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Os tiros deram lugar à cultura no Espaços Criativos, o “multiusos” de Brito

Bruno José Ferreira
Freguesias \ sábado, fevereiro 17, 2024
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Sem documentos, de boca em boca, conta-se a história do espaço que se transformou em polo de atração cultural com atividades diárias. De uma carreira de tiro fez-se o Espaços Criativos.

Detonar granadas ou disparar tiros de espingarda era a realidade, não assim tão distante, da Carreira de Tiro de Brito, pertencente ao Exército. Serviu de escola primária e habituou os habitantes da Rua São João Batista (Estrada Nacional 310) a ver passar colunas militares. Sem documentos, de boca em boca, conta-se a história do espaço que se transformou em polo de atração cultural com atividades diárias. De uma carreira de tiro fez-se o Espaços Criativos, um amplo espaço em pedra onde cabem todos.

Duas das três enormes paredes de pedra estão ainda visíveis. Com ameias contemporâneas que se assemelham a portas, recriava-se o cenário de guerra, que ainda hoje é possível imaginar no silêncio da antiga Carreira de Tiro de Guimarães, em Brito. À medida que se vai avançando, o silêncio é quebrado pelo zoar a grande velocidade dos carros a cruzar a A11, a via que, no início do milénio, “rasgou” este espaço para ligar Guimarães e Braga. Hoje é um “pequeno multiusos” de Brito; a presidente da Junta de Freguesia, Fátima Saldanha, descreve o Espaços Criativos como o local por excelência da cultura na freguesia.

É uma casa de cultura “com uso regular diário”, resume José Campos, membro do executivo da freguesia e, acima de tudo, “um estudioso dessas coisas”. Foi o cicerone numa visita guiada às instalações com as quais os britenses se foram habituando a conviver aos longos dos tempos, mas cuja informação escasseia. “Aquilo que se sabe é o que é transmitido via oral, o que foi passado de boca em boca e de geração em geração. Nunca encontrei qualquer documento referente a este espaço”, começa por introduzir o tesoureiro da Junta.

Falamos de uma construção em pedra, semelhante a uma casa, mas de maiores dimensões: quase 50 metros quadrados. As telhas são suportadas por enormes vigas de madeira, inteiriças, de fora a fora. Para lá disso, há o vasto terreno, já descrito. “Não sei quando foi criado, mas tenho poucas dúvidas de que pertencia ao Regimento de Infantaria 20, de Guimarães”, enquadra. Criado por carta régia de 05 de novembro de 1884, o Regimento de Infantaria n.º 20 passa, em 1907, ser designado por Regimento n.º 20 de Infantaria do Infante D. Manuel, segundo o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta.

 

Invólucros à mão de semear, antes da escola

José Campos não vai tão longe, mas confirma que a avó paterna, nascida em 1900, via ali os militares quando era criança. “Estes terrenos possivelmente eram do Conde de Margaride, que tinha uma quinta que ainda existe, a Quinta da Carvalheira, um monte amplo. Possivelmente pertencia à família”. Ao serviço do exército, este espaço foi, durante décadas, usado para treino militar: uma carreira de tiro, como ficou conhecido o lugar, precisamente pela existência dessa valência.

“O terreno era bem maior, mas depois a autoestrada cortou isto quase a meio”. Com a dissolução do Regimento 20, este espaço continuou afeto ao Exército Português. “Na década de 70, passavam por aqui, vinham cá, colunas militares para o treino; vinham do Porto e de Braga”. Ainda se percebem as feições das trincheiras, uma zona em que se preparavam alvos e outros métodos de treino. “Quando eramos miúdos vínhamos aqui procurar os invólucros; um perigo”, reconhece José Campos. Cumpriu serviço militar em Tancos, onde existia um campo exatamente como aquele: “Mais moderno um pouco, mas a essência era exatamente a mesma”.

“Na década de 70, passam por Brito várias colunas militares, a população habituou-se a vê-las vir aqui para o treino e para as atividades militares. Tinha a carreira de tiro, similar a Tancos, uma zonza de trincheiras e uma vala para se colocarem alvos”José Campos, tesoureiro da Junta de Freguesia de Brito

Paulatinamente foi perdendo uso e há sensivelmente meio século chegou a ser usado como escola primária. “A escola era pequena e, enquanto se construía a nova, houve aqui aulas”, refere, lembrando que sempre pertenceu ao Ministério da Administração Interna. Depois do Exército foi a GNR a manter o espaço. “Tinha um espaço que era uma casa em que vivia cá um cabo, um militar, a zelar por isto. Mesmo recentemente, quando fechou, estava aqui um elemento da GNR a zelar por isto. Eram conhecidos da população: era o Rodrigues e antes o Cabo Carvalho”, recorda.

 

Folclore, teatro, dança, música: um palco num parque

Integrada no edifício principal, dá hoje lugar ao palco. Por baixo, uma espécie de calabouços tinha correntes e uma sela. Isso desapareceu fisicamente, sendo que os tiros deram lugar à cultura. Com a construção da autoestrada ficou o espaço desocupado, sensivelmente uma década, sendo recuperado para a Capital Europeia da Cultura. “Continua a ser do Estado, mas está entregue à Junta para zelar por isto”, explica Fátima Saldanha.

O interior do edifício que confronta com a Estrada Nacional 310 impressiona pela imponência. É a casa de várias coletividades da freguesia, que se articulam para as suas atividades: é o caso da Astronauta – Associação Cultural, com os seus ensaios e espetáculos de teatro. Diariamente as portas abrem-se ao folclore, a atividades e música e dança promovidas pela Junta de Freguesia de Brito. O espaço exterior, onde se disparavam as espingardas e detonavam granadas, é um parque de lazer: “Um parque de merendas, com mesas, churrasqueiras, eletricidade e água que no verão chega a receber grandes grupos”, retrata José Campos.

O Espaços Criativos é, aliás, mais um palco do ExcentriCidade, projeto do município para descentralizar a cultura pelo território. É um palco que ainda está a enraizar públicos em Brito, pois “as pessoas ainda não se habituaram a vir cá com a intensidade que se pretende”, desabafa José Campos. O trabalho está a ser feito, e a oferta está lá, tal como as árvores centenárias que delimitam a carreira de tiro e demonstram a antiguidade desta infraestrutura, o “multiusos de Brito”.

[ndr] Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro do Jornal Reflexo.