Será que tudo tem de dar dinheiro?
Há uns anos, alguém que gostava de fazer bolos fazia bolos.
Hoje, alguém que gosta de fazer bolos recebe sugestões para abrir uma página no Instagram, criar uma marca, vender encomendas e transformar a cozinha numa pequena empresa.
O mesmo acontece com a fotografia, a escrita, o desenho, o croché, a costura ou qualquer outra atividade criativa. Basta demonstrar algum talento e a pergunta surge quase inevitavelmente: “Já pensaste em ganhar dinheiro com isso?”.
Não deixa de ser curioso. Durante muito tempo, os hobbies eram apenas isso: hobbies. Faziam parte do tempo livre, ocupavam algumas horas da semana e raramente precisavam de uma justificação. Hoje, parece que quase tudo vem acompanhado da ideia de crescimento, rentabilidade ou potencial.
Claro que há vantagens. Muitas pessoas encontraram uma forma de complementar o rendimento ou até de mudar de vida através de algo que começou por ser apenas um passatempo. E não há nada de errado nisso. Pelo contrário, há algo inspirador em ver alguém transformar uma paixão num projeto sustentável.
Mas nem sempre consigo evitar a pergunta: o que acontece àquilo que fazemos apenas por gosto?
Quando uma atividade passa a ter clientes, prazos e objetivos, muda inevitavelmente de lugar na nossa vida. O que antes servia para desligar pode começar a trazer preocupações. O que antes era um escape pode acabar por se transformar em mais uma tarefa.
Talvez seja por isso que tantas pessoas sentem que nunca se desligam verdadeiramente. O trabalho não termina quando saem do emprego. Continua nos projetos paralelos, nos conteúdos para publicar, nas encomendas para entregar ou nos objetivos que definiram para si próprias.
E, atenção, não se trata de criticar quem procura ganhar dinheiro com aquilo de que gosta. Os tempos mudaram e a realidade económica também. Para muitas pessoas, um rendimento extra não é um luxo, é uma necessidade.
Ainda assim, pergunto-me se não estaremos a perder alguma coisa pelo caminho.
Nem tudo precisa de ser um projeto. Nem tudo precisa de crescer. Nem tudo precisa de se transformar numa marca.
Às vezes, ler um livro pode ser apenas ler um livro. Fazer um bolo pode ser apenas fazer um bolo. Desenhar pode ser apenas desenhar.
Talvez o verdadeiro desafio esteja em perceber que algumas coisas podem ter valor mesmo quando não dão lucro. Só porque nos fazem bem. Só porque nos ajudam a abrandar. Só porque nos lembram que nem tudo na vida precisa de ser produtivo para valer a pena.
E talvez isso, por si só, já seja suficiente.