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Guimarães primeiro: quando o gesto presidencial tem memória

Daniela Caldas
Opinião \ quinta-feira, março 19, 2026
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Transformar o dia 24 de junho num feriado nacional seria mais do que acrescentar uma data ao calendário. Seria afirmar que Portugal nasceu de acontecimentos concretos que moldaram o destino de um povo

A escolha de Guimarães para uma das primeiras visitas do Presidente da República, António José Seguro, logo após a tomada de posse não é um simples gesto de agenda. É um gesto carregado de simbolismo político e histórico. Visitar a cidade-berço no início do mandato significa reconhecer que Portugal não começa nos corredores do poder em Lisboa, mas nas raízes profundas da sua história.

E falar dessas raízes conduz inevitavelmente a Guimarães. A cidade não é apenas mais um ponto no mapa nacional: é o lugar onde nasceu o primeiro rei de Portugal e onde se travou a decisiva Batalha de São Mamede, episódio que abriu caminho à afirmação política do território que viria a tornar-se Portugal.

Foi neste contexto que o Presidente da República visitou o Laboratório da Paisagem, em Guimarães, numa iniciativa inserida no programa “Guimarães 26 – Capital Verde Europeia”. Acompanhado pela Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e pelo Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, Ricardo Araújo, António José Seguro destacou o exemplo que a cidade dá a Portugal e à Europa na área ambiental.

Mesmo sendo uma visita dedicada ao futuro, à sustentabilidade e às políticas ambientais, o gesto mantém uma forte dimensão simbólica. Começar o mandato em Guimarães é também lembrar que o país tem uma memória histórica que importa respeitar e preservar.

Aliás, este não é um gesto inédito. Em 1986, o então Presidente Mário Soares também fez de Guimarães um dos primeiros palcos do seu mandato, sublinhando que a Presidência da República não se deveria limitar a Lisboa e que as origens históricas do país merecem ser lembradas.

Essa memória conduz a uma reflexão mais ampla. Se Guimarães representa o ponto de partida simbólico da nação, faz sentido perguntar se Portugal reconhece plenamente o momento em que começou o seu percurso político.

Daí surge uma ideia que merece debate: Portugal poderia reconhecer oficialmente o seu verdadeiro dia de nascimento político. O dia 24 de junho, tradicionalmente associado à Batalha de São Mamede, é considerado por muitos historiadores como o início do caminho para a independência portuguesa.

Portugal celebra já o Dia de Portugal, ligado à figura de Luís de Camões e à dimensão cultural da identidade nacional. No entanto, reconhecer também o momento fundacional do país reforçaria a ligação entre história, território e identidade.

Transformar o dia 24 de junho num feriado nacional seria mais do que acrescentar uma data ao calendário. Seria afirmar que Portugal nasceu de acontecimentos concretos que moldaram o destino de um povo.

Porque um país que conhece as suas origens só será verdadeiramente forte se souber cuidar do ambiente que sustenta o seu futuro."