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Uma polémica arqueológica… em 1949
Terça-feira, Janeiro 24, 2017

Mulheres transportam terra crivada nas escavações da Citânia de Briteiros, em 1948. Arquivo da SMS.

Depois de percorrerem boa parte do território português, as britânicas Ann Bridge (mais conhecida como Cottie Sanders) e Susan Lowndes Marques publicaram, em 1949, a obra “The Selective Traveller in Portugal”*, descrevendo um trajeto pelo país no qual frisaram os aspetos mais pitorescos da cultura portuguesa, bem como os monumentos que mais lhes chamaram a atenção. Atentas à então política seguida pelo Estado Novo no restauro dos monumentos, não deixaram de apontar dois casos vimaranenses: a Citânia de Briteiros e o Paço dos Duques de Bragança.

Curiosamente, referem o restauro do Paço dos Duques como algo que, então, terá provocado “grande fúria e desgosto dos habitantes de Guimarães”. Furiosa terá sido, no entanto, a reação do Coronel Mário Cardozo, ao ler o texto das duas inglesas, quando afirmaram que a reconstrução das muralhas da Citânia de Briteiros era “completamente desastrosa do ponto de vista científico”. De facto, a crítica foi particularmente áspera, refletindo uma considerável assimetria do estado da arte das pesquisas arqueológicas em Portugal (como eventualmente em muitos outros países, sendo que em Espanha não era muito diferente), em relação ao que então era já comum no Reino Unido.

Destaca-se a ausência de escavações arqueológicas com registo de estratigrafia, procurando diferenciar distintas fases de ocupação, datadas pelos materiais recolhidos em cada estrato. A prática, que é hoje comum em Portugal, apenas se generalizou no nosso país na década de 1980. No entanto, já em finais do século XIX se realizaram, na Escócia, trabalhos arqueológicos com registo de diferentes camadas. Não será portanto de admirar a indignação das duas súbditas inglesas ao tomarem contacto com a realidade dos trabalhos arqueológicos na Citânia, onde apenas em 1977 se viria a realizar a primeira escavação “científica”, para os nossos padrões atuais.

A resposta de Mário Cardozo não se fez esperar. No habitual relatório dos trabalhos arqueológicos publicado anualmente na Revista de Guimarães, denuncia, no volume de 1949, que Cottie e Susan não estariam “familiarizadas com os conhecimentos da Arqueologia” e que terão visitado “apressadamente” a Citânia, tendo dali retirado conclusões precipitadas. Passa então, na mesma publicação, a explicar o seu método de escavação, registo e restauro, que continuará a usar na Citânia nas décadas seguintes.

Desconhecemos o desfecho deste episódio, ou seja, se o artigo de Cardozo suscitou algum tipo de resposta. Será, no entanto, a Sociedade Martins Sarmento, presidida por Mário Cardozo, com o apoio da Junta Nacional da Educação, a solicitar pouco tempo depois, em 1951, a intervenção de uma equipa de arqueológos da Universidade de Oxford no Castro de Sabroso. Esta campanha, coordenada por Christopher Hawkes, e que viria a ser uma experiência pioneira no Norte de Portugal, exemplificou até que ponto as universidades britânicas há muito tinham dado um passo em frente em termos técnicos…

É interessante verificar que Cardozo não deixava de ter razão quando referiu que as duas inglesas poderão ter tirado conclusões erradas de uma visita apressada, porque de facto não utilizaram o melhor exemplo de “restauro criativo” do Estado Novo. A Citânia de Briteiros é talvez dos monumentos onde o restauro foi menos intrusivo neste período.
Estavam certas, no entanto, ao denunciarem um conjunto de fragilidades da nossa academia de então, que se refletia na forma como muitas escavações arqueológicas eram conduzidas.

* Editado pela primeira vez em português em 2009, pela Quidnovi, com o título “Duas inglesas em Portugal”.