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Há património nas margens do Ave "em ruína". E uma ecovia pode ter soluções

Pedro C. Esteves
Sociedade \ domingo, agosto 29, 2021
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Moinhos, azenhas e açudes ladeiam o Ave e a história do rio também se conta com este património. No entanto, "estamos à beira de perder" estas infraestruturas, avisa o movimento cívico Viver o Ave.

Da nascente montesina até à foz são 85 quilómetros. O cariz serrano desvanece-se e encontra paisagens industriais, acabando por desaguar no Atlântico – pelo meio esquarteja seis concelhos. À superfície, o rio Ave é isto. Gualter Costa conhece este percurso “metro a metro”, mas mesmo assim ainda se surpreende com o que ladeia o curso de água. É que há um “manancial de património desaproveitado” ao longo das margens: estruturas seculares como azenhas, açudes e moinhos prontas para a descoberta (e valorização). Tarefa que seria mais fácil com a ajuda de uma ecovia integral que percorresse o Ave. “Trata-se de um rio que, pelas suas dimensões, largura e caudal de água tem o comprimento ideal para fazer uma ciclovia com alguma dimensão”, explica o porta-voz da organização Viver o Ave, Gualter Costa. O objetivo deste movimento cívico passa por consciencializar para a proteção e preservação da bacia hidrográfica deste curso de água que abrange 14 freguesias do concelho de Guimarães.

Aproveitar o rio “para fins turísticos” pode ser um passo importante para concretizar o objetivo: a despoluição. “Pratico BTT há muitos anos, andei por quase todas as ciclovias do país e comecei a aperceber-me que começavam a ser polos de atração”, indica. E com um trilho entre a foz e a nascente, Gualter acredita que as autarquias “podiam perceber” que a ideia “teria potencial” - à imagem do que acontece noutros traçados ribeirinhos do país, o advento das bicicletas elétricas (e do cicloturismo) e a “oportunidade única” proporcionada pelos fundos destinados ao ambiente da bazuca europeia podem funcionar como catalisadores para aproximar as pessoas dos rios. “A nossa mensagem é mostrar o rio Ave pela positiva, mostrar o que há para ser preservado, valorizado. Tudo o resto virá por arrasto, inclusive quando as pessoas começarem a circular junto às margens também haverá mais fiscalização cidadã”, vaticina o voluntário.

Para já, e com poucos meses de atividade, uma “agradável surpresa”: zonas que podiam ser “avessas” ao projeto são as que mostram maior “dinâmica e interesse” – Gualter dá o exemplo do concelho de Guimarães e de freguesias como Pevidém, que, em conjunto com outros locais do Vale do Ave, têm uma história “conturbada” com o rio. O concelho vimaranense tem, segundo o porta-voz, muito “património que foi um motor desta região durante séculos". “Mas”, frisa, "em ruínas": “Estamos à beira de o perder para sempre”.

Esta é outra razão evocada para a criação deste movimento que já reuniu com autarquias, inclusive com o Laboratório da Paisagem. “Estive sempre ligado à preservação do património e sou um curioso. Falei com o arquiteto Bruno Matos, a pessoa que mais tem estudado os moinhos do rio, e criamos uma página [nas redes sociais] para tentar perceber se havia sensibilidade para este tipo de coisas no nosso rio Ave”. Conclusão: havia. Nasceu assim o Viver o Ave - Movimento para a Proteção Ambiental e Promoção Patrimonial.

 

Cuidar e ver nascer a norte do concelho

Já são mais de 100 voluntários e o grupo criado na rede social Facebook já tem quase 2000 integrantes. Bruno Matos explica o apelo: “É uma causa muito interessante; estes movimentos fazem cada vez mais sentido e ainda bem que existem. Esta visão do rio como elemento esquecido é para ser revertida”. O arquiteto e investigador de património molinológico no Centro de Estudos de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) salienta que, “aos poucos”, “começa-se a ver algumas intervenções ao longo das margens” que visam devolver o rio à comunidade. O também voluntário do movimento cívico elogia o projeto da ecovia do Ave a ser desenvolvido em Guimarães – serão 34 quilómetros de traçado que integra a “criação de pontos de interesse ao longo do percurso”, segundo a Câmara Municipal.

Duas dessas intervenções que visam aproximar as pessoas do rio aconteceram a norte do concelho e foram notícia durante o mês de julho. Ponto de encontro dos territórios das freguesias de Briteiros Santo Estêvão e Donim e Souto Santa Maria, São Salvador e Gondomar, a Praia do Vaqueiro tem sido alvo de intervenções que visam capacitar aquele espaço ribeirinho com novas valências. "Com a sua ilha coberta de areia branca para os banhos de sol, e as suas sombras para os piqueniques é um dos locais mais aprazíveis à beira rio para refrescar durante este Verão", informa a Junta de Freguesia de Briteiros Santo Estevão e Donim através de uma publicação na rede social Facebook. Segundo a Junta de Briteiros, este espaço "dispõe de um extenso areal para banhos de sol e zonas arborizadas ideais para piqueniques, sendo o ponto de encontro para residentes e visitantes nos meses mais quentes do ano".

