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Mergulhar na história da vila também é ir a "Banhos"

Pedro C. Esteves
Cultura \ sábado, agosto 07, 2021
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No mês de junho a história da vila termal foi protagonista em três tertúlias. A última foi dedicada aos 71 anos das primeiras piscinas de verão do distrito, "um equipamento inovador".

Em maio de 1950, uma edição da extinta revista Stadium abria uma página assim: “As Caldas das Taipas e as suas realizações em prol do desporto”. Pelo meio de referências ao rinque de patinagem e aos campos de ténis, a revista mencionava, ainda antes da inauguração, a piscina. “Nós estamos no período pós-guerra e Taipas tem equipamentos inovadores para a época, mas a piscina é um equipamento marcante”, enquadra o professor e historiador António José Oliveira.

O recorte da publicação lisboeta – e muitos, muitos outros – foi exibido a um público atento que, na última sexta-feira do mês, se juntou na “belíssima” pérgola das piscinas das Taipas e reservou  uma hora para viajar à boleia do historiador por 71 anos de “um equipamento, à época, inovador”, o primeiro do distrito.

A apresentação decorreu no pergulado coberto por trepadeiras, mais vulgarmente conhecido como o salão de festas da piscina. O espaço só viria a nascer depois da inauguração – assim como outras valências (o mini-zoo, a piscina para crianças), que foram rememoradas com carinho por taipenses na plateia. Quase em jeito de conversa, historiador e audiência trocaram impressões de um período de infância comum. “A piscina está sempre ligada ao nosso imaginário. Vinha gente do Porto, de outros sítios para aqui. Há uma ligação grande a este local e todos temos fotografias nossas aqui tiradas em álbuns em casa”, enquadrou.

Entre memórias evocadas, os arraiais minhotos, a presença de Maria Amélia Canossa para atuações, eventos e provas desportivas. Milhares de corpos, vidas a desfilarem – muitas de passagem pela vila. É que as piscinas foram construídas no “eixo ordenador” das Taipas: a Alameda Rosas Guimarães concentra, mesmo agora, muito do aparelho turístico da freguesia vimaranense (à exceção da atividade termal). “Este eixo servia de acesso à praia fluvial” – onde desembocava a avenida –, explicou António José Oliveira, mas também “ao rinque, aos campos de ténis e fazia a ligação entre o matadouro e a praça de mercado”.

Uma nadadora de crawl e a bandeja

No diálogo com a plateia, foram surgindo reminiscências, resquícios de memória que colorem a história: aquela vez em que uma inglesa entra, pela primeira vez, em bikini na piscina – corriam os anos 60 –; ou então quando, da plateia, se reclama, por parte de alguém que trabalhou no recinto e por ali passeou “muitas vezes com a bandeja na mão”, o título de “melhor nadadora de crawl das Taipas”.

Junho, mês de história e proximidade

Estas tertúlias históricas são prova de que ir a “Banhos” é mais do que ir a concertos. Tal como o programador cultural José Manuel Gomes referiu numa conversa acerca dos dez anos de programação cultural, apesar de muitos forasteiros chegarem à vila pela mão da cultura, “nunca viria esse público, se já não houvesse um público fiel por cá”.

Manel Cruz cantou para quem suspirava por concertos: "Estávamos a precisar"

O repicar dos sinos dizia que estava na hora: 18h30. As 130 cadeiras dispostas no Largo das Termas estavam preenchidas e esperava-se movimento. Minutos depois, uma voz amplificada pelo sistema de som preenche o éter. Dizia assim: “O uso de máscara é obrigatório, terão de permanecer sentados até ao final do espetáculo. Saiam do recinto ordenadamente”. Frederico Rodrigues ouve a mensagem do lado de fora do gradeamento que delimita o espaço do concerto. Óculos de sol, garrafa de água na mão, aproveita a sombra de uma das árvores para fugir ao calor. Manel Cruz deve estar a chegar ao palco. Não tem aqui “um seguidor” – “puxou” mais a vontade “de vir a um
concerto”. “Estamos a precisar”, assinala.

Tudo se conjugou para estar presente: ouviu através da Antena 3 – que apoia o evento – o que ia acontecer na vila termal, procurou na internet mais informações e “voltou à rotina dos concertos”. “Já não venho a um concerto de- vido à pandemia há muito tempo, calhou bem”, explica ao Reflexo. Destaca a organização do evento, mas confessa: “É muito estranho ver um concerto sentado”. Optou por ver à distância, de pé. “Só falta a barraquinha da cerveja”, aponta.

Foge Foge para 2022

Ricardo, Olga e a pequena Carolina vieram pela primeira vez a “Banhos”. São de Guimarães e viram Manel Cruz no cartaz. Aproveitaram. “O cenário está altamente”, dispara Ricardo. Nunca assistiu a nenhum espetáculo no museu termal – este ano sem a visita de artistas devido à pandemia e a obras que circundam o local, mas “música cá fora é sempre fixe”. “É o primeiro concerto que vimos ver pós-desconfinamento”, avança Olga. Algum receio? Não. “Isto está aqui calmíssimo. Calmo demais, até”, atira em tom jocoso o pai de Carolina.

Na fila para entrar para o espetáculo, esperaram Cecília e Edgar. Vêm de Famalicão e com rodagem. O local não lhes é estranho: relembram com carinho os concertos de Samuel Úria e First Breath After Comma. Vêm à distância o balneá- rio termal de origem romana a que se habituaram, mas não desdenham o Largo das Termas. “O que mais importa é que haja sombra, e este é um espaço agradável e calmo”, salienta Edgar. E a acalmia perdurou. Manel Cruz tocou os primeiros acordes e evangelizou facilmente o auditório. O músico de projetos como Ornatos Violeta ou Foge Foge Bandido trouxe à vila termal ‘Tour Nedó’, espetáculo pensado para auditórios e teatros e que serviu de mote para soprar as velas a dez anos de programação cultural dos Banhos Velhos.

E há boas notícias para Frederico, Ricardo, Olga, Cecília e Edgar. Para o ano, Manel Cruz “regressa aos Banhos Velhos". "Para que todos possamos cantar. Juntos”, informou a organização.