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O (des)acordo ortográfico e a TLEBS

Teresa Portal
Opinião \ quinta-feira, fevereiro 17, 2022
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O Acordo Ortográfico (AO) foi e continua a ser uma questão polémica, pois apenas adotado, unilateralmente e, para cúmulo, pelo país que fala e escreve a língua-mãe.

Pior ainda, apenas uma pequena fatia do país foi “obrigada” a adotá-lo, o Ministério da Educação. Faz dez anos que as escolas o utilizam.

Pasme-se… Instituições do ensino superior, institutos politécnicos e universidades não o adotaram e, boquiabertamente…, há universidades em que uns professores o adotaram e outros não, transformando em joguetes os alunos que têm de fazer a correção ou não dos seus textos de acordo com o professor.

Parece que o navio não é governado pelo mesmo comandante e não é mesmo. Há dois pesos e duas medidas para a Educação, o que não é de admirar, pois existem dois Ministérios: o da Educação e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

E eis que temos a sociedade portuguesa dividida entre a adoção ou não do AO, a começar pela comunicação Social com televisões e jornais a adotá-lo e outros não.

Mas se a desorganização fosse apenas esta! O problema é bem mais profundo! Para muitos, os leigos, as alterações ficaram pela saída do C e do P. Deixem-me rir! Depois, há os que foram obrigados a estudá-lo e a adotá-lo e não o fizeram nem o consultam, a grande maioria dos professores que lecionam as outras disciplinas sem ser o Português. E mesmo entre estes, há quem dê pontapés no AO.

Se não houver à mão um “Pai dos Burros” (dicionário, como lhe chamava) com o AO, há o Google. Escreva “auto-estima ou autoestima ortografia” e recebe logo a resposta. E não se deixe levar pelo dicionário do Windows que deveria ter o AO e não tem. Se escrever “pôr do sol” como é agora, ele manda-lhe colocar os hífens. E não é só neste caso, em muitos, como: jardim de infância, cor de laranja, dia a dia…

As aberrações não acabam aqui. Em Portugal, há duas escritas para a mesma palavra como: “caracterização ou caraterização”… Confesso que adorei esta incongruência porque, atendendo ao (des)conhecimento do AO de muitos dos professores, principalmente dos que não lecionam a língua e que andam à cata dos erros para descontarem a dita percentagem nos exames,  facilitaram a tarefa a um aluno para meter recurso.

Depois os contrassensos- Nós escrevemos Egito, o P não é lido. O Português do Brasil mantém-no porque é lido. Nós temos o facto porque lemos o C e eles mantiveram o fato porque não o leem. Já agora creem, leem, veem (v.ver) perderam o acento circunflexo mas têm e vêm (v.vir) mantêm-no. Tanta asneirada!

De rir é a explicação encontrada para a acentuação da primeira pessoa do plural no Pretérito Perfeito do Indicativo dos verbos de tema em a (terminam em –ar) “Por favor, acentuem-me essa forma verbal! Ouçam como a pronúncia é diferente entre as formas do presente e do pretérito do indicativo: “Estudamos sempre muito, mas ontem estudámos muito mais”. A explicação? Idiota! A tradição. A forma não é acentuada nos países onde não haja essa tradição. Nós temos essa “tradição”.

Por amor de Deus, sempre que tenham dúvidas, consultem o Google. Está lá tudo ou então coloquem perguntas no Ciberdúvidas. Podem ter a certeza de que os linguistas e gramáticos respondem. Podem é receber a resposta por email, se os “enrascou” ou vê-la publicada online se a consideraram pertinente, plausível e inteligente. A mim já me devem conhecer pelas perguntas “estúpidas que os enrascam”.

E agora vou entrar na TLEBS (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário). Ignoro se a terminologia das Universidades mudou ou não, uma vez que o título menciona apenas os Ensinos Básico e Secundário. Adoro gramática e, quem me conhece, sabe que, até esclarecer um determinado problema, não descanso. Quando não é a Gramática do Português Contemporâneo Lindlay-Cintra então é o Ciberdúvidas.

