Quando a velhice chega...
Sem um tema verdadeiramente preparado, ele surgiu de forma imprevista, quando fui jantar ao Chico d’Agrela, no dia em que fechava as suas portas.
Vai ser um Centro de Dia. E o tema veio agarrado…
Vivemos numa sociedade cada vez mais individualista, sem tempo para olhar verdadeiramente para o outro. Cada um corre atrás da sua vida, das suas preocupações, dos seus objetivos, dos seus problemas e, muitas vezes, já não repara em quem caminha ao seu lado.
O “eu” ganhou uma dimensão tão grande que o “nós” parece ter ficado perdido algures no caminho, nas veredas da vida.
Com uma agravante: ninguém reconhece ou agradece o trabalho dos outros, ou muito poucos o fazem. Ninguém pergunta verdadeiramente “como estás?” e espera pela resposta. Quem tem tempo para dar apoio, para escutar, para oferecer uma palavra de conforto ou simplesmente para estar presente? Até para dizer um simples “bom dia”?
E, no entanto, nunca tivemos tantos meios de comunicação, tantas possibilidades de contactarmos uns com os outros.
Talvez uma das maiores contradições do nosso tempo seja precisamente esta: nunca foi tão fácil comunicar e nunca foi tão difícil criar verdadeiros laços humanos.
Não basta ter uma casa. É preciso ter uma comunidade.
Não basta ter um telefone. É preciso ter alguém a quem telefonar.
Não basta estar vivo. É preciso sentir que temos significado para alguém.
Talvez seja por isso que o individualismo nos deveria preocupar, porque uma sociedade não se mede apenas pelo seu desenvolvimento económico e tecnológico. Mede-se também pela forma como trata os seus mais frágeis, pela atenção que dá aos seus idosos, pela maneira como acolhe quem está sozinho e pela capacidade que conserva de cuidar.
No fundo, estamos a falar da mesma coisa: a necessidade de cuidar.
E é aqui que surge outra questão que me inquieta:
Para onde vão os idosos?
Sim, com 71 anos, sou idosa.
Durante séculos, a família foi o principal lugar de proteção dos mais velhos. Havia, apesar das dificuldades, uma proximidade maior entre gerações. Os filhos estavam perto dos pais, os avós participavam na vida dos netos e existia uma espécie de continuidade natural entre as diferentes idades da vida.
Hoje, a realidade é outra.
Os filhos trabalham muitas horas, vivem longe, enfrentam dificuldades económicas, têm os seus próprios filhos e problemas. Muitos não têm tempo, espaço ou possibilidades financeiras para cuidar dos pais como gostariam.
E não será justo condená-los por isso.
Eu própria deixei o ninho. Os meus filhos farão aquilo que a vida lhes pedir e estão no seu direito. Partirão, construirão a sua própria existência, procurarão o seu caminho.
É assim que deve ser.
Mas então fica a pergunta:
Quem cuida de quem envelhece?
No nosso país, onde estão os lugares onde um idoso possa viver com dignidade, segurança, companhia e afeto? Onde está a possibilidade de envelhecer sem sentir que se tornou um peso para os outros?
Há muito poucos lares e os que existem estão a rebentar pelas costuras. E, quando faltam condições e fiscalização, vamos conhecendo histórias que nunca deveriam acontecer.
Eu fui professora.
Passei anos a ensinar, a acompanhar, a corrigir, a incentivar, a ouvir, a tentar deixar alguma coisa de mim aos outros. Um professor não transmite apenas conhecimentos. Transmite confiança, esperança e, quantas vezes, a noção de ser o único que acredita naquele aluno?
Há profissões que deixam marcas invisíveis, que não aparecem nas estatísticas nem nos salários, mas que permanecem na memória de quem passou por nós. Ainda hoje me lembro de muitas das minhas professoras. Não esqueçam que sou do tempo das escolas e liceus femininos.
Talvez seja precisamente por ter sido professora que me custa compreender uma sociedade, onde o cuidado parece ter perdido valor. Ensinámos gerações inteiras a competir, a vencer, a chegar mais longe, a ter mais, a ser mais.
Mas ensinámo-las a agradecer? A reconhecer o esforço de quem esteve antes delas? A perceber que, um dia, também elas poderão precisar da mão de alguém?
Temos dificuldade em reconhecer limites, em compreender que não somos o centro de tudo e em aceitar que dependemos uns dos outros.
E talvez seja precisamente aí que esteja uma das maiores fragilidades da nossa sociedade: esquecemos que somos interdependentes.
Enquanto nos fechamos cada vez mais no nosso pequeno mundo, perdemos a relação com o outro ser humano e perdemos também a relação com aquilo que nos rodeia.
Mas o fim de um mundo também pode ser o princípio de outro. Ainda podemos escolher que sociedade queremos construir.
Precisamos de recuperar uma palavra que parece antiga, mas que talvez seja absolutamente moderna: comunidade.
Uma comunidade não significa voltar ao passado nem obrigar os filhos a abandonar a sua vida para cuidar dos pais.
Significa criar redes de proximidade, estruturas de apoio, vizinhanças mais humanas, espaços onde diferentes gerações possam conviver. Significa perceber que um idoso pode precisar de muito mais do que cuidados médicos.
Pode precisar de conversa.
De companhia.
De uma janela para a rua.
De alguém que saiba o seu nome.
Existem experiências de habitação intergeracional, nos países nórdicos, em que jovens e idosos partilham espaços, não necessariamente para que uns cuidem dos outros, mas para que convivam, conversem, partilhem experiências e aprendam mutuamente. É uma ideia simples, mas poderosa.
Temos de imaginar novas formas de viver: pequenas comunidades intergeracionais, residências com espaços comuns, habitações apoiadas, redes de vizinhança, serviços de proximidade e soluções que permitam às pessoas manter a sua autonomia sem serem abandonadas à própria sorte.
Porque envelhecer não significa desaparecer.
Para onde estamos nós a levar a humanidade?
Que espécie de sociedade estamos a construir?
Não sei como será o mundo daqui a vinte, trinta ou cinquenta anos. Mas sei que há coisas que ainda dependem de nós. Podemos escolher ser mais atentos. Podemos reconhecer. Podemos cuidar. Podemos lembrar-nos de que ninguém é autossuficiente e de que, mais cedo ou mais tarde, todos precisaremos de alguém.
Talvez o verdadeiro perigo não esteja apenas nas tempestades que se abatem sobre nós em pleno verão.
Talvez esteja também na tempestade silenciosa que cresce dentro da sociedade: a indiferença.
E essa, ao contrário da chuva e do trovão, não vem do céu.
É uma tempestade que nós próprios alimentamos.
Ainda estamos a tempo de a travar.
Talvez começar seja tão simples como voltar a olhar para o lado.
Maria Teresa Portal Oliveira
(cronista, poetisa, romancista, contista)