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Precisamos mesmo de comprar tanto?

Daniela Caldas
Opinião \ quinta-feira, outubro 01, 2026
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As grandes mudanças ambientais precisam de políticas públicas, investimento, empresas responsáveis e inovação. Mas também se constroem nas pequenas decisões que repetimos todos os dias.

Há algum tempo comprei umas calças num número abaixo do meu. Não havia o meu tamanho, gostei tanto delas que decidi levá-las na mesma. Na altura, arranjei uma justificação perfeitamente convincente: seriam um incentivo para emagrecer e, um dia, conseguir vesti-las. E talvez seja precisamente aí que começa a questão.

Somos extraordinariamente bons a encontrar razões para comprar aquilo que queremos.

Porque está em promoção. Porque podemos vir a precisar. Porque é uma oportunidade. Porque merecemos. Porque “um dia vai dar jeito”. Ou, no meu caso, porque um dia aquelas calças haveriam de servir.

Vivemos rodeados de escolhas. Um clique e compramos roupa. Outro e chega-nos uma refeição a casa. Em poucos segundos, encomendamos um objeto que pode atravessar centenas ou milhares de quilómetros até chegar às nossas mãos.

Nunca foi tão fácil comprar. Talvez por isso nunca tenha sido tão importante perguntar: precisamos mesmo de comprar tanto?

Não se trata de demonizar o consumo. Consumir faz parte da nossa vida e da nossa economia. Há empresas, comércio e milhares de postos de trabalho que dependem dele. A questão está na forma como consumimos e, sobretudo, na rapidez com que transformamos aquilo que desejámos em algo de que já não precisamos.

Falamos muito de reciclagem e fazemos bem. Separar corretamente os resíduos é indispensável. Mas há uma ideia que talvez ainda não esteja suficientemente presente nas nossas escolhas: a sustentabilidade começa antes do ecoponto.

Começa no momento em que decidimos comprar ou não comprar. Quando escolhemos entre substituir e reparar. Quando decidimos deitar fora ou reutilizar.

Quantas vezes trocamos um equipamento que ainda funciona? Quantas peças de roupa permanecem esquecidas num armário? Quantas embalagens recebemos para proteger produtos que utilizamos durante poucos minutos?

E quantas vezes compramos simplesmente porque é barato, está em promoção ou porque alguém conseguiu convencer-nos de que precisávamos daquilo?

Cada produto que chega às nossas mãos traz consigo uma história ambiental que raramente vemos. Foram necessárias matérias-primas para o produzir, energia para o fabricar, embalagens para o proteger e transportes para o fazer chegar até nós.

E essa história não desaparece quando colocamos a embalagem no ecoponto. Talvez por isso precisemos de dar mais espaço a uma palavra que, muitas vezes, fica atrás da reciclagem: reduzir.

Não apenas reciclar melhor, mas produzir menos resíduos. Escolher produtos que durem. Reparar quando for possível. Reutilizar. Partilhar. Comprar localmente quando essa opção fizer sentido. Dar uma segunda vida àquilo que já não usamos.

Nada disto exige que deixemos de consumir. Exige apenas que pensemos um pouco mais antes de consumir.

Durante muito tempo associámos progresso à possibilidade de ter mais. Mais escolha, mais produtos, mais facilidade, mais rapidez.

Talvez uma sociedade verdadeiramente sustentável tenha agora um desafio diferente: perceber quando mais deixou de significar melhor.

As grandes mudanças ambientais precisam de políticas públicas, investimento, empresas responsáveis e inovação. Mas também se constroem nas pequenas decisões que repetimos todos os dias.

O que compramos, quanto compramos, quanto tempo usamos e aquilo que fazemos quando já não precisamos de um produto também tem consequências.

E talvez não seja preciso mudar radicalmente a nossa vida para começar.

Da próxima vez que estivermos diante de umas calças que nem sequer são o nosso tamanho, ou de qualquer outra coisa que naquele momento nos parece absolutamente indispensável, talvez valha a pena esperar alguns segundos. E fazer uma pergunta muito simples: Preciso mesmo disto?