Da imaginação à realidade: garrafa elimina plástico descartável na ESCT
Ainda sob o efeito da transição das férias para mais um ano letivo, grupos de alunos congregam-se numa só fila e aguardam a sua vez para se identificarem diante do par de funcionárias e receberem gratuitamente a sua garrafa. Não é uma garrafa qualquer. De tom cinza-claro, o recipiente exibe a menção à Escola Secundária de Caldas das Taipas, o número de cada aluno e o logótipo de Guimarães 26 – Capital Verde Europeia. A distribuição das garrafas por toda a escola deu-se a 18 de setembro, praticamente dois anos depois da ideia ter emergido no seio de um quarteto de alunos de uma turma de Ciências Socioeconómicas, num trabalho da disciplina de Geografia.
"Fico com orgulho de ver que o meu trabalho chegou a algum sítio. Julgo que qualquer pessoa sentir-se-ia feliz por ver que o trabalho que fez por mais de um ano fez diferença nas pessoas", confessa ao Reflexo um desses alunos, Gonçalo Esteves, agora a frequentar a universidade. Ao lado, Afonso Martins corrobora esse sentimento: "É mérito de todos nós, do grupo. Trabalhámos todos bem. Estamos felizes por ter conseguir mudar hábitos".
No ano letivo 2024/25, Gonçalo, Afonso, André Ribeiro e Vítor Ribeiro frequentavam a turma 11.º CSE1 quando lançaram a si mesmos o desafio de eliminarem as garrafas de plástico descartável do recinto escolar e, consequentemente, dos hábitos de toda a comunidade educativa da ESCT. A solução parecia óbvia. “Apresentaram a ideia de eliminar o plástico da escola e termos uma garrafa reutilizável", lembra Sérgio Silva, professor de geografia que acompanhou o projeto.
Afinal, comportava ganhos ambientais, face ao impacto negativo do plástico nos habitats marinhos e na atmosfera, quando é produzido ou incinerado, mas também potenciais ganhos económicos. “Gastávamos muito dinheiro em garrafas de plástico, cerca de 40 cêntimos por garrafa. Começámos a pensar numa maneira de poupar algum dinheiro e pensámos em garrafas reutilizáveis. Assim, é só encher a mesma garrafa e nunca mais gastamos esse dinheiro”, salienta Gonçalo.
Havia, contudo, vários passos a dar até a garrafa reutilizável se tornar real. O quarteto realizou um inquérito que se comprovou esclarecedor: mais de 65% da população escolar utilizava, pelo menos, uma garrafa de plástico descartável por dia. A partir das 286 respostas obtidas, os alunos do 11.º CSE1 concluíram que a população inquirida, correspondente a cerca de 25% da comunidade escolar, consumia cerca de 1.350 garrafas de plástico por semana.
Mais de 90% das respostas davam também a entender que o uso do plástico descartável se associava a razões práticas: essas eram as garrafas disponíveis no bar da escola e nas máquinas de vending.
Por outro lado, 23,6% dos inquiridos afirmaram utilizar sempre garrafas utilizáveis e 36% assumiram usá-las com frequência. O principal motivo para esse hábito derivava da preocupação com o meio ambiente, em primeiro lugar (59,8%), e da diminuição de custos a médio e longo prazo (35%). O inquérito demonstrou ainda que mais de 66% dos inquiridos estavam claramente dispostos a mudar os hábitos, caso a escola disponibilizasse garrafas reutilizáveis gratuitamente ou a um preço simbólico, e que quase 29% o faria “provavelmente”. Já havia, portanto, sensibilidade para o tema entre as paredes da Secundária das Taipas.
Do Nós Propomos à Capital Verde Europeia
O projeto “ESCT Eco-Bottle” não se ficou pela sala de aula. O quarteto apresentou-o à empresa municipal Vitrus Ambiente, em 17 de dezembro de 2024, e candidatou-o ao "Nós Propomos! Cidadania e Inovação na Educação Geográfica", lançado pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa em 2011. Esse projeto de cidadania incentiva alunos a identificarem problemas locais e a apresentarem propostas de intervenção a autarquias.
No projeto originalmente apresentado por videoconferência ao IGOT, em maio de 2025, que, entre os objetivos listados, contemplava a instalação de bebedouros no recinto escolar e a adoção das garrafas reutilizáveis, previa-se que a garrafa em alumínio, com 770 mililitros de capacidade, pudesse ter várias cores, consoante as escolhas dos alunos, com um logótipo da ESCT no centro. “O projeto foi bem acolhido, mas não venceu nenhum prémio”, recorda o docente.
Professor há cerca de 26 anos, oito na vila termal, Sérgio Silva assume que o quarteto esperava concretizar o projeto com recurso ao Orçamento Participativo das Escolas, mas o projeto vencedor da ESCT em 2025 foi outro, o de uma rampa para skate. Determinado a tornarem a sua escola na primeira Secundária sem plástico descartável no concelho de Guimarães, o quarteto virou-se para a Capital Verde Europeia, que alocava parte do orçamento às iniciativas da comunidade. “Candidatámo-nos em dezembro de 2025. Recebemos a resposta a dizer que tinha sido aceite logo no início deste ano", lembra.
O “ESCT Eco-Bottle” tornou-se assim uma das 122 propostas de comunidade aprovadas pela direção executiva da CVE, que disponibilizou um apoio total de 263 mil euros. Os antigos alunos da turma 11.º CSE1 receberam 4.900 euros para materializarem o projeto, que só divergiu da conceção na aparência das garrafas, mais sóbrias e discretas do que o que fora idealizado.
A partir de agora, quem exibir uma garrafa de plástico descartável ao entrar na ESCT é convidado a desfazer-se dela. E quem perder o seu recipiente personalizado pode obter outro, mas com um custo. “As garrafas chegaram em junho e foram agora distribuídas. O mérito disto tudo é dos alunos. Eles tiveram a ideia. Apenas fui um orientador", descreve o professor ao Reflexo.