ENTRE deixou de ser ideia. Começou a construção coletiva
Numa época em que andamos dispersos, sem raízes e sem rumo, com identidades fragmentadas, incapazes de promover aproximações e consolidar pontos de vista, voláteis e carentes de memória, torna-se essencial refundar o nosso olhar e o nosso comportamento numa estrutura matricial.
A identidade autóctone é a nossa casa, é onde o nosso corpo reconhece o chão. Podemos afastar-nos, podemos negá-la, mas, mais cedo ou mais tarde, regressamos, prodigamente. Depois de desbravar caminhos, cortar laços, romper as vozes, esquecer os cheiros e os sabores naturais. Cansados, exaustos. Está na hora de iniciar a viagem de regresso a casa. A esta casa comum, a este espaço comunitário que nos pertence e que pode enxertar-nos alguma ordem e unidade.
O ENTRE nasce dessa urgência. Quer ser a ponte entre as margens. Quer ser o veículo de travessia para que cada Argonauta faça a sua própria odisseia. Quer ser o meio de aproximação entre pessoas, histórias, movimentos culturais, hábitos e costumes. Quer incitar à revalorização da nossa comunidade, da nossa identidade e da nossa cultura. Quer promover o encontro e o diálogo, abrindo espaço para que todos, tenham lugar, valor e voz. Quer tornar as diferenças habitáveis e fazer da comunidade prática.
O objetivo é simples: reunir pessoas para pensarmos juntos o lugar onde vivemos. Nada será inventado do zero; tudo parte do que já existe: associações, instituições, organizações, grupos informais, agentes locais, práticas e saberes tradicionais. O Entre procura, apenas, unir estes fios dispersos para, juntos, produzirmos um tecido social colorido, matizado, mas consubstancial: feito da mesma substância, da mesma essência e da força de vontade de todos.
A estrutura do ENTRE — Raízes, Movimento, Futuro — é clássica. Primeiro, a memória: quem somos e de onde vimos. Depois, a ação: o que fazemos juntos, aqui e agora. Por fim, a responsabilidade: o que queremos deixar. Somos engenhos uns dos outros. Uma cadeia de vidas que se sucedem: cada uma carrega o eco dos que vieram antes e a promessa de renovar esta narrativa em construção. E assim caminhamos como herdeiros e criadores. Produto e produtores. Semente e alimento.
Vivemos dias líquidos, velozes, em que a assepsia do pensamento fez de nós máquinas vazias em busca de uma felicidade prometida, mas invariavelmente adiada. Todavia, o contacto com os outros, com as nossas raízes e com a arte pode encontrar ressonância no mundo contemporâneo e pode derrubar fronteiras e anular distâncias. Pode parecer um ideal quase onírico, mas não é.
A ideia deste encontro de comunidade nasceu desse reconhecimento, de que tudo o que temos e tudo o que podemos criar, ou recriar, está perante nós. Talvez seja um movimento em contramão. Numa altura em que tudo nos empurra para fora - fora do território, fora da memória, fora do tempo lento, nós queremos que ENTRE!
As boas e fecundas ações culturais não têm de ser obras-primas. Importa que deixem marcas duráveis e que nos devolvam, mais tarde, a memória de uma emoção e de uma aprendizagem. Que o ENTRE entre dentro de todos, para que todos se apropriem dele.
A construção coletiva já começou, com a colaboração da Junta de Freguesia. Estamos só à sua espera!
Procuramos propostas para desenvolver: murais, oficinas, exposições, conversas, tertúlias, música, encontros.
Pré-inscrição até 28 de fevereiro. Em maio divulgamos o programa. Quer entrar?
Existe um contacto exclusivo: entre@movita.pt.
A pré-inscrição faz-se em movita.pt/entre-pre-inscricao.
“Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.” (Saramago)