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Guimarães entre a memória e a sobrevivência: quando trabalhar já não chega

Alexandra Pimenta
Opinião \ quinta-feira, janeiro 15, 2026
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A cidade valorizou-se. Tornou-se mais atrativa, mais visitada, mais “vendável”. Mas essa valorização tem um preço, e ele está a ser pago sobretudo por quem cá trabalha.

Guimarães gosta de se ver como uma cidade de memória. E com razão. O centro histórico, a narrativa fundadora, o cuidado com o património fazem parte da identidade local e do orgulho coletivo. O problema começa quando essa memória passa a pesar mais do que a vida real de quem cá vive. Quando preservar se torna mais importante do que garantir condições mínimas para ficar.

Hoje, trabalhar já não chega. Não chega para sair de casa dos pais, não chega para arrendar no centro, não chega para planear uma vida com alguma tranquilidade. Há quem trabalhe muito, estude, se esforce e ainda assim sinta que está sempre a começar do zero. Esta sensação não é exagero nem falta de ambição, é uma experiência comum a uma geração inteira. E Guimarães não é exceção.

A cidade valorizou-se. Tornou-se mais atrativa, mais visitada, mais “vendável”. Mas essa valorização tem um preço, e ele está a ser pago sobretudo por quem cá trabalha. Rendas a subir, casas transformadas em alojamentos temporários, poucas alternativas acessíveis…O centro histórico enche-se de turistas, enquanto muitos residentes são empurrados para fora, não por escolha, mas por impossibilidade.

Preservar a cidade não pode significar torná-la inalcançável. Uma cidade viva não é apenas bonita, tem de ser habitável. Precisa de pessoas que a ocupem todos os dias, não apenas de quem a visita por um fim de semana. Quando quem trabalha em Guimarães já não consegue viver em Guimarães, algo está claramente desalinhado.

Este cenário tem consequências que vão além da habitação. Adiam-se projetos de vida, adia-se a autonomia, adia-se tudo. Trabalha-se muito e vive-se pouco. E quando o futuro parece sempre distante, também a ligação à cidade se fragiliza. Não por falta de amor ao lugar, mas por cansaço.

Guimarães não tem de escolher entre passado e futuro. Mas precisa de começar a conciliá-los a sério. Preservar a identidade não é congelar a cidade, é garantir que quem a constrói no dia a dia consegue continuar a fazer parte dela. Caso contrário, arriscamo-nos a ter uma cidade cheia de memória, mas cada vez mais vazia de vida.