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Das Taipas ao reconhecimento nacional: a história de Joaquim Mendes

Manuel António Silva
Sociedade \ segunda-feira, junho 22, 2026
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Joaquim Oliveira Mendes será um dos distinguidos pelo município de Guimarães, na Sessão Solene do 24 de junho - Dia Um de Portugal, com a Medalha de Mérito Empresarial.

Joaquim Oliveira Mendes, à boleia do 30º aniversário da JOM, fundada em 1996, mas que, antes disso, desde 1985, teve uma pequena loja de eletrodomésticos em plena Avenida da República, nas Taipas, concedeu uma entrevista ao Reflexo. Natural de Longos, onde viveu até aos 23 anos, tem quatro filhos e três netos, em resultado de dois casamentos que teve. Aos 66 anos, regista um percurso coroado de sucesso, mas, a vida, também lhe reservou alguns infortúnios. Abriu-nos a porta da sua empresa, que conta com 28 lojas físicas distribuídas por todo o país, mais de 500 funcionários e, pelas últimas contas conhecidas, faturou 75 milhões de euros. Para lá do empresário está também o homem. Foi essencialmente com esse que conversamos.

 

Quando olha para trás, quem era o Joaquim Mendes antes de existir a JOM?

Um rapaz humilde. Filho de agricultores. Trabalhei sempre no campo, até aos 18 anos. O meu primeiro negócio foi com 6 anos. Comprei uma bola e levava-a aos rapazes no adro da igreja. Cobrava um escudo à hora. Para terem noção do valor desse dinheiro, na altura, eu ia buscar um saco de tremoços que valia um cruzado. A maior herança que eu tive aos meus pais foi a liberdade de aos 18 anos me deixarem ir trabalhar. E oferecer-me uma motorizada (Sachs Fórmula1), que ainda hoje preservo à entrada do escritório, na receção. Fiz 18 anos no dia 21 janeiro e em fevereiro, recebi o meu primeiro salário. Dois contos. Cheguei a casa com dois contos, muito triste e disse à minha mãe que nem dava para a gasolina. E ela disse-me: “meu filho, pagou dois contos e pagou-te muito. Aprende a arte e faz-te à vida”. E assim fiz. Essas palavras nunca as esqueci na vida. Antes de trabalhar como eletricista, era jornaleiro. Fui empregado da Soprolar, nas Taipas. Andei na Quinta, em Leiró, a fazer ramadas, a podar, etc. Quando me empreguei, já foi um desafio muito grande, foi um passo gigante que dei na minha vida. Fui estudar de noite, para a escola Francisco de Holanda e de dia trabalhava. Foi assim que fui crescendo. Aos 20 anos estabeleci-me.

À entrada dos escritórios, Joaquim Oliveira Mendes e a Sachs Fórmula1 oferecida pelos seus pais aos 18 anos.

E o ambiente familiar em que cresceu?

Foi um ambiente saudável, um ambiente, na altura, muito humilde. Ajudei os meus pais no campo. Quando amámos aquilo que fazemos, não importa onde, sentimo-nos bem, estamos bem. Na altura os meus pais, era daquilo que precisavam, eu dei o meu melhor enquanto lá estive.

Quem foram as pessoas que mais influenciaram o seu carácter enquanto jovem?

A minha mãe. Era a minha confidente. Identifico-me muito com a minha mãe, porque foi sempre a minha conselheira. Foi a minha mãe que soube das minhas primeiras namoradas, dos meus primeiros desafios, alguma coisa que eu falava era com a minha mãe.

A sua primeira loja foi na Avenida da República, nas Taipas. O que é que o levou a escolher aquele local?

Vejo sempre nos problemas, oportunidades. Sempre. Costumo dizer na JOM que nunca há problemas. Só há soluções. E num problema, há uma oportunidade. Sempre. A loja das Taipas? Muito simples. Quando comecei a trabalhar na parte elétrica, por minha conta, aos 20 anos, eu fazia permutas com os empreiteiros. Recebia lojas ou apartamentos na troca do trabalho realizado no edifício. E o dinheiro para alimentar a casa, era o sábado e o domingo, dos biscates que fazia para ganhar dinheiro para o gasóleo, para alimentar a vida de casa. Entretanto, ao vender uma loja que tinha em Fafe, vendi-a ao José Couto da JOCEL que me pagou em eletrodomésticos. Então, tive de abrir uma loja de eletrodomésticos. Foi aí que há 41 anos, faz agora em junho, que eu abri a loja nas Taipas, para vender os eletrodomésticos. E foi aí, de facto, o meu princípio.

