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“O combate aos incêndios é como a guerra: só há se falhar a diplomacia”

Tiago Dias
Sociedade \ terça-feira, outubro 04, 2022
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Especialista em proteção civil, Hermenegildo Abreu está há 35 anos ligado a esta área. Foi durante sete anos comandante dos Bombeiros das Taipas e em entrevista ao Reflexo fala do seu percurso.

Há 35 anos ligado à proteção civil, o recém-exonerado CODIS de Braga realça que o combate aos incêndios funciona como um tripé: a proteção e a prevenção, a cargo de organismos como a GNR e o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), têm de funcionar antes de os bombeiros entrarem em ação. Comandante dos Bombeiros Voluntários das Taipas (BVT) entre 2009 e 2016, rejeita voltar ativamente à corporação, pelo menos para já. 

Ao pedir a exoneração do CDOS de Braga, com efeito a partir de 01 de julho, Hermenegildo Abreu encerrou um período de 21 anos como bombeiro em funções de comando, a maioria nos BVT. O especialista em proteção civil destaca o compromisso das corporações distritais nos últimos seis anos, principalmente no combate aos incêndios, e a crescente profissionalização dos bombeiros e, a nível local, enaltece as figuras de Ernesto Soares e de José das Neves Machado.

 

Que balanço faz destes seis anos como Comandante Operacional Distrital (CODIS) de Braga, período em que muito se falou de bombeiros e de proteção civil, por força dos incêndios?

Nestes seis anos, realizámos todos os projetos a que me comprometi, como a mudança de instalações do comando distrital - estávamos no edifício do Governo Civil com a PSP e agora estamos num só espaço do Comando Distrital, na rua de Santa Margarida. Passei por muitas mudanças de comandos nos corpos de bombeiros e estive por oito meses sozinho como CODIS no início da pandemia de covid-19. Voltámos a trazer a Braga o helicóptero pesado Kamov neste ano, que tinha saído do distrito em 2015. Saio com a consciência muito tranquila e com a sensação de dever cumprido. 

Esteve mais de 20 anos em funções de liderança, como adjunto e 1.º Comandante dos Bombeiros Voluntários das Caldas das Taipas (BVT), antes de assumir o Comando Distrital. A longevidade nesses cargos levou-o a um ponto de saturação ou a decisão teve outros fundamentos?

Foram mesmo motivos pessoais. Desde 2001 que fazia parte do comando dos Bombeiros Voluntários das Caldas das Taipas (BVT), corpo de bombeiros que estimo, que me ajudou muito a crescer na proteção civil, enquanto adjunto de comando e comandante. Tenho muitos amigos entre os bombeiros do Corpo Ativo e falo com eles várias vezes. Nunca tinha tirado férias no mês de agosto desde 2001. A minha filha tem 25 anos, e ter oito dias de férias com ela no mês de agosto é muito bom. Às vezes, olho para trás e sinto uma certa nostalgia de não ter acompanhado a minha filha com 13 ou 14 anos, mas, em todos os projetos que me meto, meto-me com dedicação, com empenho. O que fiz voltaria a fazer. 

Como foi liderar o CDOS durante os incêndios de 2017? No distrito, não houve mortos nem feridos, mas o fogo ameaçou áreas urbanas, de que é principal exemplo a cidade de Braga. Essa noite de 15 de outubro de 2017 trouxe desafios com os quais nunca lidara?

Falamos muito do incêndio de Braga, porque foi um incêndio mediático, mas tivemos outros grandes incêndios no distrito durante esse fim de semana. Tivemos incêndios em Cabeceiras de Basto, que ardeu o dobro de Braga, Vieira do Minho, que ardeu o dobro, e Vila Verde, que ardeu mais. Como foi às portas da cidade, foi mais mediático. E a meteorologia complicou bastante. Mas segundo o relatório da comissão técnica de 2017, os bombeiros do distrito de Braga empenharam 83% do efetivo no combate aos incêndios. Sempre foi uma honra trabalhar com os bombeiros do distrito de Braga e com os restantes agentes de proteção civil: a PSP, a GNR, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), todos.

Essa taxa de 83% foi superior à média nacional?

Com um número tão elevado de ocorrências a um fim de semana, conseguimos um efetivo elevado. Para mim, foi um feito único. Nestes anos todos ligados aos bombeiros, não me lembro de tantos incêndios num fim de semana, com condições meteorológicas adversas e com tanta disponibilidade dos agentes de proteção civil, nomeadamente os bombeiros, sempre na linha da frente.

 Numa entrevista de 2016 ao Reflexo, vincava que um melhor ordenamento florestal era chave para diminuir as ocorrências. O país (e o distrito) já aprenderam a lição com os incêndios que vitimaram 100 pessoas há cinco anos?

