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A verdade por detrás de uma tarja

Nuno Vaz Monteiro
Opinião \ quinta-feira, abril 02, 2026
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A mensagem é clara, ainda que não explicitada: engrandecer Braga implica, aqui, diminuir Guimarães. Num palco futebolístico, isso pode parecer trivial. Mas não é.

Ainda sobre a tarja da polémica do jogo Braga - Vitória, dando a margem para que o folclore do momento se esbata, venho afirmar que a imagem em causa está longe de ser inocente. Não se trata apenas de uma coreografia de adeptos ou de um momento criativo de bancada: foi um exercício deliberado de comunicação simbólica com intenção provocatória.

O enorme painel apresentado em Braga constrói uma narrativa de poder e legitimidade histórica. No centro, o livro aberto com referências à “Gallaecia” e a “Bracara Augusta” afirma uma ideia de primazia civilizacional. As figuras que o rodeiam — de natureza militar, religiosa e política — reforçam essa mensagem de continuidade e autoridade. A mensagem que tentaram passar foi essa mesma, Braga já lá estava antes de Guimarães existir. 

Mas, no contexto de rivalidade com Guimarães, esta encenação não pode ser lida como neutra. Pelo contrário: assume-se como uma tentativa de reconfigurar simbolicamente a hierarquia histórica entre cidades. E quando essa narrativa surge dirigida ao berço da nação, deixa de ser apenas afirmação identitária para se tornar provocação.

A mensagem é clara, ainda que não explicitada: engrandecer Braga implica, aqui, diminuir Guimarães. Num palco futebolístico, isso pode parecer trivial. Mas não é. Porque o que está em causa não são apenas clubes — são comunidades, memória coletiva e identidade histórica. Mexe com quem, mais do que ninguém, defende as origens com tudo o que tem. 

Mais sensível ainda é a forma como se lida com a herança do Império Romano. É inegável o seu peso em Braga, não se intitulassem de “gverreiros”, mas não se pode ignorar o outro lado dessa herança. Foi sob autoridade romana que Jesus Cristo foi julgado, condenado e crucificado — um dos episódios centrais da história ocidental e da fé cristã.

Surge aqui um contrassenso evidente: a exaltação festiva do legado romano convive com celebrações profundamente marcadas pela vida de Cristo, como a Semana Santa de Braga. Não está em causa negar a história, mas reconhecer que há tensões que exigem reflexão, não celebração acrítica.

A semiótica do cartaz confirma a intenção. Não há equilíbrio, não há diálogo simbólico — há uma narrativa unilateral que procura afirmar superioridade. A omissão e a implícita secundarização de Guimarães não são acidentais; fazem parte da mensagem.

Para os vimaranenses e, em particular, para os vitorianos, isto não é indiferente. Guimarães não é apenas uma cidade rival: é um símbolo fundador de Portugal. Qualquer tentativa de a relativizar, num contexto destes, é sentida como afronta direta.

No fim, este cartaz não se limita a apoiar uma equipa. Marca território. E fá-lo através de uma linguagem que, em vez de celebrar o desporto, opta por provocar e dividir. Num tempo que exige responsabilidade e elevação, ficou-se pelo contrário.

Não foi este o motivo que levou a PSP a não permitir a exibição da referida tarja no decorrer do jogo, esse motivo foi devidamente explicado e foi para segurança dos próprios adeptos, sob o risco de fogo, mas achei que, com o devido espaço temporal, deveria fazer esta clarificação. 

Nada melhor que na semana Santa referir esta dualidade que se vive em Braga, uma de muitas diga-se, e dizer que Santos há muitos, mas nenhum deles proveio do futebol, que me recorde.