Houve algum momento, alguma ocasião em que pensou desistir?

Sim, pensei em desistir. Houve momentos complexos. Quando comecei na loja das Taipas, ao fim de dois anos, senti que tinha de avançar, de arranjar uma alternativa porque a loja sozinha não chegava. Sou extremamente ambicioso e então falei com o Sr. Dácio, que é hoje o nosso chefe de compras e enchi uma carrinha e comecei a fazer revenda para o mercado do interior. Na revenda andei 10 anos. No fundo, andei 10 anos a empobrecer alegremente, porque o valor de malparado que tinha era superior, por vezes, à rentabilidade que eu tinha num negócio. Havia muitos incobráveis e margens baixas. Uma coisa é a necessidade de dinheiro, outra coisa é o negócio. Nunca podemos estar a hipotecar o negócio por causa da necessidade de dinheiro. Isso é algo que não se deve fazer.

E se pudesse voltar àquela loja das Taipas, conversar com o Joaquim Mendes de então, que conselho é que lhe daria?

Seguia o mesmo caminho. Não alterava nada. Sei que andei 10 anos, de facto, a empobrecer alegremente. Para mim foi um curso, foi uma formação. Deu-me crédito, abriu-me os olhos para o mercado e deu-me abertura para dar início a um projeto que começamos em 1996. Se não tivesse passado por essa experiência, se não tivesse, esse currículo de conviver com pessoas, de lidar com pessoas e ter a segurança do mercado e mesmo a nível dos fornecedores, não teria sido fácil entrar no mercado mais arrojado, que foi a parte dos móveis de decoração e utilidades, que eu não percebia nada disto.

Enquanto líder, tem noção, tem em mente o maior erro da avaliação que cometeu ao longo deste seu trajeto?

Eu acho que não errei muitas vezes. Eu aprendi muitas vezes como é que não se devia fazer. Todos nós cometemos falhas. E eu sei que cometi falhas. Faz parte do processo. E quem disser que está no mercado e que não falhou, está a errar. É importante não ter medo de errar.

A sua vida pessoal foi marcada por muitas alegrias, mas também por perdas muito significativas. De que forma essas experiências o transformaram?

Quando casámos, pensamos que é casamento para a vida. Quando fiquei viúvo a primeira vez, tinha 35 anos. Não acreditava que tal coisa me pudesse acontecer. Ninguém está preparado. Acho que todos nós devíamos ter uma formação, ou na primária, ou no secundário, em algum momento, para nos preparar para ver alguém partir. Não existe. E cada um, depois, vai-se defender conforme pode. Devia haver uma disciplina de preparação mental, como se estudam outras coisas, porque a vida é um contrato sem data. Nunca se sabe quando é que ele termina. Isto estava na minha vida e pensei: se és forte vais vencer e se és fraco vais cair. E cada dia que passava, mais força, tinha, mais energia tinha. E fui buscar recursos onde? Ao trabalho. Mergulhei no trabalho. Trabalhava de segunda a segunda.

O trabalho foi o seu refúgio nesses momentos?

Foi o refúgio e hoje consegui e fizemos coisas que, em condições normais, não teria feito. Porquê? Porque me refugiei no trabalho e, então, as coisas foram acontecendo. Foi a chamada fuga para a frente. Trabalhava 14, 15, 16 horas por dia para superar e foi, sem dúvida, na primeira fase, isso que aconteceu. O meu filho mais velho, Tiago, tinha onze anos, a Raquel tinha sete, e a primeira coisa que fiz foi salvaguardar a proteção dos meus filhos. Coloquei-os em Braga, no Colégio Dom Diogo de Sousa. Passaram-se três anos e conheci a Júlia. Seis meses depois casei-me novamente. A Júlia dava aulas e deixou de dar aulas porque lhe arranjei uma turma maior que tinha, na altura, 78 funcionários. Ela veio assumir a parte dos Recursos Humanos.

O que é que espera transmitir aos seus filhos, para além da questão do património empresarial?

Os valores. Acho que é a parte mais importante. Costumo dizer que o dinheiro só vai mudar de mãos. O dinheiro não é nosso.

Há decisões que tomou mais com o pai do que como empresário?

Faço aqui duas figuras. Como pai, fora da JOM e como empresário, dentro da JOM. São coisas diferentes. Quem me conhece sabe que são duas pessoas muito distintas. Fora da JOM dizem que o Mendes é um individuo porreiraço e na JOM que é muito vertical e que não é fácil.

O seu percurso está profundamente ligado a Guimarães. O que distingue este concelho de outros territórios do país?