O ordenamento do território precisa de alguns anos para melhorar. Têm-se vindo a fazer melhorias nesse sentido. Com a ANEPC, fizemos várias campanhas para sensibilizar as pessoas sobre o que deveriam fazer em caso de incêndio florestal. No distrito, temos uma média de dois incêndios urbanos por dia. Quanto aos florestais, há alguns na primavera, com origem nas queimas e queimadas, e outros em julho, agosto e setembro, também devido à meteorologia. São ocorrências que correspondem, no máximo, a 10% do total, num ano.

Mas estão identificados os processos que podem tornar as florestas mais resistentes a incêndios e facilitar o próprio trabalho dos bombeiros?

Havendo a gestão do combustível durante o ano, o combate fica facilitado para o operacional. Quando falo no combate aos incêndios, há um tripé constituído pela prevenção, pela proteção e pelo combate. O combate aos incêndios é como a guerra: só há se falhar a diplomacia. Os operacionais só entram no combate, porque faltou a deteção e a fiscalização. Toda a gente aponta o dedo aos bombeiros e aos combatentes, porque houve o incêndio, correu menos bem e ardeu uma casa, um campo, um pomar. Os bombeiros só entraram no combate, porque falharam os dois pés anteriores. Isso não corresponde aos bombeiros. Corresponde ao ICNF e à GNR.

Esses “dois pés” são as principais fragilidades no combate aos incêndios de verão. Há outras?

Braga, Porto e Vila Real são os três distritos com maior número de ignições florestais e rurais. Isso não quer dizer que a área ardida seja superior às do Centro e do Sul, mas, havendo muitas ignições, os recursos são finitos. Se houver um incêndio, posso colocar lá 30 elementos. Se houver três incêndios, tenho de os dividir. Quando Braga tinha três ou quatro incêndios, dificilmente eles alastravam. Optávamos por ataques musculados. Fala-se muito na triangulação – três veículos de combate e um meio aéreo -, mas, enquanto comandante distrital, preferia os quatro e cinco veículos. Se tivesse meios, preferia enviar a mais e depois retirar veículos em caso de não serem necessários. Assim controlávamos logo grande parte dos incêndios. Quando cheguei ao CDOS, havia 18 a 20 equipas dedicadas ao combate a incêndios florestais. Agora temos pelo menos 29 equipas de combate e 12 de apoio. Isso facilita os ataques musculados.

 Como vê a reorganização levada a cabo pelo Governo quanto à delimitação dos comandos, agora com cinco comandos regionais e 23 sub-regionais, em conformidade com as CIM?

São decisões políticas. A legislação remonta a 2019. Pessoalmente, o Comando Nacional e o Comando Distrital chegavam. Em Braga, temos 21 corpos de bombeiros em 14 municípios. Agora vamos ter o comando sub-regional do Cávado, com seis municípios e 10 corpos, e o comando sub-regional do Ave, com oito municípios e 11 corpos. Celorico de Basto passa para o Tâmega e Sousa e Mondim faz parte do Ave. Se tenho 21 corpos de bombeiros, consigo balancear mais meios para trabalhar. Outra coisa é ter 10 corpos de bombeiros e seis a oito municípios. Claro que se pode pedir ao vizinho, como acontece agora - Braga pede meios a Viana, ao Porto ou a Vila Real -, mas manteria o Comando Nacional e o Comando Distrital.

 Como vê a escolha de Sérgio Barros para novo CODIS de Braga?

Conheço o Sérgio há muitos anos. Enquanto CODIS, trabalhei com ele enquanto 2.º Comandante Distrital do Porto. O Sérgio fazia parte da Força Especial de Proteção Civil. Conheço o Sérgio não só da parte operacional de comando, como de formações.

“À lupa, não podemos dizer que existem associações de bombeiros voluntários. Existem associações de bombeiros mistos: voluntários e profissionais”

Em 2009, uma entrevista dizia que comandava 120 elementos no BVT. Em 2016, disse que gostaria de ver o número elevado para 130, com uma escola de recrutamento de 25 elementos. O site contabiliza agora 94 elemento vinculados aos BVT. As corporações do distrito têm perdido bombeiros?  

A nível distrital, fazemos três a quatro exames de bombeiros por ano. E andávamos sempre na ordem de 100 a 130 entradas anuais. O número distrital anda entre os 1.700 e os 1.800 bombeiros. Vieira do Minho, em dois ou três anos, fez três escolas com perto de 100 bombeiros e tem agora cinco equipas de combates a incêndio. Nas Taipas, o número tem diminuído.