Mudada a terminologia gramatical, já devem estar a par disso, nomeadamente os que têm filhos na escola e não sabem como os ajudar, vejam até onde chega a estupidez da situação com a gramática a ser omissa, a não dar resposta. Vou contar um caso que coloquei no Ciberdúvidas. Na gramática tradicional (eu já estudei quatro desde o tempo em que fui aluna!), consideremos a terminologia antes desta “novidade”, as conjunções coordenativas adversativas eram: mas, porém, todavia, contudo. Segundo a nova terminologia, só há uma conjunção- mas. As outras três passaram a ser advérbios conectivos/ conetivos (outra das palavras com duas escritas). Pois bem, inventei um problema, uma vez que a gramática era omissa. Exemplo: “O João é apreciador de marisco; porém, detesta camarão”. Como classificar esta oração que na gramática tradicional era coordenada adversativa? Resposta deles: “Colega, não se meta por caminhos escusos. Utilize apenas a conjunção adversativa”. Eu era a idiota e eles sacudiam a água do capote. Voltei à carga. “Caros senhores, tenho duas turmas. Uma ainda estuda a gramática tradicional e a resposta foi oração coordenada conjuncional adversativa. A outra já utiliza a nomenclatura atual (eram anos diferentes e aconteceu termos de usar duas nomenclaturas para turmas diferentes). Por acaso, o exercício é igual. Como é que os alunos vão classificar essa oração?” Forçados a responder, disseram: “Colega, diga que é uma coordenada adversativa assindética (sem conjunção)”. Não aparece isso em gramática nenhuma. Mostrei s resposta aos alunos mas ajuntei: “Não aparece em nenhuma gramática!”

E podia continuar com um rosário de lamentações, em que dificultaram a vida dos professores e dos alunos, muitas vezes complicando o que era simples como a classificação das palavras quanto à formação. Um quebra-cabeças e uns palavrões que nem digo para não vos assustar ainda mais. As palavras compostas foram as que mais mudaram no AO ao perderem os hífens, ao unirem-se umas às outras: minissaia, autorretrato, subdiretor, …

A criação do Complemento Oblíquo fez com que muita gente que já olhava para a gramática de viés, a olhasse ainda mais “obliquamente”.

Acho que não vale a pena estar a bater no ceguinho.

Como adoro gramática, eis a razão por ter escolhido Alemão (gramática às carradas) e adorar o Francês, o Português por serem também extremamente gramaticais e, apesar de ter seguido Filologia Germânica, que trouxe o Inglês por arrasto, tive dois aos de Latim no liceu. Por acaso já ouviram falar dos casos latinos? Nominativo, Acusativo, Genitivo…

Pronto, já cá não está quem falou.

E se faz parte daqueles que não utiliza o AO, não sei muito bem em que país vive, se será o meu ou não, pois fui obrigada a adotá-lo em 2012.

Sabem que comecei a carreira de escritora. Pois bem, já me apareceu um concurso em que queriam que escrevesse segundo o acordo de 1945. Sei lá qual era esse acordo! Às tantas ainda tinha de utilizar os acentos graves que desapareceram da língua portuguesa. Acho que devem saber que só existem na contração da preposição a com o determinante artigo definido a e as- à, às e com os pronomes/ determinantes demonstrativos àquele, àquela, àqueles, àquelas e àquilo (sempre pronome). Mas quando andava na escola, os adjetivos quando se transformavam em advérbios adquiriam o acento grave para dizer que a sílaba já não era tónica: amável - amàvelmente. Também teria de utilizar o ph para pharmácia e o th para Thereza, como escrevia a minha avó?

Ao escrever a data, lembrei-me: sabem que os meses, as estações, do ano, os dias da semana se escrevem com letra minúscula agora?

Sou mesmo uma “maluquinha” da correção gramatical e ortográfica.

Estude o dicionário, questione o Google ou massacre o Ciberdúvidas…