Também foram dados os primeiros passos para que a zona norte do concelho tenha mais um espaço de lazer justafluvial. A Junta de Freguesia de Prazins Santa Eufémia anunciou que conseguiu um "terreno/ espaço com cerca de 15.000 m2 que se destinará a um parque de lazer junto ao rio Ave". Para além destas ações, foi também inaugurada a segunda fase da requalificação do Parque de Lazer da Praia Seca, em Caldelas. “Mas ainda há muito por fazer”, salienta Bruno Matos. O investigador acena com o património molinológico do concelho, que “caminha, a passos largos para o desaparecimento”. “Não conheço em Guimarães ou no Ave uma infraestrutura que esteja com o seu sistema de moagem preservado”. Noutro cenário, estes edifícios poderiam ser “pontos de atração” para visitantes – “e para enriquecer a cultura local”, complementa. Estes engenhos que remontam à época romana têm registos de foros “atribuídos na época de D. Afonso III e D. Dinis”.

 

Património secular para recuperar

E neste capítulo a ecovia integral pode ajudar. Com a aproximação das pessoas ao rio, fomenta-se também uma relação afetiva. “Se criarmos um plano e criarmos a ecovia que integra este património disperso ao longo do Ave, conseguimos ter uma das melhores ciclovias do país”, frisa Gualter Costa. Na ótica do porta-voz do Viver o Ave, a pandemia de covid-19 também contribuiu para uma relação mais próxima com o rio. As caminhadas e prática de desporto nas zonas ribeirinhas para afastar o marasmo de confinamentos sucessivos permitiu às pessoas perceberem “o quão agradável é conviver com o rio”. No fundo, aperceberam-se que a qualidade de vida “estava mesmo ali ao lado", e que a "tinham ignorado durante décadas”. “Nota-se uma sensibilidade das pessoas para o rio em toda a bacia”, analisa.

Mas esta relação afetiva pode ser aprimorada. Salvaguardar o património e saber como o reconstruir, para que, no futuro, seja recuperado é uma prioridade. Segundo Bruno Matos, “seria benéfico” haver por município “um engenho” – uma azenha tradicional, por exemplo – com um objetivo pedagógico. Até porque o “património está a desaparecer” e apenas os moleiros sabiam reconstruir estas infraestruturas. Os municípios também já alertaram que não há documentação para restaurar as azenhas. “Sabe-se que existem, mas não há registo fotográfico”, ressalva Gualter. Ou seja, há azenhas que desapareceram e não há registo fotográfico – essencial para futuros esforços de reconstrução.

 

"Não podemos ficar só pelo inventário"

Em Guimarães, o arquiteto destaca o programa Hereditas – um repositório dos bens culturais do concelho que agrega património e heranças antigas – como um “bom primeiro passo” para a valorização. “Mas não podemos ficar só pelo inventário”, frisa. “Lembro-me perfeitamente de ver n casos em Guimarães de moinhos extraordinários com riqueza do ponto de vista patrimonial, etnográfico, mas ainda nenhum caso com uma ação de salvaguarda”, atenta o investigador e arquiteto.

Muitas vezes, o acesso a este património é difícil. Como dá conta Gualter Costa que, para registar fotograficamente algum património, tem de "desbravar mato". A falta de acesso também contribui para o apartamento entre comunidade e rio. Problema que a ecovia integral defendida pelo movimento pode ajudar a mitigar.

 

"Um projeto cidadão", três rios

Neste capítulo, voluntários e entusiastas podem dar uma ajuda valiosa. “Um projeto cidadão” como o Viver o Ave, explica Gualter, só é possível com a colaboração das pessoas. Um comunicado do movimento dá conta da intenção de construir um “arquivo aberto e gratuito” de recortes, fotos ou jornais para suprimir a inexistência de um arquivo documental estruturado e histórico dedicado ao Vale do Ave – rio Ave, Vizela e Este.

“Este é um projeto totalmente aberto à comunidade, sendo nosso objetivo reunir e catalogar documentação histórica (documental e fotográfica) relacionada com as várias dimensões da Bacia Hidrográfica do Ave, para que as memórias históricas que ainda persistem dispersas um pouco por todo lado possam ser salvaguardadas para memória futura e não se percam com o passar do tempo”, lê-se numa nota informativa.