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A era dos comentadores: quando a opinião já não é (só) humana

Daniela Caldas
Opinião \ quinta-feira, abril 16, 2026
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Talvez o verdadeiro desafio não seja apenas distinguir humanos de algoritmos, mas aprender a conter este fluxo. Dizer menos, pensar mais.

Vivemos, dizem, na era da opinião. Não da opinião informada, ponderada, amadurecida (essa sempre foi rara), mas da opinião instantânea, impulsiva. As redes sociais democratizaram a voz: hoje, todos comentam tudo. Do futebol à geopolítica, da vida alheia à ciência de ponta. E, ironicamente, foi preciso chegar a este auge da “opinião humana” para começarmos a perguntar: ainda são humanos todos os comentadores?

A inteligência artificial entrou em cena como uma ferramenta poderosa. Prometeram-nos eficiência, produtividade. E cumpriu. Mas trouxe também um efeito colateral curioso: multiplicou a opinião. Não apenas a capacidade de opinar, mas a produção em massa de comentários, análises, indignações e aplausos. E então surge a pergunta desconfortável: quando lemos um comentário brilhante, ácido ou perfeitamente estruturado estamos a ler uma pessoa ou um algoritmo?

É aqui que a ironia se instala. Passámos anos a lidar com comentários superficiais, mal informados e, por vezes, agressivos. Agora começamos a suspeitar de comentários demasiado bons. Demasiado coerentes. Demasiado rápidos. Como se a inteligência artificial tivesse aprendido não só a responder, mas a opinar e, talvez, a opinar melhor do que muitos de nós.

Mas será que isso é realmente novo? Ou será apenas o espelho daquilo que já éramos? Afinal, quantos comentários “humanos” já eram, na prática, reproduções automáticas de ideias alheias, slogans repetidos ou opiniões herdadas? A diferença é que, agora, o automatismo ganhou forma tecnológica e assumiu-se sem pudor.

Lembro-me de uma situação recente que ilustra bem este ponto. Disse a alguém: “Gostei muito da tua opinião naquela publicação que vi outro dia.” A pessoa sorriu, agradeceu e, segundos depois, perguntou: “Qual publicação?” Insisti, mencionei o tema, até citei uma frase. Silêncio. Um encolher de ombros. “Ah… devo ter comentado por alto, nem me lembro.” Ficou ali um momento estranho, quase cómico. Como se a opinião tivesse existido, mas sem autor. Como se tivesse sido escrita, mas não pensada.

E talvez seja esse o verdadeiro sinal dos tempos: não precisamos de inteligência artificial para produzir comentários automáticos, já aprendemos a fazê-lo sozinhos. A velocidade substituiu a reflexão, a reação tomou o lugar da compreensão. Opina-se primeiro, pensa-se depois, quando se pensa.

Entretanto, as plataformas recompensam este comportamento. Quanto mais rápido, mais visível. Quanto mais opinativo, mais interação. Pouco importa se há profundidade ou consistência, importa que haja presença. E assim, entre humanos apressados e máquinas eficientes, constrói-se um ruído contínuo onde tudo parece opinião e quase nada permanece.

E, como se não bastasse o ruído, há agora também o peso invisível. Um estudo recente defende que ferramentas como o ChatGPT podem consumir o equivalente a uma garrafa de água por cada 100 palavras geradas. Uma ironia quase perfeita: produzimos rios de opinião e, pelo caminho, vamos literalmente gastando água.

Talvez por isso a ironia final pese literalmente. Numa altura em que Guimarães é Capital Verde Europeia 2026, continuamos a despejar opiniões como se fossem inesgotáveis, mas cada palavra já tem um custo que não se vê. Produzimos rios de comentários, muitos deles vazios, enquanto, silenciosamente, vamos gastando água para os sustentar, como lembra um estudo recente.

No fim, talvez o verdadeiro desafio não seja apenas distinguir humanos de algoritmos, mas aprender a conter este fluxo. Dizer menos, pensar mais. Porque, se continuarmos a comentar como quem abre uma torneira sem pensar, arriscamo-nos a um futuro onde não falta opinião, mas começa a faltar água. E isso, convenhamos, já não tem nada de virtual.