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Uma lição dada pela floresta autóctone
Quinta-feira, Abril 4, 2019

O monte de São Romão, coroado pela Citânia, depois do incêndio de 25 e 26 de Março.

Cada vez mais, em consequência das perdas humanas e materiais e da devastação causada pelos incêndios, se conclui que o combate aos fogos florestais ultrapassa largamente a ação física de extinguir, bem como a punição dos culpados, difíceis, e por vezes impossíveis, de identificar. As características da vegetação no nosso território, que tem vindo a mudar drasticamente nas últimas décadas, são um claro fator de risco para a dimensão que os incêndios têm atingido nos últimos anos. O coberto vegetal em Portugal, particularmente nas regiões mais húmidas, tem vindo a ser naturalmente substituído por espécies exóticas, particularmente o eucalipto, que, não tendo inimigos naturais, e com abundância de água, tende a substituir-se às espécies autóctones. Comportamento natural que é reforçado por um progressivo e rápido abandono de terras que deixaram de ser utilizadas, fruto do declínio da agricultura e da pecuária.

No passado dia 25 de Março, à noite, teve início um incêndio na zona de Briteiros, que rapidamente se propagou pelo monte de São Romão, no topo do qual se localiza a Citânia de Briteiros, impulsionado pelo vento forte que se fazia sentir. As corporações de bombeiros que acorreram ao local passaram a maior parte da noite a combater este fogo, que entrou dentro do perímetro da Citânia, embora não na área visitável.

Há dois aspetos importantes a referir acerca deste incêndio.

Em primeiro lugar, reforçar que o incêndio não é uma forma de limpeza de sítios arqueológicos. Embora as queimadas sejam uma prática secular de remoção de matos, o fogo controlado não pode ser uma solução regular para travar o crescimento da vegetação num monumento, porque embora, de facto, as “pedras não ardam”, a degradação das mesmas causada pela elevada temperatura do fogo é evidente, rápida e imparável. Esta ação é mais visível em rochas com arte rupestre, por exemplo, mas também na estabilidade de várias estruturas em pedra.

Em segundo lugar, e voltando ao assunto central, a vegetação característica de diferentes parcelas de terreno determinou a evolução do incêndio, ardendo as áreas cobertas de eucalipto, espécie particularmente inflamável, e sendo o incêndio dominado ao atingir as áreas que têm manutenção regular e onde prolifera o sobreiro, o carvalho e um ou outro pinheiro. Estivesse a acrópole da Citânia coberta por eucaliptal denso ou por pinhal, e o fogo teria, seguramente, varrido tudo à sua passagem. Importante lição que nos é dada pela floresta nativa.