Gosto de Guimarães, é o berço da nação. Não é um concelho massificado, com muita gente, como Braga. Ainda estamos muito protegidos. Precisamos de ter apenas melhores vias de circulação. De resto, é um concelho em que eu gosto de viver. Não é por acaso que escolhi Guimarães para viver. E adoro Guimarães.

Que setores é que acha que poderão vir a liderar o desenvolvimento de Guimarães nas próximas décadas?

A construção mantém-se sempre em alta. É uma das áreas interessantes. Mas a construção precisa de dinheiro. O dinheiro precisa de estar na economia. Nós precisamos de exportar mais, de olhar para as empresas. Os mercados asiáticos vieram ocupar uma fatia de mercado, mas nós temos que procurar criar valor acrescentado para sermos diferenciadores do mercado asiático. Porquê? Porque se fizermos o mesmo que existe lá fora, no mercado asiático, perde-se competitividade. Temos de marcar pela diferença. E quem estiver no mercado a criar valor naquilo que produzem, essas empresas estão bem. Fazendo o mesmo daquilo que ao carregar numa tecla se pode importar, seja o que for, essas empresas, hoje em dia, estão entregues ao fracasso.

Como avalia a relação entre empresários, autarquias e instituições locais?

Tivemos uns tempos parados. Vamos ver agora, com este novo executivo, como é que as coisas irão funcionar. Pelo menos, vontade existe. Mas a vontade só não chega. É preciso fazer coisas. Ao criarmos mais valor e dinheiro na economia, as famílias ficam melhores.

O que é que gostaria de ver diferente no Concelho nos próximos tempos, ao nível empresarial?

Gostava de ver empresas saudáveis, empresas sólidas, empresas com salário acima da média, acima do salário mínimo, para injetar mais riqueza na economia. Falta essa coragem. E também noto que para alguns empresários, a empresa fica para segundo plano e a vida pessoal deles fica em primeiro. Eu penso sempre o contrário. É com a empresa que tenho de ganhar dinheiro para me alimentar. Se eu sangro o dinheiro da empresa, ela não tem capacidade para poder operar no mercado.

Considera que Guimarães valoriza suficientemente os empresários que criam riqueza, que criam emprego, no concelho?

Não. Gostava de dizer que sim. Pode ser que venha a fazê-lo. Tenho esperança que sim. As palavras “estamos cá”, são bonitas. Mas precisamos de mais. Vou dar um exemplo. Andamos há nove anos para licenciar um dos meus projetos industriais e armazenagem de Guimarães. São 68 mil metros quadrados. Atualmente temos reuniões mensais marcada com este novo executivo, mas acredito que ainda aqui vamos andar por mais dois anos. Enquanto andamos a ir namorando, sem chegar a casamento, é complexo.

Como é um dia em que o Joaquim Mendes não trabalha?

Foi difícil eu ter esse dia. Consegui-o há 10 anos. Aos domingos deixei de trabalhar. Mas foi difícil. Se a minha esposa me perguntasse na altura se eu queria ir de férias ou se queria trabalhar, eu dizia que queria trabalhar. Eu adoro, de facto, estar no ativo. Depois tive de me mentalizar que tenho família e que tenho de estar com eles. E tem sido isso que também me tem ajudado a fazer a minha superação. Eu adoro aquilo que faço.

Mas como é que passa esse dia? Tem alguma rotina?

Dedico o tempo a fazer as minhas caminhadas. Vou ao supermercado, vou cozinhar para os meus filhos e por volta das 16h30 acaba-se o domingo e vou visitar um ou outro irmão e voltar a caminhar. Tem sido um pouco assim. É meu desejo voltar a ser feliz. Não me caso mais, nem quero ter mais filhos, mas gostava de ter uma companhia. Os meus filhos estão cada um em sua casa e eu não seria justo comigo próprio e para com eles, andar sempre feito muleta atrás deles. Eles têm a sua vida, tem a sua independência e eu tenho de ter a minha. Tenho de me mentalizar que a vida é assim e respeitar o cantinho deles, como eles respeitam o meu. Mas eu conto, um dia, voltar a reencontrar a minha felicidade.

Tem algum tipo de hobby, alguma paixão que seja desconhecida das pessoas e que queira revelar?

Ler. Estive há três semanas em Cabo Verde sozinho. Num propósito de não falar com ninguém. De me encontrar. Encontrar o Joaquim Mendes. Encontrar o meu “eu”. Então, levei três livros: O Diário de um CEO, Felizes para Sempre e Liderança de Equipas que até já compramos 40 exemplares para oferecer a cada liderança das nossas equipas. Gosto muito de ler. Gosto muito de caminhar. Queria também tirar uma hora por semana para dedicar a instituições, para arrancar um sorriso. É um propósito meu. Tenho isso na minha mente. Ainda não o escrevi porque, depois de escrever, eu tenho de cumprir, mas, quero fazê-lo.

