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Como é a sua manta de retalhos?

Teresa Portal
Opinião \ quinta-feira, setembro 02, 2021
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Nem sempre se comanda a vida como se deve e perde-se o rumo e com ele perdem-se retalhos preciosos que poderiam originar a confeção de uma grande manta colorida e simétrica...

A vida é uma manta de retalhos atrativos ou malfeitos que têm de ser confecionados por cada um. Uns são construídos cuidadosamente em malha, tecido bordado, colagens mais ou menos engenhosas, croché e cosidos com perfeição, utilizando várias formas criativas para uma união perfeita e segura. Outros são apenas alinhavados, porque são mais penosos e mais pesados, menos agradáveis de serem manuseados.

A vida é, pois, feita de altos e baixos, de momentos bons e maus, de alegrias e tristezas que aparecem ciclicamente… os retalhos da manta. Se não se encararem de frente os menos bons e mais trabalhosos e sofridos, podem deixar-se fugir as oportunidades, as alegrias e momentos de grande felicidade. É nessas ocasiões que se tem de estar alerta. Quando nem sempre tudo corre como previsto na linha de montagem dos retalhos e, já não havendo paciência ou capacidade de resiliência, há a tendência para se começarem a usar processos inadequados que vão aldrabar a sua montagem como, por exemplo, utilizar o agrafador que ilusoriamente aparenta ser mais rápido … Uma maneira trapalhona apenas para os unir de qualquer forma… perdendo tempo e hipóteses, porque os retalhos não ficam presos com segurança e a vida passa ao lado… foge pelos interstícios… porque há alguns que se perdem, às vezes os mais belos, que nunca farão parte da manta, pois ficarão interminavelmente esquecidos na cesta da costura, abandonados lá bem no fundo, por preguiça, por desistência, por fraqueza….

Nem sempre se comanda a vida como se deve e perde-se o rumo e com ele perdem-se retalhos preciosos que poderiam originar a confeção de uma grande manta colorida e simétrica com retalhos pessoais e profissionais de grande interesse e geradora de harmonia e bem-estar.

Ficam sonhos por sonhar, objetivos por atingir, atividades por fazer, pessoas por conhecer e, quiçá, a felicidade por alcançar, preocupados que estão com afazeres idiotas, trocando o certo e trabalhoso pelo incerto e precário, que nunca levarão a lado nenhum…

Desperdiçam-se tempo e energia com pormenores – o dinheiro, a fama, a glória -  e esquecem-se do mais importante – o viver consigo e para si e com os outros e para os outros. É difícil viver com um EU egoísta que só olha para o umbigo da mesma forma que, se não olhar para os que estão à volta e não contribuir para o bem comum, há um vazio difícil de preencher e há retalhos que vão fazer falta na montagem da manta.

Há mantas tão bonitas, bem acabadas, tão agradáveis à vista, vidas tão arrumadinhas que enchem os outros de inveja e ciúme. Estes últimos são os aglomeradores de retalhos soltos que nunca passarão disso mesmo, não dando a noção do todo, da manta unida e realizada. E propagam aos ventos “A culpa não foi minha” mas a culpa morreu solteira da mesma forma que um teimoso nunca teima só. “Quem não trabuca não manduca” diz o ditado e o trabalho é a origem de todo e qualquer pedaço que se lhe queira unir.

A manta de retalhos é a vida de cada um que é o único responsável pelos retalhos que trabalhou e produziu com beleza ou com desleixo, podendo vir a usufruir de uma vida plena de concretizações pessoais e profissionais ou não. Nada se faz sem esforço e sem dedicação.

Muito importante é cada um ter a noção de que se quiser elaborar a sua manta a dois não pode haver o EU e o TU, tem de existir o NÓS em todas as ocasiões e muito pouco o VÓS. Que têm os de fora a ver com a manta de cada um? Até podem ter muito se se pensar nos amigos e na família, nos conselhos, no abraço amigo, na presença na hora H, mas o NÓS é imprescindível para unir os retalhos de forma bela e segura. O MEU e o TEU não existem, existe o NOSSO. E nunca se pode esquecer que um filho é nosso, não nasceu de geração espontânea pelo desejo de um só.

Uma reflexão se impõe:

Como está a manta de retalhos que estou a elaborar desde que nasci? Será uma manta em que poderei descansar e dormir relaxado quando chegar a minha hora porque a fiz bem montada e bem estruturada? Ou será uma manta toda esburacada e com falhas de retalhos em que o descanso nunca será possível porque os alinhavos saem e os agrafos também? Se assim for, terei de repensar as minhas estratégias e metodologias, meter pés a caminho e ir à luta para conseguir o meu objetivo final – descansar, ser feliz e, muito importante, só poderei ser feliz se tiver contribuído para a felicidade dos outros.

Há um retalho que cada um está, no momento, a juntar à sua manta, imposto pela pandemia que, insidiosamente, continua a cercar a humanidade com toda uma variedade de mutações… É urgente que se faça o que é pedido: o distanciamento social, a desinfeção das mãos e a utilização da máscara.

Só com a responsabilidade de cada um, esse retalho bem negro poderá ser transformado numa excelente forma de contribuir para o bem comum, rodeando-o de outros bem coloridos e cheios de risos para que não possa destruir a manta que, laboriosamente, cada um está a construir.