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A única casa da Citânia com água canalizada
Quinta-feira, Junho 21, 2018

De entre as numerosas construções que, de forma parcial, a Citânia vimaranense nos revelou, destaca-se um grande conjunto habitacional, formado apenas por compartimentos retangulares, como outros que conhecemos. Destaca-se este, porém, por ser a única habitação citaniense que dispunha de água canalizada! Casa de gente importante, por certo, opinam os visitantes, que observam o conjunto logo no início da visita, por estar este espaço próximo da entrada do monumento (mas não na entrada do povoado, entenda-se). Com efeito, a grande canalização que levava água limpa e que atravessa uma boa parte da Citânia, tem apenas uma derivação conhecida, que levava água para este edifício.

Foi esta grande casa descoberta por Sarmento, que achava ter aqui funcionado uma oficina, porque daqui provém uma das ombreiras com uma tenaz de ferreiro gravada, bem como os habituais restos de escória de fundição. Isso poderia, de facto, explicar a água canalizada, numa perspetiva mais funcional. Porém, em 1896, Cristóvão Aires, na sua obra “História do Exército Português”, que compôs com a colaboração direta de Sarmento, coloca uma nova possibilidade:

“As mesmas caleiras também forneciam água por meio de uma derivação á casa indicada pelo n.º 10, no atrio grande da qual se encontra uma depressão quadrada de terreno que parece teria sido destinada a banho publico.” (obra citada, p. 427).

A teoria do “banho público” é interessante, e não seria de estranhar na altura em que se escreveu este texto, quando ainda não se conheciam os dois balneários da Citânia, ambos descobertos no já no século XX. É muito improvável, contudo, porque estaremos diante de uma construção privada, separada das ruas públicas que a rodeavam por muros, hoje muito derruídos. Não fosse o facto de a alegada “depressão quadrada de terreno” no átrio da casa já não existir, ou estar totalmente ocultada pelo nível atual, e seríamos levados a pensar na existência de um elegante tanque no pátio central da casa. Coisa tão romana e “modernaça”…

Que toda aquela casa “cheira a romano” não há dúvida. Mas muitas questões se levantam, e podemos mesmo considerar todas as hipóteses: uma casa da aristocracia, com o tanque intimista no pátio, e uma oficina metalúrgica anexa, fonte de rendimento da família. A ver vamos. As escavações arqueológicas a realizar durante o mês de Julho na Citânia, com a Universidade do Minho, e com o apoio da Casa do Povo de Briteiros e do Município de Guimarães, prometem clarificar esta e outras questões.

Canalização em pedra, que abastecia de água uma das casas da Citânia