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Fantasia ou Realidade?

Teresa Portal
Opinião \ quinta-feira, novembro 24, 2022
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A vida não se compadece com quem vive nas nuvens, há que ter os pés bem assentes na terra e trilhar o caminho previamente traçado por cada um, para se atingirem as metas estabelecidas.

A ficção, a fantasia não anda muito longe da verdade. Há alturas em que a vida é tão incrível que mais parece um filme de ficção. Nem sempre é fácil separar as linhas do real e do fantástico, pois estão muito mais próximas do que seria de esperar. É por isso que a fantasia antecede frequentemente a realidade.

O sonho leva o homem a desejar algo que mais tarde concretiza. Leonardo Da Vinci foi um “sonhador” no seu tempo e quase quatro séculos mais tarde a sua fantástica máquina voadora, o helicóptero, tornou-se uma realidade palpável e de grande utilidade para o homem. Num outro campo, o da literatura, Júlio Verne antecipou uma outra realidade, a formidável máquina subaquática do capitão Nemo que nos levou a viajar pelo fundo do mar, pelos mares desconhecidos e misteriosos, hoje cada vez mais conhecidos graças ao submarino e outros máquinas e instrumento aquáticos.

Realidade e fantasia… onde começa uma e acaba a outra? Será bom viver na fantasia ou deve viver-se na realidade? Se concordarmos com o poema de Sebastião da Gama “Pelo sonho é que vamos”, então admitimos que “o sonho comanda a vida”, como disse António Gedeão na sua Pedra Filosofal. Sem sonho, não há projecto de vida e sem um projeto pessoal de evolução, de realização pessoal e profissional, ninguém avança, muito menos a sociedade que resulta da soma e da colaboração de tantos “eus”.

Não é por acaso que, na infância, começámos por brincar ao faz-de-conta e criámos o nosso mundo habitado por animais e personagens mais ou menos fantásticas, conforme a criatividade da criança. Essa é uma época de experimentação e o Reino do Faz-de-Conta é seguro, confortável. Lá podem fantasiar-se as maiores atrocidades que nada de mal nos acontece e esse mundo presta uma ajuda incalculável no desenvolvimento cognitivo da criança, no treino pragmático da linguagem, da memória e do raciocínio. Contudo, há que prestar atenção à mentira. Quantas vezes as crianças mentem conscientemente, para fugir a uma realidade que não querem aceitar. Isso não se pode aceitar. Desde pequenos têm de saber que mentir não faz parte do Reino do Faz-de-Conta. Por isso, o papel dos adultos que lidam diariamente com a criança é fundamental. Para as perguntas colocadas terá sempre de haver uma resposta lógica e objetiva, nunca uma recusa ou um “logo falo” ou “depois explico” ou “agora não tenho tempo” ou “vai perguntar à mamã” ou…

Depois, quando se cresce, é necessário sabermos dosear a nossa fantasia, domando a imaginação. A vida não se compadece com quem vive nas nuvens, há que ter os pés bem assentes na terra e trilhar o caminho previamente traçado por cada um, para se atingirem as metas estabelecidas.

No entanto, “em momentos de crise, só a imaginação é mais importante que o conhecimento”, dizia Albert Einstein. Tinha toda a razão o génio matemático. Em alturas de crise, para além de sangue frio é preciso haver uma resposta imediata, inventiva, criadora que suscite ação, que movimente as massas aterrorizadas. Não procuramos fugir à realidade, antes fazemos tudo para a reconstruir com base numa projeção do mundo real num mundo melhor. Não se pretende implementar a utopia, pelo contrário, queremos mudar a realidade, interpretando-a e levando os indivíduos a atuar interventivamente, para que a nova realidade se torne aceitável e, principalmente, para que possamos compreender o que se passa à nossa volta.

Não é por acaso que a Bíblia está cheia de parábolas e que os Contos Maravilhosos e as Fábulas encheram a nossa infância. Foi nessa altura que aprendemos a utilizar a nossa imaginação e a tirar ensinamentos das histórias que nunca poderiam ter existido na “realidade”. Onde já se viu um coelho atarefado com um relógio na mão a dizer que está atrasado para alguma coisa ou uma lebre a fazer uma corrida com uma tartaruga? E esses ensinamentos perduraram, talvez de uma forma ainda mais marcantes do que outros adquiridos de outra maneira.