Ligação entre Guimarães e Braga via Taipas aquece de novo reunião de Câmara
O metrobus – ou BRT – voltou a ocupar a discussão anterior à ordem do dia na reunião do executivo municipal de segunda-feira, com o vereador Ricardo Costa, em representação do PS, a defender que os 80 milhões de euros concedidos pelo Governo para a primeira fase da linha de BRT entre Guimarães e Braga – no caso, garante a ligação entre a cidade de Guimarães e Caldas das Taipas, com ramal para o Avepark – não vão resolver qualquer problema de mobilidade intraconcelhia, por considerar que há troços do percurso onde não será possível haver “linha totalmente dedicada” ao metrobus.
“Esta proposta do BRT não faz qualquer sentido. Com 10% deste valor, requalificávamos a Estrada Nacional 101 (EN 101) e ficava uma ligação perfeita. Este BRT não vai resolver problema nenhum. Deviam ter uma linha totalmente dedicada, mas vai haver troços na EN101 em que não vai ser possível ter linha dedicada. Vamos conflituar com os automobilistas que fazem aquele trajeto diário. Já temos transportes públicos”, disse, após a reunião de Câmara, lembrando que o BRT no concelho de Braga deixou de ser prioridade para o respetivo executivo.
O antigo vereador do desenvolvimento económico, entre 2013 e 2021, e candidato socialista às mais recentes Eleições Autárquicas considerou ainda que essa verba de 80 milhões de euros, consagrada em Diário da República na sequência da resolução do Conselho de Ministros decorrido em Guimarães, em 03 de julho, daria para requalificar a EN 101, para melhorar a circular urbana da cidade, que “é um problema” e para melhorar a mobilidade no sul do concelho.
Já o presidente da Câmara Municipal disse estar focado “na execução dos compromissos com os vimaranenses”, após um Conselho de Ministros “digno de registo” – foi a primeira reunião formal do órgão na cidade-berço, tendo havido uma reunião informal em 2006 – e vincou que o BRT é um projeto que serve efetivamente a população de Fermentões, Pencelo, Ponte e Caldas das Taipas ao longo do percurso.
"O mais importante é a ligação intraconcelhia, dentro do concelho. É isso que estou focado em implementar. Quero ligar Guimarães às diferentes vilas. Nesta primeira fase, quero ligar a cidade de Guimarães e a vila das Taipas para servir todo aquele corredor e as pessoas que utilizam esta ligação. As fases seguintes serão a seguir", vincou, rejeitando qualquer preocupação com o facto de o autarca de Braga ter secundarizado o BRT na hierarquia de prioridades para aquele território.
Araújo lembra que é “mais difícil justificar financiamento nacional ou europeu” sem um projeto de dimensão interconcelhia – está prevista uma ligação entre Guimarães e à estação de alta velocidade de Braga -, mas lembra que o BRT não vai apenas ligar os centros das cidades, até porque já há soluções de transporte coletivo para isso – ligações de autocarro via A11.
O autarca crê ainda que o PS está apenas “empenhado em atirar areia para os olhos” quando fala da impossibilidade de o BRT circular exclusivamente em via dedicada entre a cidade e a vila termal, fruto dos constrangimentos associados à Estrada Nacional 101, até porque a Câmara Municipal ainda está a contratar o estudo prévio, que “vai detalhar mais precisamente o trajeto”, e os técnicos existem para solucionar constrangimentos.
Ricardo Araújo vincou ainda que a futura requalificação da Estrada Nacional 101 (EN 101) visa a abertura de “um corredor de transporte público” para garantir mobilidade “de qualidade e fiável”, após Ricardo Costa ter dito que um financiamento de 80 milhões de euros daria para requalificar a EN 101, mitigar os problemas da circular urbana e melhorar a mobilidade do sul do concelho.
