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Coreógrafos do GUIdance na ESCT: “Todos precisamos do contacto com o corpo”

Tiago Dias
Cultura \ sábado, fevereiro 14, 2026
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Antes da estreia de “Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil”, Joana Von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão falaram sobre a sua experiência com meia centena de alunos.

Criadores de “Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil”, peça em estreia absoluta no Pequeno Auditório do Centro Cultural Vila Flor, neste sábado, dia de encerramento da 15.ª edição do GUIdance, Joana Von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão falaram sobre dança contemporânea, mas, acima de tudo, na compreensão do corpo com cerca de meia centena de alunos da Escola Secundária de Caldas das Taipas.

No âmbito das Embaixadas da Dança, iniciativa do festival de dança contemporânea que leva coreógrafos às escolas secundárias do concelho de Guimarães, Hugo Calhim Cristóvão salientou que a dança é um processo onde é possível “pegar na revolta” – “raiva, medo, emoções” – e dar-lhe “um aspeto criativo”, enquanto Joana Von Mayer Trindade realçou que os espetáculos criados pela dupla procuram “cortar com a ideia da quarta parede” – almejam, portanto, encurtar a distância entre bailarinos e público.

“Os alunos precisam disto e nós precisamos disto. Todos precisamos do contacto com o corpo e da relação com o corpo, e de pensar o corpo, de estar no corpo e de comunicar através do corpo. A partir daí, gerar pensamento, outras ferramentas para se solucionar problemas. A juventude tem uma energia muito rebelde, o que me enche muito de energia”, descreve Joana Von Mayer Trindade, ao Reflexo.

Hugo Calhim Cristóvão salienta, por seu turno, que a dança pode ter um papel no contexto pedagógico “por causa das emoções”, porque expressa algo que antecede as palavras e o discurso. "Há uma coisa que falta na educação bastantes vezes. Falta a educação emocional. Cada vez há menos, porque uma educação que trata as emoções precisa de espaços conjuntos, espaços de convívio, espaços em que possam acontecer coisas e as pessoas coloquem a si próprias novas formas de ser e de estar”, descreve.

Para os responsáveis da Nuisis Zobop, associação cultural sediada no Porto, iniciativas como as Embaixadas na Dança são muito importantes para atrair público para os espetáculos de dança contemporânea e deveriam ser mais frequentes. Nesse encontro, Joana e Hugo doaram ainda à biblioteca da ESCT as publicações relativas a duas das suas obras: “Onde está o relâmpago que vos lamberá as vossas labaredas”, de 2023, e “Suores de mel e a morte não terá domínio”, de 2024.

 

"Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil" estreia no GUIdance © Alípio Padilha/João Octávio Peixoto

"Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil" estreia no GUIdance © Alípio Padilha/João Octávio Peixoto

 

GUIdance está “a crescer cada vez mais”

Marcada para as 18h30, a estreia de “Quando vem a taciturna de limiar em limiar o presente frágil” tem praticamente a lotação esgotada. Com dança e interpretação de Sara Miguelote, Lucia Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczul, a obra versa sobre os corpos com ausência de futuro, o presente frágil a que estão sujeitos e a forma como reagem e se expressam nessas circunstâncias, com referências à literatura de Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Al Berto e Paul Celan, bem como às Mahavidyas, as 10 deusas tântricas do hinduísmo, representantes de diferentes dimensões do feminino. Uma delas é Dhumavati, a deusa velha e enrugada.

"Tem a ver um bocadinho sobre como reagir depois de se perderem as esperanças todas, de se perder a projeção de futuro. O nosso mundo já está um bocado por aí: não há ideologia, não há utopias. Há uma espécie de medo sobre o que vem. Estamos à procura nas Mahavydias de uma dança que não se ancora numa perspetiva de futuro - o jovem que vai crescer, o que vai melhorar”, sintetiza Hugo Calhim Cristóvão.

Presentes pela quarta vez no GUIdance, os coreógrafos salientam “a dignidade e visibilidade” de que os artistas dispõem para apresentar o seu trabalho e enaltecem a programação paralela, cujo contacto com novos públicos se reflete na adesão aos espetáculos.

“Não é aquele festival em que venho, faço o espetáculo e vou-me embora e não tenho contacto com a localidade, contacto com ninguém, e acaba por ser uma experiência pouco gratificante, que não deixa lastro. O festival está a crescer cada vez mais. Quem dera que houvesse mais festivais assim em Portugal”, salienta Joana Von Mayer Trindade.