Realizada entre Brito e a cidade, MAPA voltou a agitar Espaços Criativos
Destinado à prática cultural e associativa desde 2012, a sala dos Espaços Criativos escurece para assistir ao processo de autodestruição de Dinis Castro e Mendonça, personagem que, por uma hora, encarna a pele de um escritor que projeta nas mulheres da sua vida os seus infortúnios e que traça, enquanto olha o próprio espelho ou a fotografia de quando foi distinguido pelo seu livro mais vendido, a visão de um homem vitorioso, parte realidade, parte fantasias próprias de quem evidencia atributos narcisistas. Envolto em ideias preconcebidas sobre o que significa ser-se homem, marido, pai ou irmão, Dinis atormenta-se a si mesmo e quem o rodeia até chegar a uma experiência-limite que o coloca no trilho da redenção… ou não.
Francisco Leite Silva encarna essa personagem num solo de uma hora que constitui “A Dúvida”, peça que se estreou a 21 de novembro de 2025, em Ponte de Lima, ao abrigo da parceria estabelecida com o Teatro Diogo Bernardes, e que rumou à terra natal do ator, Brito, numa soalheira tarde de domingo, 29 de março, para encerrar a oitava edição da Mostra de Artes Performativas da Astronauta (MAPA). “Foi um processo difícil. Contava a alguns amigos que, no início do processo, cheguei muitas vezes a pensar desistir, porque estão concentrados neste personagem os piores defeitos, as maiores aberrações. Sempre que pegava no texto, no início do processo, dizia que não queria fazer. Foi um processo doloroso. Felizmente, tive pessoas que me acompanharam”, confessa o intérprete, que também se encarregou, a par de Luís Canário Rocha, de encenar o texto escrito por Helena Mendes Pereira.
Natural de Brito, o ator com mais de 30 anos de carreira, que participou em “A grande serpente”, peça na génese do Teatro Oficina, estreada em 1994, reconhece que atuar no edifício que outrora serviu a GNR lhe dá “uma energia especial”, embora a sala já necessite de obras. A seu ver, o espaço é crucial para uma vila que, por muitos anos, esteve “parada em termos culturais” e que dispõe agora de uma série de associações a dinamizá-lo.
É preciso, todavia, continuar o esforço para atrair mais público para o teatro, arte performativa à qual ainda se encontra alguma resistência, considera. “Apesar de já estarmos aqui há alguns anos, ainda sentimos alguma dificuldade em trazer o público para o teatro, mesmo o público da vila. Conseguimos, com mais facilidade, trazer público de Guimarães para cá do que gente da freguesia. Mas é um trabalho contínuo", vinca, após atuar para mais de meia centena de espetadores.
“Força da MAPA é um coletivo muito assente nos seus associados”
Fundada em 2015, em pleno centro da cidade, antes de se mudar para Brito, a Astronauta propõe um espetáculo de criação própria para cada edição da MAPA; “A dúvida” foi a proposta para este ano. Se a oitava edição encerrou a 29 de março nos Espaços Criativos, a abertura deu-se no mesmo lugar, a 27 de março, Dia Mundial do Teatro.
Radicada em Famalicão, a Fértil Cultural apresentou, em sessão dupla, “Os grandes não têm grandes ideias”, espetáculo dedicado às crianças. A já oleada cooperação com a Junta de Freguesia de Brito, com o Centro Social e com a Escola EB1 de Casais concentrou mais de 300 crianças nesse dia. “Houve anos em que íamos às escolas apresentar os espetáculos, mas preferimos trazê-las aqui. Há um grande comprometimento para que este momento infantil aconteça todos os anos”, realça Luís Canário Rocha, presidente da Astronauta.
Pelo meio, a 28 de março, a MAPA ocupou a desativada Fábrica da Madroa, na cidade, com a performance “Lost signal”, de Simão Barros, por parte da cooperativa cultural CARB, e um jantar-instalação alusivo ao tema principal da MAPA, as migrações, com a gastronomia dos países de origem de vários imigrantes de Guimarães a ocupar uma mesa para 50 pessoas. Mais à noite, Francisco Nogueira e Katerina L'Dokova cruzaram sons de Portugal, Bielorrússia e Ucrânia na black box do Centro para os Assuntos de Arte e Arquitetura (CAAA).
Concluída mais uma MAPA, o artista e dirigente associativo crê que o evento já tem “um posicionamento forte na comunidade artística vimaranense” devido ao esforço dos membros da Astronauta, que “se juntam para dar de si e fazer coisas”. “A força da MAPA é um coletivo muito assente nos seus associados, que fazem um esforço enorme para que isto se realize todos os anos”, sentencia.