Educar não é instruir
Nunca uma crónica me foi tão difícil de fazer. São tantas as ideias que não sei qual tratar.
A Páscoa e a boa vontade devem reinar entre os povos, mas as guerras agitam os povos e as leis injustas não contribuem para o bem-estar de cada um e de todos.
Decidi, pois, como professora que fui, falar das regras da boa educação, ausentes em todos esses dirigentes fanáticos e ditadores que só olham para o seu umbigo.
Hoje, mais do que nunca, se pode colocar a questão: o que é isso de ser bem educado?
Não tem nada a ver com ser chique ou ter estudado ou ser milionário.
Ser educado é saber comportar-se em sociedade, começando pelas regras essenciais do dia a dia: bom dia, boa tarde, boa noite, como está, passou bem, por favor, obrigada/o (a propósito, o género masculino diz obrigado e o género feminino obrigada, o transgénero não sei, não temos neutro como o latim ou o alemão) que pena, desculpe, cim licença, que bom estar contigo, ...
Educação e Instrução não são sinónimos.
A educação envolve valores (respeito, honestidade, empatia, responsabilidade), comportamento (boas maneiras, como ouvir os outros sem os interromper, atitudes), emoções e convivência social. A educação forma o carácter.
A instrução é a aquisição de conhecimentos e aprendizagens: matérias escolares (matemática, línguas, ciências), informações e competências técnicas, formação académica. Ou seja, a instrução forma a mente.
Os professores não são respeitados e os pais não os deixam fazer o que eles deviam fazer em casa. É aí que a educação deve começar. Deve ser em criança que os jovens devem começar a ouvir nãos. Não cabe à escola educar, cabe-lhe instruir e dar uma ajuda na educação.
Nesse aspeto, sempre fui diferente dos outros, não por ser subdiretora da escola (e, nessa qualidade, dei alguns mosquetes), mas pela postura, como me disse um meu ex-aluno. Se se entrar na escola, no primeiro dia, e se se mantiver a mesma postura ao longo do ano, os alunos respeitam-nos. Nunca quebrei um regulamento de turma, não sei se ainda o fazem, e, quando me enchiam a paciência, mandava-os dar três voltas ao pavilhão a correr. Se se demorasem muito, tinham ido a passo, davam outras três. Como era ensino obrigatório, não se podiam pôr fora da sala. E cheguei a fazer o que fizeram comigo. Mandar um aluno escrever cem vezes a regra quebrada e numeradas. Como a mão ficava a doer nunca mais a quebravam.
Com o Contrato Pedagógico da dsciplina passava-se o mesmo. Era assinado por eles, pelo encarregado de educação e por mim e o que lá constava era o necessário para terem o 3. Quando me vinham com a conversa de que tinham feito tudo, mandava-os ler o contrato. Quem queria os 4 e 5 tinha de trabalhar mais. E há muitos alunos na vila que podem comentar o que estou a escrever.
E os meus trabalhos nunca prescreviam. Não faziam no 1º período, tinham de os fazer no 2º ou no 3º, nem que tivessem de vir para a escola para os fazer.
Nunca tive medo de um aluno, mas não tinha sangue de barata e houve professores que foram insultados e depois vinham ter comigo para resolver o problema. Eu tinha-o resolvido logo na hora. Ai daquele que me chamasse ‘ filha da p...» Não chegava a proferir o insulto. Levava a maior bofetada da vida dele.
O bater não resulta nem eu andei por aí ao estalo a ninguém, a não ser a um aluno que ainda hoje é meu amigo e diz que ainda foram poucas as que lhe caíram. O que não sabia é que, numa vez em que apalpou uma miudita e levou uma bofetada, porque me enfrentou ao pôr as mãos na cinta e perguntar «E depois?», lhe tinham pagado 50 escudos para ele o fazer. «Ó professora, disse-me talvez há um mês, quando me encontrou no Facebook, 50 escudos naquela altura era muito dinheiro!» e era. Acho que todos sabem a quem me refiro.
«À pancada não me dobram» dizia o «Constantino, guardador de vacas e de sonhos» de A lves Redol. Quantos destes jovens levam com a correia (vi um cheio de nódoas negras e a carne retalhada), chegam à escola e vingam-se nos professores? Outros são os pais que levam dos filhos (pura verdade) e iam à escola pedir ajuda, porque já não sabiam o que haviam de fazer.
Leiam o meu Romance «Vidas Sofridas» e têm lá muitos casos (todos verídicos) mas romanceados.
E fico-me por aqui e já não vou falar de um assunto escaldante que tem dado pano para mangas. Fica para a próxima. Deixo um cheirinho.
Deve ou não lecionar-se o nosso Nobel da Literatura, José Saramago, no 12º ano?
Maria Teresa Portal Oliveira
Cronista/ autora/ poetisa
8 abril 2026