Editoras, escritores, IA, e-books - Tudo ao barulho novamente
Face à proliferação de editoras e de escritores (alguns é um Deus nos acuda, nem português sabem!), a importância do livro e do e-book impõe-se cada vez mais, face à IA, embora com novos significados em novos contextos.
Telemóveis e Internet, se proibidos nas escolas em Portugal, darão ao livro a capacidade de voltar a ser consultado e lido como fonte de conhecimento da História Humana, preservada em pergaminhos, em papel impresso e, hoje, e, em papel de vários tipos. Que teria sido do conhecimento se assim não tivesse sido preservado? O papel perdura e conserva registos duradouros, visões contraditórias, o simbolismo e a realidade das épocas que se sucedem.
O livro promove leitura lenta, reflexão e argumentação estruturada, desenvolvendo o espírito crítico de quem lê e tem um autor ou vários, ou seja, responsabilidade intelectual e contexto. Continua a ser um espaço de voz humana, permitindo ao leitor entrar na complexidade da condição humana, algo fundamental para a educação integral. A leitura literária desenvolve empatia, imaginação e sensibilidade moral, oferecendo um tempo de silêncio, concentração e interioridade que a tecnologia tende a deteriorar. Ler um livro é um ato de autonomia: o leitor escolhe o ritmo, interpreta, discorda.
A IA tem uma interpretação rápida para situações que precisem de resposta imediata, gerando textos com base em padrões, sem experiência vivida ou compromisso ético. Vamos exigir ética a uma máquina? Ela pode simular emoções, mas não vive dilemas humanos. A IA pode apoiar a leitura — resumindo, explicando, traduzindo — mas não substitui o ato de ler. Ela tende a orientar, sugerir e filtrar conteúdos, o que pode limitar a diversidade de pensamento se usada sem ser criteriosa. Face à IA, o livro não perde importância — redefine-a. Num mundo de respostas automáticas, o livro torna-se um espaço de resistência intelectual, profundidade humana e liberdade de pensamento. A verdadeira inovação está em usar a IA como ferramenta, sem abdicar do livro como fundamento da cultura e do conhecimento.
Livro ou e-book?
A escolha entre livro físico e e-book não é uma questão de “melhor ou pior”, mas de finalidade, contexto e experiência de leitura. Ambos têm valor — e podem coexistir.
O livro físico favorece concentração profunda e leitura prolongada; estabelece uma relação sensorial com o papel, margem para anotações (embora eu não risque nenhum livro nem sublinhe, fruto de educação de outros tempos); uma menor fadiga visual; um valor simbólico, afetivo e cultural e não depende de bateria nem de tecnologia. O grande contra é ocupar espaço, provocar doenças por causa dos ácaros do pó, ser caro e ter um enorme peso no impacto ambiental.
O e-book tem uma grande portabilidade (centenas de livros num só dispositivo); permite uma pesquisa rápida, tem dicionário integrado e anotações digitais; o preço é geralmente mais acessível; o acesso imediato e permite aumentar ou diminuir o tamanho da fonte... Em contrapartida, depende de dispositivos e energia; tem um menor vínvculo emocional para muitos leitores (não consigo ler nada no computador, tenho de imprimir!) e favorece elementos distratores.
Estudos indicam que, para aprendizagem profunda e retenção, o livro físico tende a ser mais eficaz. Para consulta rápida, estudo técnico e mobilidade, o e-book é extremamente eficiente.
Mais do que escolher um lado, o ideal é usar cada formato de forma consciente, de acordo com o objetivo da leitura. O essencial não é o suporte — é ler bem e com sentido.
E agora vem o fulcro da questão. Como editar livros ao preço a que estão as impressões? Como arranjar editores em que valha a pena investir e que cumpram o estipuldo com os direitos de autor? E, depois, de se ter um editor, há garantia de venda? Ter uma máquina editorial por trás e bons padrinhos não é para todos, é só para alguns. Não me queixo. O grande Miguel Torga, um dos meus mentores, publicou toda a sua obra.
A respota não passará precisamente pela publicação de e-books, cuja aquisição estará ao clicar do dedo e preenchimento de um formulário com os autores a receberem imediatamente os seus direitos autorais? Não se acabará com o monopólio de alguns autores face a outros?
As redes de bibliotecas escolares estarão a ser bem geridas, a fazer o seu papel? Como é que são os mesmos autores a serem chamados e aos outros não lhes dão oportunidade? Refiro-me a livros com qualidade e revistos, não àqueles que são publicados com erros ortográficos básicos. Mesmo assim, aconheço quem tenha obra publicada e público fiel, com textos cheio de erros.
O mesmo se passa com os prémios literários. Não são os mesmos autores que colecionam prémios ano sim ano não? É fácil detetar-se o estilo de um autor e, mesmo sob um pseudónimo, sabe-se que aquele é fulaninho. É tapar o sol com a peneira. Para já não falar do autor que conhece os jurados ou vice-versa.
Para acabar, que o texto vai longo, mais um dos meus lençóis, pensem em tudo quanto ficou dito.
Sendo a primeira crónica do ano, desejo a todos os meus leitores, um ótimo 2026, bem melhor do que o 2025. O tempo parece ter entrado com o pé esquerdo. O pior inverno da década dizem as notícias.
Bom ano!