Como viu a atribuição da Medalha de Mérito a Ernesto Soares pela Câmara Municipal de Guimarães? Quando se tornou comandante dos BVT em 2009, um dos seus pedidos foi o de manter Ernesto Soares como 2.º Comandante.

O Soares é muito merecedor dessa condecoração. Conheço-o há muitos anos. Em 2009, a direção reuniu comigo e com ele. Na altura, disse ao padre Machado, com quem sempre adorei trabalhar enquanto presidente, que o Soares deveria ir para comandante. O Soares disse logo que não queria ser comandante. Então eu disse que assumia se ele ficasse comigo. Ele ficou, e construímos o resto da equipa de comando, com o José Augusto Ferreira e com o Rafael Silva. O Soares foi meu instrutor em 1987, quando entrei para os bombeiros. Tive a sorte de ele ser meu instrutor, chefe, adjunto. Ainda hoje tenho grande amizade com ele. Foi pena ele não sair só em setembro [de comandante interino], mas são decisões.

O seu trajeto nos BVT realizou-se, na maior parte, sob a presidência de José das Neves Machado, que se demitiu do cargo no início de 2021. Que papel desempenhou o padre Machado no seu crescimento como bombeiro?

Temos uma relação de amizade. Aprendi muito com ele. Havia sempre boa articulação entre ambas as partes. Nunca o Comando decidia nada sem falar com o presidente, nem o presidente decidia nada sem falar com o Comando. Os bombeiros devem funcionar dessa forma: duas cabeça e um pensar. Em tudo o que lhe pedi – fardamento, equipamento, veículos -, reuníamo-nos e víamos as necessidades. O padre Machado sempre foi uma referência como homem e líder. Sabia dizer “vamos” e nunca dizia “vai”. Tinha ética e personalidade.

 Como vê a indefinição em torno do comando dos BVT, liderados interinamente há um ano, primeiro por Ernesto Soares e agora por Paulo Gomes?

Essas situações não são normais. Algo não está muito bem quando sai o presidente, sai o vice-presidente, sai o conselho fiscal, depois sai o comandante. Essa é uma análise a fazer-se pelos associados e pelos bombeiros. Enquanto Comandante Distrital, olhava para o corpo de bombeiros das Taipas como para qualquer outro.

 Sempre esteve muito associado à formação de bombeiros. Há uma preocupação crescente dos operacionais com o conhecimento?

Em 1987, quando entrei para os bombeiros, falávamos de subir e descer escadas, montar bombas nas carrinhas de mangueira e pouco mais. Hoje um bombeiro tem mais conhecimento e tecnologias ao dispor. Há cada vez mais gente interessada em saber mais, seja de incêndios florestais, urbanos ou industriais, ou de cuidados pré-hospitalares. É também mais fácil fazer formação: hoje é possível online. Há 15 anos, tinha de ir à Escola Nacional de Bombeiros ou à Unidade Local de Formação. Hoje vamos à Universidade do Minho e temos um curso de Proteção Civil. Já se vê municípios a trabalharem para os Centros Municipais de Proteção Civil e para as Unidades Locais de Proteção Civil, nas freguesias.

São cada vez mais os bombeiros profissionais?

À lupa, não podemos dizer que existem associações de bombeiros voluntários. Existem associações de bombeiros mistos: voluntários e profissionais. Os Bombeiros Voluntários de Caldas das Taipas têm duas equipas de intervenção permanente (EIP), uma de manhã e outra à tarde. Têm um ordenado mensal, pago 50% pelo município e 50% pela ANEPC. Todos os corpos do distrito de Braga têm duas EIP. Há outros a caminho da terceira equipa.

Sempre disse que os Bombeiros Voluntários das Taipas eram uma “segunda família”. Com a saída do CDOS, voltará a ter mais tempo para ela ou a prioridade agora será a primeira família? Que horizontes vislumbra para o seu futuro?

Dizia alguém no mundo da política que “o futuro a Deus pertence”. Se os bombeiros das Taipas e o adjunto que está a liderar tiverem alguma dificuldade e precisarem de ajuda, até na área da formação, podem contar comigo. Essa casa era e é a minha segunda família, porque uma vez bombeiro, bombeiro para sempre. E há sempre aquele bairrismo nos bombeiros das Taipas. É uma casa que me ensinou muito. A minha área de formação é Segurança Militar, com mestrado em Gestão de Emergência e Socorro. Sou formador da Escola Nacional de Bombeiros na área dos incêndios florestais, na área das comunicações. Tenho alguma formação na gestão de operações e nos equipamentos de comando. Agora passar pelos BVT novamente? Nunca é palavra que não consta do meu vocabulário, mas neste momento não. No futuro, não sei.