09 abril 2026 \ Caldas das Taipas
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Taipas está a crescer, mas para quem?

Alexandra Pimenta
Opinião \ quinta-feira, abril 09, 2026
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Crescer devia significar melhorar a vida de quem já cá está. Devia permitir que os jovens consigam ficar, que as famílias consigam construir aqui o seu futuro.

Nos últimos anos, quem anda pelas Caldas das Taipas percebe que a vila já não é bem a mesma: há mais prédios, mais construções e mais movimento. Nota-se que há investimento e que alguma coisa está a mudar. À primeira vista, até parece positivo, pois o crescimento costuma ser sinónimo de progresso.

Mas será que é mesmo? Tenho algumas dúvidas.

Para muita gente das Taipas, sobretudo jovens, a questão já nem é “comprar casa” ou “arrendar”. É perceber se conseguem, sequer, ficar. Os preços foram subindo, quase sem dar por isso, e hoje há quem nasceu aqui e trabalha aqui… mas já não consegue viver aqui. E isso diz muito.

E é aqui que surge a minha principal dúvida: se a vila está a crescer, porque é que esse crescimento não se sente para todos?

Ao mesmo tempo que surgem novos prédios e novos projetos, muitos deles parecem pensados para um tipo de comprador que não é, necessariamente, quem sempre viveu nas Taipas. Basta olhar para os valores pedidos ou para o tipo de apartamentos que estão a aparecer para perceber isso. Não são casas pensadas para quem está a começar, para quem trabalha aqui ou para quem quer simplesmente sair de casa dos pais e ficar na terra. São casas com preços que obrigam a fazer contas demasiado grandes para uma realidade que continua a ser, no essencial, local.

E depois há um contraste que começa a saltar mesmo à vista. Prédios novos, modernos, com tudo pensado ao detalhe… lado a lado com casas antigas, algumas centenárias, outras já em ruínas, que continuam ali, esquecidas, sem ninguém lhes pegar… É impossível não reparar. De um lado, construção nova a crescer rapidamente. Do outro, património que vai ficando para trás, sem resposta.

Isto levanta outra questão. Se há tanto investimento, porque é que ele não passa também por recuperar aquilo que já existe? Porque é que é mais fácil construir de novo do que dar nova vida ao que faz parte da história da própria vila?

Ou seja, a terra evolui, sim, mas há cada vez mais gente a olhar à volta e a perguntar-se onde é que encaixa neste novo cenário. Porque quando o crescimento começa a afastar quem sempre cá esteve, deixa de ser só crescimento e passa a ser outra coisa.

E atenção, isto não é ser contra o desenvolvimento. É normal que uma vila como as Taipas cresça, atraia investimento e se transforme. O problema não é crescer. O problema é como se cresce e quem fica para trás nesse processo.

Porque crescer devia significar melhorar a vida de quem já cá está. Devia permitir que os jovens consigam ficar, que as famílias consigam construir aqui o seu futuro e que a vila continue a ser vivida por quem sempre a fez ser o que é.

Taipas sempre foi uma terra de proximidade, de comunidade, daquela sensação de que “toda a gente se conhece”. Se o crescimento começar a afastar isso, então talvez seja altura de parar um pouco e pensar no caminho que estamos a seguir.

No meio disto tudo, fica uma pergunta simples, mas importante.

A vila está a crescer, sim. Mas está a crescer para quem?