"Temos de comparar maçãs com maçãs e peras com peras. Se se tenta somar maçãs e peras, é difícil saber o que temos no fim. Não quero só pôr alcatrão na 101. Quero alargar a 101 onde for possível alargar para ter um corredor de transporte público. Para outros, que é aquilo que o PS fez durante 30 anos, requalificar é atirar alcatrão para a estrada”, salienta.
Costa quer “anel ferroviário”. Araújo acusa Governo do PS de inviabilizar ferrovia
Em detrimento do BRT, Ricardo Costa defendeu de novo o metro de superfície (LRT) como a opção, a seu ver, mais adequada para o transporte público intraconcelhio e a ferrovia como o meio a privilegiar para ligar os dois centros urbanos mais populosos do Minho. O vereador socialista citou, aliás, um trabalho de 2009 de António Babo, especialista em mobilidade que morreu em 2025, e o antigo secretário de Estado das Infraestruturas, Francisco Francisco, que exerceu o cargo em 2023, para defender a ligação ferroviária, não só garantir ligações mais rápidas de transporte público aos habitantes das duas cidades, como para fechar o anel ferroviário do Minho.
“Braga e Guimarães possuem duas estações terminais. Sejamos capazes de fechar o anel e a rede ferroviária, respondendo a uma melhor articulação a norte e a sul. Independentemente de termos 80 milhões para o BRT, esta ligação não vai contribuir para uma melhor articulação regional. Não queremos que Guimarães seja um apeadeiro com serviços locais. Temos de pensar em como pretendem chegar os vimaranenses a Vigo, a Lisboa ou à futura estação de alta velocidade, em Braga”, acrescentou, defendendo que gerir uma Câmara Municipal vai além de “uma comissão de festas ou de gerir redes sociais”.
O representante socialista comentou ainda a defesa da Área Metropolitana do Minho, que merecedora de um anúncio no dia seguinte, terça-feira, por Ricardo Araújo e João Rodrigues, presidente da Câmara de Braga, lembrando ter defendido essa estratégia em 2020, quando se candidatou pela primeira vez à Federação Distrital de Braga do PS e perdeu as eleições com o incumbente do cargo, Joaquim Barreto.
“Fico contente que, seis anos depois, me deem razão. Fico triste é que tenhamos perdido tempo. Só lamento que mais ninguém tenha defendido isso na altura, por questões de partidarite aguda. Não vi pessoas do PS e do PSD a defender a proposta”, lembrou.
A propósito da ferrovia a ligar Guimarães e Braga, o presidente da Câmara disse que nunca foi contra a solução e acusou um dos Governos de António Costa de “aniquilar essa possibilidade” quando se discutiu o Plano Nacional Ferroviário – o documento estratégico foi apresentado em 17 de novembro de 2022 –, para o qual afirma ter dado “um contributo escrito. “Se houvesse essa solução, eu dizia que sim. Mas ser presidente de Câmara implica definir opções e prioridades. A minha prioridade neste momento é trabalhar pela linha de metrobus. Importa deixar bem claro que o principal responsável por aniquilar a linha ferroviária entre Braga e Guimarães foi o Governo de António Costa”, salienta.
Ricardo Araújo lembrou ainda uma intervenção de Frederico Francisco - que Ricardo Costa citou para defender o comboio -, realizada em 27 de janeiro de 2023, na qual o antigo secretário de Estado admitiu que a ligação em ferrovia pesada exigiria um túnel de nove quilómetros sob a Falperra, infraestrutura que elevaria a obra para um valor próximo dos mil milhões de euros, algo que considerou “muito difícil de justificar”, face à “dimensão dos centros urbanos” e ao “volume de procura esperado”.
O autarca criticou também a localização da futura estação de alta velocidade, em Semelhe, freguesia no noroeste do concelho de Braga. “Defendemos que deveria ficar no triângulo Famalicão, Braga e Guimarães. Isso compromete definitivamente os interesses estratégicos de Guimarães. Servia melhor os interesses da região, o maior foco de empresas, o maior foco de população. O maior responsável é o Governo do PS e aqueles do PS que, em Guimarães, estiveram sempre calados”, salientou.