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Donim dava boas festas com confetis, instrumentos e muito namoro

Carolina Pereira
Freguesias \ quarta-feira, abril 20, 2022
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Donim já foi espaço de muita festa. Atiravam-se confetis aos cabelos das amadas e por vezes os pretendentes acabavam, no final da noite, a ser curados, por freiras.

“Nascemos aqui em frente ao lar, nestas casas baixinhas que eram dos “Tem Tudo”, eu e os meus irmãos que somos seis”, começa por contar Albertina de Jesus, residente da freguesia que periferia a cidade de Guimarães.

Na altura da infância de Albertina, há uns 70 anos atrás, a realidade era bem diferente do contexto atual. Donim tinha poucas casas, “eram só campos, tinha o café Tem Tudo, a reta, o lar e o nosso bairro”. Ninguém tinha água em casa, tínha-se de ir à fonte, “às Lamas”, onde tinha um canudinho por onde saía a água. “Íamos buscar a água com os cântaros, fazíamos a rolhinha na cabeça e lá vínhamos”. As estradas eram pouco utilizadas; eram tempos de pouca mobilidade automóvel. Havia, por isso, quem visse outro tipo de potencialidade nesses pisos.  De pandeireta, tambores e viola na mão, a família de Albertina fazia daquele espaço um palco. “O meu tio levava uma viola, outro senhor o cavaquinho e faziamos uma festa sem mais nem menos. Tinha de ser. Se não quando é que se ia fazer a festa? Faz-se quando se quer”.

Com apenas 10 anos, após concluir o terceiro ano de escolaridade, a sua ânsia por trabalhar já latejava. Começou por tomar conta de uma criança (como se ela própria não o fosse) durante meio ano, até que meteu na cabeça que trabalhar na fábrica da mãe seria melhor. Foi a persistência que a fez conseguir lá trabalhar, depois de andar atrás do patrão da mãe e insistir que queria o trabalho. A verdade é que as vantagens eram boas, não só lá tinha a mãe, como a fábrica ficava muito perto de casa, em Rendufe, perto da ponte de donim, onde hoje está a Quinta do Cedro do Ave.

“Tantas que vinham das Taipas a pé, com aquela idade íamos para ali a chover e quando chovia, naquele tempo, era mesmo chover, não era como agora. Fosse chuva ou fosse neve, os taques ficavam cheios. Antes eram as quatro estações. Nós íamos com as soquitas tchac tchac tchac da fábrica às 22h00 da noite. Mas às vezes com a trovoada a luz falhava então tínhamos de dar tempo e saímos perto da meia noite. Havia uma senhora que alumiava com o lampião. Sempre à frente a mostrar os charcos de água que via, para não pisarmos. Estive lá até aos 23 anos”, relembra.

“Tina”, como é carinhosamente tratada, dava-se com todo o tipo de pessoa e o que queria era falar. Um dos locais para onde gostava de ir passar o tempo era “para as freiras”, no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Donim. A então jovem Tina dava-se muito bem ali. Podia brincar, davam-lhe comida, falavam com ela. Tinha um carinho por elas e recorda-se do que faziam pelos outros. “Era um lar, mas elas faziam de tudo, como por exemplo curativos. Antigamente, os namorados eram muito ciumentos e batiam-se muita à conta das raparigas. Ás vezes vinham das festas de Santo Emilião rachados, a escorrer sangue, a Irmã Maria lá metia o casaquito mais quente e ia lá ajudar os moços”, conta.

Janeiro era muito ansiado. Altura em que a freguesia já celebrava o Santo Amaro. Eram doceiras por todo o lado, meninas fardadas para participar na procissão de saia azul escura, com a bandeira da cruzada, dos escuteiros e fitinhas, boas noitadas,muito convívio, rancho e música. Albertina relembra saudosamente a festa daquela época “Aquilo antes é que era uma festa, agora já não tanto, não há ninguém a preparar as romarias. As pessoas cortavam folhas enormes em papeizinhos pequeninos e punham-se a vender daquilo. E os rapazes iam comprar aquilo e quando queriam andar atrás de uma rapariga deitavam-lhe por cima dos cabelos. Tinham tanta piada”, relata animadamente a residente. “Eu fugia e fugia, mas os rapazes bem me caçavam. Depois sacudia tudo. Antes de eu casar tive três que queriam casar comigo. Escreviam-me tanto, eu dizia em várias cartas para não me escrever mais”. Fora essas peripécias, havendo festa, Tina estava lá, pronta para a “borga” e para se apresentar. “Tenho saudades, naquele tempo fazia-se mais pela freguesia do que agora, havia mais comissões, havia mais espírito de comunidade, agora é um bocadinho cada um para si”.