Algum livro que o tenha marcado particularmente?

Sim, O Diário de um CEO marcou-me muito. A vida que eu já passei foi muito pouco, muito pequeno, comparado àquilo que li, testemunhos que li. Sem dúvida, nós estamos aqui no cantinho. Mas quando a gente começa a ler algo abrangente do mundo, histórias como a da Apple, como a da Tesla, como a da Microsoft, como a da Toyota, de grandes empresas multinacionais e de como passaram, como fizeram, os altos e baixos da vida, depoimentos, situações que aconteceram, foi o livro que eu mais adorei ler. Quatro dias em que amei aquele livro e numa semana que estive em Cabo Verde, não senti um minuto a falta de ninguém ao meu lado.

Conseguiu encontrar pontos similares com o seu trajeto?

Sim. Muito. Enriqueci muito com isso. Foi também um propósito e um teste à minha mente, da minha capacidade, se estava ou não estava bem mentalmente para poder fazer essa viagem e encontrar a pessoa que eu mais gosto, que eu mais adoro, que é o Joaquim Mendes.

Qual é o seu prato preferido?

Gosto de tudo. Mas gosto muito de bacalhau. Não há semana nenhuma que não vá ao Luís de Castelões. Adoro bacalhau.

E restaurantes em Guimarães?

Gosto muito de ir ao Porinhos, a Arões. Adoro ir ao Luís de Castelões, ao restaurante Talento e também aqui ao nosso inquilino, no Retail de Ponte, o Restaurante Albino II. Sempre que possível também gosto de um bom peixinho.

Amizades da juventude, mantém algumas?

Gostava de ter mais. Tinha um amigo que foi meu colega de secretária, padre. Afastou-se um bocado porque arranjou uma miúda, mais nova que ele 32 anos e isolou-se. Ajudou-me bastante no momento do falecimento da minha segunda esposa, a Júlia, há três anos e meio. Disse-me uma coisa que nunca vou esquecer na minha vida: “por cima das nuvens há um céu azul”. Um dia vinha da China e o avião estava a entrar nas nuvens e eu tirei uma fotografia e enviei-a. Realmente, é verdade. Por cima das nuvens há um céu azul. Isso ajuda-nos. São pequenos nadas que nos ajudam. Saí de Santa Cristina (Longos), vim para as Taipas e agora estou em Guimarães mas quero um dia voltar a ir a Santa Cristina e reencontrar-me com eles. Eu não sou pessoa de estar no café. Mas eu vou ter de ir e estar com eles.

Mas, atualmente, tem algum amigo de referência?

O único amigo que eu tenho chama-se Emílio Macedo da Silva. Esteve sempre e está sempre comigo nos momentos críticos da minha vida, nos momentos melhores, nos momentos menos bons. É, sem dúvida, um amigo a sério. Tenho mais dois em Lisboa, que também fizeram parte do meu trajeto, do princípio da minha caminhada. Um deles era despachante. Foi ele quem me desafiou a ir à China e colocou lá uma pessoa para nos receber, quando fui à primeira Feira, há vinte e tal anos. E continua, de facto, a ser um amigo também de peito. Tenho outro amigo também, que foi o homem que disse: “em homenagem à Graça, (a minha primeira esposa), vamos abrir a primeira loja. É um homem que também acreditou. Acreditou e esteve na frente, no campo de batalha e é outro amigo por quem tenho um apreço muito especial. E outro no Algarve, em Portimão. Quando vou lá, sou acolhido de uma forma muito carinhosa. São amigos sem interesses.

Quando olha para tudo o que construiu, do que é que se orgulha mais?

Sou uma pessoa que tem muito orgulho daquilo que fez. A JOM tem ainda um caminho muito grande para fazer. Temos, neste momento, além das lojas, nove Retails, duas fábricas, estamos a ampliar a fábrica Pólo I e vamos ampliar também a fábrica no Pólo II. Temos, neste momento, vários investimentos ao nível de terrenos. Temos terrenos para construir até 2030. Só em apartamentos, no espaço de três anos, temos mais de 500 apartamentos em curso e outros para começar. Felizmente, temos aqui uma panóplia em terrenos comprados, que até 2030 temos trabalho. Temos uma caminhada muito longa para fazer e temos um objetivo muito claro. Tenho um objetivo na vida de até final de 2028 ter um rendimento mensal de um milhão de euros de rendas por mês. Tenho mais três anos a seguir, em 2033, de passar de um milhão para dois milhões. Porquê? Porque temos já terrenos comprados, terrenos para infraestruturar e construir dentro do nosso projeto, que permite criar essa receita para incorporar na estrutura. Não é para retirar o dinheiro da empresa. É para depois, multiplicar o fator. E é assim que nós temos feito. Eu nunca tiro um euro da empresa.

