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"Abril será sempre amanhã". E neste caso é em maio e junho

Pedro C. Esteves
Cultura \ sexta-feira, maio 14, 2021
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O Núcleo de Estudos 25 de Abril preparou um programa para celebrar a Liberdade que só "desconfina" em maio. A primeira iniciativa — o espetáculo "Livre com um Livro" — acontece este sábado.

O Núcleo de Estudos 25 de Abril ( NE25A) anunciou o programa para a comemoração do 25 de Abril (em maio). É que a pandemia "atirou" o regresso dos alunos à escola para o início de abril e, como tal, a organização entende que "um projeto das escolas, desenvolvido nas, para e com as escolas" só pode ser posto em prática neste mês.

Mas o espírito da Liberdade vai estar sempre presente nas celebrações, porque, como disse Vasco Lourenço numa iniciativa desenvolvida com alunos da Escola Secundária de Caldas das Taipas (ESCT), “Abril será sempre amanhã”. Este ano, marcado novamente pela pandemia – em 2020 a organização assinalou a data com iniciativas online – o desafio era acrescido, mas Amadeu Faria, ancorado na frase do coronel, encara o ciclo de iniciativas vindouras com “um ânimo enorme”.

E o que vai acontecer ? O NE25A tem várias ações programadas, que se estendem até ao início de junho. As atividades começam a meio do mês, este fim-de-semana, dia 15, com o espetáculo teatral "Livre com um Livro" – em que participam bibliotecas de oito agrupamentos escolares do concelho –, na Plataforma das Artes e Criatividade. O presidente do núcleo não esconde o regozijo por ver o entusiasmo e a entrega dos mais novos ao espetáculo: “Temos tido uma boa adesão por parte das escolas e em relação ao “Livre com um Livro”, que teve o primeiro ensaio no dia 24 de abril, todas as que participaram até agora vão fazê-lo novamente”. “A grande dificuldade” que o grupo cívico tem sentido é a de, em virtude das condicionantes impostas pela pandemia, “não poder sentir da mesma forma os espetáculos”, lamenta Amadeu Faria.

Um livro e uma festa popular

Este ano, para além do que fica na memória, vai ser lançado um livro. E o título enquadra a postura de quem não desiste de divulgar os valores de Abril: “Não deitamos a toalha ao chão” ainda não tem data de lançamento e surge no seguimento “dos textos que muitos amigos publicaram na internet.” Assim, os testemunhos de nomes como Ana Benavente, Rui Trindade, Adriana Cosme ou Vasco Lourenço vão servir de mote para refletir sobre a democracia em tempo de pandemia e materializar o trabalho levado avante por este grupo cívico.

A esta vertente científica junta-se “a festa do povo”, até porque o “25 de Abril é popular”, das massas, e com isso em mente este ano os festejos também se fazem ao som dos Boémios, “algo engraçado e uma banda que representa o gosto popular nesta área do concelho”, indica Amadeu Faria. A participação do grupo acontece no “Vozes em Liberdade”, evento a acontecer em espaço aberto, no Polidesportivo das Taipas, dia 22, pelas 16h00. “Já tivemos as confirmações de todos os grupos que tínhamos convidado no ano passado, apenas um grupo foi substituído. Vamos ter os grupos da Escola de Briteiros, da Mário Cardoso, um grupo formado por alguns professores de Braga e de Caldas das Taipas, a Academia de Música Fernando Matos e a Ana Teixeira, fadista”, enumera. “Está tudo confirmado”.

Este “sim” de muitos dos intervenientes é também “uma vitória” para o NE25A, um grupo de difusores dos valores da democracia, solidariedade e cidadania responsável. Há, segundo Amadeu Faria, uma necessidade latente “do pessoal discutir, dialogar, de gritar um bocado” – e “Abril também é isso, a manifestação daquilo que somos”, explica. “Vamos tentar fazer o melhor possível. Poderá não atingir patamares que atingiu há três ou quatro anos, mas estaremos lá muito, muito próximos.”

Abril também se desenha

E porque o trabalho do grupo tem continuidade e quer estar próximo das pessoas, uma das ações programadas é a expansão do mural às portas da vila de Caldas das Taipas, no muro das piscinas. Num esforço coordenado com as turmas de Artes Visuais da ESCT, haverá um dia aberto à participação da comunidade. Os interessados devem somente inscrever-se na Junta de Freguesia de Caldas das Taipas para poderem “deixar a sua marca no muro”. A expetativa é que até à primeira semana de junho o trabalho esteja completo e os soldados que saúdam quem está de passagem pela vila termal tenham companhia.

E serão esses soldados, com cravos mergulhados nos canos das espingardas, a dar as boas-vindas ao Coronel Sousa e Castro, um dos capitães do Movimento das Forças Armadas (MFA). Natural de Celorico de Basto, participou na elaboração do “Movimento das Forças Armadas e a Nação”, o programa político do Movimento dos Capitães. “É algo extremamente importante”, refere o coordenador do grupo. “Na área de influência das Taipas, já tivemos quatro integrantes do MFA por cá: Otelo Saraiva de Carvalho, Vasco Lourenço, Rui Guimarães e, agora, Sousa e Castro”. Também é assim que se fomenta o espírito da Liberdade nos mais novos, que absorvem memórias da Revolução dos Cravos através de quem lá esteve.

A conversa com o antigo militar está marcada para dia 22 de maio, um sábado, às 21h30, na Junta de Freguesia. E o facto de estas ações terem sido “atiradas” para maio (e início de junho) mitigam, de alguma forma, o seu significado? “Não”, responde Amadeu Faria. “Abril é tudo o que daí vem”, complementa, “e maio também é um mês com grande peso”.

Sai muito do corpo

A última iniciativa programada acontece no pavilhão da ESCT. Com “Cidadanias”, o único evento marcado para junho, o NE25A vai recuperar um dos temas planeados para as comemorações do ano passado: “Abril no feminino”. No dia 05, a partir das 09h30, há uma troca de ideias entre a antiga secretária de Estado da Educação, Ana Benavente, a deputada do Bloco de Esquerda, Joana Mortágua, e Raquel Varela, historiadora.

O colóquio fecha a edição deste ano, novamente possível, segundo Amadeu Faria, devido à determinação de todos os intervenientes. Que mesmo em tempos atípicos não descuram assinalar a data que pôs fim a uma ‘noite’ longa que se prolongou por mais de 40 anos. “Temos de fazer isto com um sorriso nos lábios, temos que fazer isto a divertir-nos, a sentir-nos bem, porque isto sai muito do corpo, nem pensar em fazer porque é tradição”, reitera.

Prova cabal de que ainda se faz por gosto é o programa de 2021, ano em que organizar uma iniciativa do género seria “complicado para qualquer movimento”. Com uma celebração da Liberdade em maio pela frente, agora, a esperança é que a festa possa sair à rua em 2022. Amadeu Faria acredita nisso, afinal, “Abril será sempre amanhã".