, com os seus jovens, com a sua energia, com a sua forma tão própria de nos lembrar que a inclusão não se anuncia: pratica-se. Ver escolas, clubes, coletividades, empresas e cidadãos a entrarem nesta construção. Tudo isso deu sentido ao esforço.

Porque uma comunidade não se mede apenas pelo que consegue apresentar no fim. Mede-se também pelo que acontece durante o caminho. Pelas pontes que se criam. Pelas tensões que se enfrentam. Pela capacidade de continuar mesmo quando surgem dificuldades. Pela coragem de admitir que nem tudo corre bem, mas que isso não invalida o valor daquilo que se está a tentar fazer.

Talvez o ENTRE seja isso: uma tentativa. Uma tentativa séria, imperfeita e profundamente humana de fazermos as coisas de outra forma. De deixarmos de viver a comunidade apenas como palavra bonita nos discursos e começarmos a experimentá-la como prática. Com trabalho, com presença, com cedências, com escuta e com responsabilidade partilhada.

Não sabemos ainda o que ficará depois destes três dias. Mas queremos acreditar que ficará alguma coisa. Uma relação nova. Uma ideia que nasce. Uma instituição que se aproxima de outra. Um jovem que sente que também pode participar. Um idoso que se sente lembrado. Uma associação que ganha força. Uma vila que se reconhece um pouco mais.

Se isso acontecer, mesmo que nem tudo seja perfeito, já terá valido a pena.

Nos dias 29, 30 e 31 de maio, no Parque de Lazer de Caldas das Taipas, o ENTRE acontece. Mas, mais do que pedir que venham assistir, gostava de pedir que venham fazer parte. Porque talvez seja assim que uma comunidade começa: quando deixamos de esperar que alguém faça por nós e aceitamos, simplesmente, entrar.

Ismael Afonso
Presidente da Movita — Associação para a Participação e Ação Cívica