Tem presente o momento mais feliz na sua vida empresarial?

Sou feliz todos os dias. Costumo dizer que no dia em que eu inaugurava uma loja, ficava no desemprego. Então, tinha que arranjar logo outra loja. Andava todo entusiasmado, inaugurava a loja e ficava no desemprego. Hoje, felizmente, como temos várias obras a fazer, quando uma acaba, a outra já está a começar. Não há um intervalo, um vazio. Eu tenho sempre ocupação, porque há uma sequência. Neste momento, temos nove construções em simultâneo, entre habitação, Retails e remodelações. Projetos de licenciamento, passam de 35. Há sempre momentos para festejar. Quando termina uma obra, quando termina um mês, atingi o objetivo. Mas, no dia seguinte, já estou a negativo, porque tracei um novo objetivo. E é esse o objetivo que nos faz andar.

Como gostaria que a história o recordasse?

Pelo trabalho que foi feito. Recordar pela parte social que temos feito e que muito nos orgulha fazer. É uma componente da JOM, o contributo para a parte social. Tudo o que é hospitais, bombeiros, instituições, somos muito presentes. Mais tarde, acho que poderei ser recordado por isso. Ainda agora no Centro Juvenil em Guimarães colocamos uma placa em memória da Júlia, o mesmo no Hospital de Guimarães, no Centro de Dia e Psiquiatria, também equipamos aquelas alas todas. É uma forma de ficar gravado o nome da Júlia. Não está cá fisicamente, mas está na nossa memória. E irá estar para sempre. Foi um dos pilares que muito me marcou. Uma pessoa muito humana. E eu acredito que, se fosse ela, iria contribuir, iria apoiar todos esses projetos de solidariedade. Não dou dinheiro para foguetes, mas dou dinheiro para uma ação, aí sim, que seja ajudarmos, contribuímos e colaborarmos.

Há algo que ainda sonha concretizar?

Escrever um livro. Eu queria escrever a minha história. E queria que a minha história chegasse a uma pessoa e se conseguisse ajudar essa pessoa, ficava muito feliz. Chegar a duas, mais ainda. E se chegar a mais, muito mais. É um trabalho que está por fazer e eu quero fazê-lo. Já comecei. Quero ganhar coragem e um dia ter mais umas férias sozinho para escrever a minha história. Eu não queria morrer sem deixar algo escrito para os meus filhos, para os meus netos, para eles verem a história de uma vida. E a história eu queria dividir em duas partes. Uma história pessoal e uma história profissional. Qual foi a tua vida pessoal? E qual foi a tua vida profissional? O que é que tu fizeste? O que é que te fez sentir bem? Qual foi o teu trajeto? De onde viestes? E onde chegaste? E a parte profissional. Como é que tu começaste, onde passaste e onde chegaste? E para onde queres ir? E deixar a porta aberta: para onde queres ir? Esse “para onde queres ir?”, será entregue à família, para darem seguimento. Deixar essa porta aberta.

Se tivesse de resumir a sua vida numa única lição, qual seria?

Nunca desistir. Nunca desistir e ter disciplina. Se tivermos disciplina, é a chave do sucesso.

Alguma pergunta que gostaria que lhe tivessem feito e que nunca lhe fizeram?

A pergunta que eu gostava que me fizessem, e até os meus filhos: Se estou bem? Só isso. Apenas só isso. Naquele momento de dor: “Joaquim, estás bem?”, ou “pai, estás bem?”. Essa é a pergunta que eu sempre mais desejo ouvir. Apenas.

E qual seria a resposta?

Eu não ia ser hipócrita. Eu ia dizer aquilo que sentia. Nós temos que ter a capacidade de nos poder exprimir e falar com as pessoas para que as pessoas sintam, e se puderem ajudar, ajudem. Eu digo aquilo que sinto. Não guardo para mim, mas também não quero ser invasivo e andar aqui sempre a lamentar-me pelos cantos. Mas gostava, por vezes, de poder desabafar, e poder, no fundo, ter essa pergunta. Estás bem?

 

ndr: Entrevista originalmente publicada na edição de junho de 2026 do jornal Reflexo