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Viva o bom humor!
Quinta-feira, Março 16, 2017

O humor é uma virtude rara, que exige um grande equilíbrio entre a seriedade excessiva e a tola chocarrice. O humor é uma uma virtude pontifícia, isto é, construtora de pontes. O humorismo é o guiador do carro da alegria. Uma pessoa bem humorada é uma revelação da boa disposição de Deus. O humor é uma terapia extraordinária.

Colocar o bom humor na galeria das virtudes não será fazer troça de coisas sérias, conquistadas à custa de grande esforço e vividas com sacrifício? O humorismo poderá algum dia ser qualificado como virtude? Tratar-se-á de futilidades para ociosos superficiais, ou o bom humor é agradável a Deus?…

A nossa resposta é um claro sim afirmativo do valor positivo do humorismo. Um sim maiúsculo como o azul do oceano. É que a seriedade de qualidade rima com alegria. A genuína virtude não pode ser polícia de vícios, pesadona e carrancuda, mas antes libertadora, graciosa e bem humorada. Além do mais, o humor é uma virtude rara, que exige um grande equilíbrio. Estabeleceu a sua morada a meia distância entre dois pólos extremos: a frivolidade superficial e o trágico desespero. O humor redime estas duas atitudes desumanas e sublima-as, colocando-as em estado de graça. O humor é uma “virtude pontifícia”. Este adjectivo “pontifícia” quer dizer, indo à raiz da palavra, “construtora de pontes”. A margem das tragédias pessimistas e a margem das frivolidades facilitistas, pela “ponte do bom humor”, encontram o paraíso que as salva. O nosso mundo não está precisando de arquitectos e construtores de pontes de bom humor?

Aristóteles, um famoso pensador grego do século IV a.C., toma a sério o humorismo no seu tratado sobre as virtudes, qualificando a “eutrapélia” como virtude que faz o equilíbrio entre a seriedade excessiva e a tola chocarrice. A virtude está no justo meio entre os dois extremos. O grande teólogo S. Tomás de Aquino, na mesma linha, considera esta virtude como moderadora do gosto nas actividades lúdicas. O humorismo é o guiador do carro da alegria.

As presentes considerações desejam ser uma ajuda para reabilitar a fraca fama desta virtude humana e cristã. Um depoimento em favor da “canonização do santo bom humor”. Claro que o bom humor não é tudo, não é o cerne da virtude, mas um seu complemento directo. Pode haver um malfeitor com o sentido de humor e um herói desprovido dele. Neste caso, o malfeitor teria uma virtude e ao herói faltar-lhe-ia uma… S. Francisco de Sales, nos tempos difíceis da divisão da Igreja com a reforma protestante, sendo Bispo de Genebra, soube ser “docemente intransigente, suavemente firme”. Na sua vida uniu a santidade com o bom humor. Assim afirmou: «Um santo triste é um triste santo». Ou seja, uma pessoa bem humorada é uma revelação da boa disposição de Deus.

De bom grado assinamos estas linhas de Bernhard Häring, um teólogo alemão da actualidade: «Sim, muito seriamente, incluo o humorismo no número das virtudes mais preciosas. O humorismo sadio está, a seu modo, em consonância com as bem-aventuranças e manifesta, por vezes, um surpreendente poder curativo. Não raramente afrouxa tensões e contribui para adquirir e fomentar a paz». Há que tomar o humor a sério. É remédio para muitos “males sem remédio”.

O humor equilibra, torna razoável a razão, desintoxicando-a de cerebralismo intelectualizante. O pensamento torna-se, por vezes, segundo a conhecida expressão de Lichtenberg, “faca sem lâmina, à qual falta o cabo”. É a implosão da razão, a sua autodestruição. O humor põe a razão no seu justo lugar, oferece-lhe leveza, graça e maleabilidade. Por isso recorda Fernando Cortés que “o humor é um vaso-dilatador que liberta. Oxigena os tecidos e predispõe o espírito para um bom acolhimento do que nos diz o outro. O humor é claramente uma terapia extraordinária”.