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Guimarães está a parar

Daniela Caldas
Opinião \ quinta-feira, agosto 06, 2026
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Guimarães não pode afirmar-se sustentável enquanto milhares de cidadãos permanecem presos no trânsito. E não basta pedir às pessoas que utilizem menos o automóvel.

Guimarães construiu, ao longo dos anos, uma imagem de cidade inovadora, sustentável e comprometida com a qualidade de vida. Essa ambição deve continuar a orgulhar-nos. Mas há uma realidade que já não podemos ignorar: a mobilidade tornou-se um dos maiores desafios do concelho.

O trânsito deixou de ser um incómodo ocasional. Hoje, faz parte da rotina de milhares de vimaranenses. As filas prolongam-se, os tempos de deslocação aumentam e percursos que antes eram rápidos transformam-se, demasiadas vezes, em momentos de frustração.

Não se trata de procurar culpados. Este não é um problema de um executivo municipal, de um mandato ou de uma decisão isolada. É o resultado de anos de crescimento urbano, do aumento da circulação automóvel, da concentração de serviços e da evolução de um território que atrai cada vez mais pessoas para viver, trabalhar, estudar e visitar.

Também as famílias mudaram. Hoje, muitas têm três ou quatro automóveis. Marido e mulher trabalham em locais e horários diferentes, os filhos estudam, trabalham ou têm atividades próprias e cada elemento do agregado acaba por depender do carro para cumprir a sua rotina.

Nem sempre se trata de comodidade. Muitas vezes, é a consequência direta da falta de transportes públicos frequentes, rápidos e ajustados às necessidades reais das pessoas. Enquanto não existirem alternativas credíveis, pedir às famílias que deixem o automóvel em casa continuará a ser uma intenção difícil de concretizar. Mas compreender a origem do problema não pode servir de justificação para a inação.

A mobilidade é hoje muito mais do que uma questão de trânsito. É uma questão ambiental, económica e social. Cada veículo parado numa fila representa mais combustível consumido, mais emissões, mais ruído e mais tempo perdido. Representa também menos tempo para a família, menor produtividade e pior qualidade de vida.

Quando falamos de sustentabilidade, não podemos limitar-nos aos espaços verdes, à plantação de árvores ou à realização de eventos. A verdadeira sustentabilidade mede-se também na forma como as pessoas conseguem deslocar-se diariamente.

Guimarães não pode afirmar-se sustentável enquanto milhares de cidadãos permanecem presos no trânsito. E não basta pedir às pessoas que utilizem menos o automóvel. É necessário criar alternativas seguras, frequentes, cómodas e verdadeiramente competitivas.

Isso exige uma estratégia de longo prazo, mas também medidas concretas: reforçar o transporte público, melhorar as ligações entre as freguesias e o centro urbano, criar parques periféricos articulados com transportes coletivos, apostar na gestão inteligente do trânsito e dos semáforos, promover percursos pedonais seguros e desenvolver uma rede ciclável coerente e adaptada ao território. Mas melhorar a mobilidade não pode significar fazê-lo a qualquer custo.

Nenhuma freguesia ou vila deve suportar, sozinha, os custos de soluções pensadas para servir todo o concelho ou parte dele. Duplicar vias, rasgar territórios ou dividir comunidades pode tornar uma deslocação mais rápida, mas também pode destruir paisagens, desvalorizar lugares e apagar parte da história de uma terra e de um povo.

O progresso não se mede apenas pelos minutos que se ganham numa viagem. Mede-se também pela capacidade de modernizar sem descaracterizar, de ligar sem separar e de resolver problemas sem criar feridas que perdurem durante gerações.

As grandes infraestruturas podem ser necessárias, mas têm de ser estudadas com rigor, discutidas com transparência e construídas com respeito pelas populações. Não basta apresentar projetos acabados. É preciso ouvir antes de decidir, explicar alternativas, acolher preocupações e envolver verdadeiramente quem vive nos territórios afetados. Ouvir as populações não é atrasar o desenvolvimento. É decidir melhor, prevenir conflitos e garantir que o progresso é construído com as pessoas e não contra elas.

A mobilidade não deve colocar a cidade contra as freguesias, nem umas comunidades contra as outras. Deve unir vontades e envolver o Município, as juntas de freguesia, as empresas, as instituições, os operadores de transporte e os cidadãos numa visão comum.

Porque uma cidade onde as pessoas passam demasiado tempo paradas no trânsito é uma cidade que desperdiça energia, recursos e oportunidades.

Guimarães habituou-nos a pensar grande. Chegou o momento de aplicar essa mesma ambição ao maior desafio do presente: construir uma mobilidade eficiente e sustentável, capaz de devolver tempo e qualidade de vida às pessoas.

Guimarães não pode parar. Também não pode avançar sem ouvir as populações, sacrificando as suas freguesias, as suas vilas e a história do seu povo.