PUB
Uma forte convicção
Sexta-feira, Junho 16, 2017

A Câmara Municipal de Guimarães (CMG) aprovou, no final do mês passado, a adjudicação da construção do parque de estacionamento da Caldeiroa/Camões. Nessa reunião, o Presidente da Câmara afirmou ter uma “forte convicção” de que o projeto é bom para Guimarães. De facto, somente assim se entende a decisão, pois os outros argumentos são falaciosos, contraditórios, e até absurdos.

Todo este processo tem por base uma falsa (por não estar comprovada) premissa: a falta de estacionamento.

Não existe qualquer estudo que indique que faltam lugares de estacionamento na área central da cidade. O único estudo sobre mobilidade, publicamente conhecido, foi elaborado no âmbito do Quadrilátero Urbano e revela que em Guimarães, apesar do elevado número de lugares disponíveis, existe uma elevada taxa de estacionamento ilegal e uma baixa taxa de ocupação dos parques. Este estudo demonstra que os argumentos anunciados pela CMG, sejam as recorrentes queixas dos comerciantes sobre a falta de estacionamento, ou os alertas da polícia para o estacionamento ilegal, são falaciosos. Como dizia o anterior Presidente da CMG “não falta estacionamento, falta é civismo”.

Acontece que esta falsa premissa parece inquestionável para o Presidente da Câmara que diz: “não vale a pena tentar esconder, ou tentar dizer que não é assim, há dificuldade de estacionamento em Guimarães, e temos de resolver esta situação do aparcamento. E no limite, se houver excesso de aparcamento, então é preferível tirar o aparcamento de superfície. Mas estamos longe disso!

E como pensa ele resolver a situação?

Como refere o Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT), e como é do conhecimento de quem planeia a mobilidade, a oferta de mais estacionamento nos centros urbanos para satisfazer a procura só agrava o problema, sendo um modelo ultrapassado e insustentável.

O Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano (PEDU) de Guimarães reconhece a “pressão automóvel” registada no centro urbano e sugere como soluções os parques periféricos, conjugados com a promoção dos transportes públicos e modos suaves, em detrimento do automóvel privado.

A solução foi esquecer o paradigma da mobilidade, e optar pelo modelo ultrapassado e insustentável (ainda que bastante popular).

Uma tremenda desilusão que fica ainda mais completa com a afronta do financiamento ao projeto. A confirmar-se as evidências, este será cofinanciado pelo NORTE 2020 ao abrigo de um objetivo temático que visa preservar e proteger o ambiente e promover a utilização eficiente dos recursos, e de um objetivo específico para promover a qualidade ambiental, urbanística e paisagística dos centros urbanos, e engloba a redução da poluição do ar e a promoção de medidas de redução de ruído. Não será caso para perguntar à CCDRN e à Autoridade de Gestão como é que um parque de estacionamento se enquadra neste cenário?

Para melhor compreenderem a contradição e o absurdo do processo atentem neste extrato do PEDU: “e se esta ambição de atingir um ambiente urbano de excelência é o seu maior desafio, a atuação persistente e convicta, resiliente e sem desvios será, porventura, o seu maior fator crítico de sucesso já que implicará uma mudança de paradigma generalizada, uma alteração de hábitos culturais e diários acentuada e uma capacidade de explicar, envolver e partilhar estendida a longo prazo no tempo e no espaço.”

Agora atentem nas palavras do Presidente da Câmara e na forma persistente e convicta como ele explica e partilha os hábitos culturais daquele que parece ser o seu paradigma: “As casas que são habitadas, que têm comércio e têm serviços, não tendo aparcamento as pessoas não querem ir lá, não sabem onde estacionar o carro, como aceder a esta zona.”

Estranha forma esta de governar um município. O projeto não está devidamente fundamentado, não é coerente com o paradigma da mobilidade, não foi participado nem é consensual e pode colocar em causa o património, mas como existe quem tenha uma “forte convicção”, e uma maioria à disposição…

Viva a democracia!