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Um tempo excecional, num tempo de exceção!
Sábado, Abril 25, 2020

Tinha 9 anos no dia 25 de Abril de 1974. Recordo-me da felicidade da minha turma da 4ª classe, na escola do Grémio da Póvoa de Varzim por nessa quinta feira do “dia inicial e límpido”, nos terem mandado para casa; havia “problemas em Lisboa” disseram-nos. Cheguei a casa e a minha mãe (professora do 1º ciclo), já lá se encontrava, absorta a olhar para as imagens que chegavam da Revolução. Assisti a períodos conturbados a nível de luta política (Verão Quente em Braga de 75 e o assalto à sede do PC no Campo da Vinha), mas sem compreender, com alguma certeza do que ali se jogava.

Só bastante mais tarde, aquando da envolvência com alguns colegas/amigos em Associações de Estudantes do Secundário, em RGAs e, particularmente, em campanhas políticas, me apercebi daqueles que são para mim os valores fundamentais de Abril: Liberdade, Democracia, Cidadania, Solidariedade, Verdade, Conhecimento.

E é aqui que penso chegar o ponto fulcral para a ligação desta situação de exceção motivada pela pandemia do Covid 19 e a nossa democracia. Qualquer um dos valores que são para mim fundadores da ideia de abril são constantemente postos em causa, não só com a pandemia, mas também desde Abril de 74.

No entanto se as instituições democráticas, se nós cidadãos que pretendemos ser ativos e livres, olharmos com atenção para o que se passa à nossa volta, rapidamente verificamos que há aqui uma oportunidade de valorizar e de desenvolver os valores de abril.

Talvez seja o valor reconquistado em Abril, hoje mais falado: Liberdade. Mas será que a perdemos? Ou será que a ajustamos face ao valor essencial da defesa da vida individual e da vida em sociedade? Será que a Liberdade instaurada em Abril da critica, da opinião, foi suspensa? Não, não foram (basta estar atento às conferências de imprensa da DGS para rapidamente vermos que a liberdade está lá); temos visto a participação certa ou errada/incorreta, do cidadão nas redes sociais? Por acaso o filtro da Liberdade foi lá colocado? Não! Bem pelo contrário. A liberdade continua a passar por aqui! Foi cantada, vitoriada, pintada em Abril de 1974, porque era um projeto, um desígnio nacional personificado na figura dos jovens capitães. Passados 46 anos da revolução dos Cravos, ela passa por ser algo de normal, habitual, regulamentar, rotineiro, sendo tão natural como o ato de respirarmos e de vivermos. É bom pois é sinal de uma democracia consolidada; é preocupante se não a cuidamos, se não a protegermos, porque a esquecemos de tão rotineira ela se tornou. Talvez este vírus “maldito” como alguém já lhe chamou, nos mostre a todos a importância de ser livre… de circular, de socializar, de estarmos, de continuarmos a ser um povo de “afetos”.

Para mim Abril sempre significou solidariedade, valor que os militares de abril sempre demonstraram para com todos incluindo até na sua inocência quanto a progressões em carreiras, ou pela dádiva, possivelmente da sua vida, para a construção de um dia melhor para todos(acaso já repararam que os capitães de abril nunca passaram de coronéis e os coronéis de novembro, chegaram todos a generais?- curioso no mínimo); será que não encontramos este valor no enorme conjunto de iniciativas que o mundo civil e anónimo oferece aqueles que mais necessitam do nosso apoio, com ou sem pandemia? Recordo-me e com particular orgulho ( ano de nascimento do NE25A), da lição de solidariedade que todos demos de forma anónima, aos portugueses da Madeira por altura do desastre de 2010.serão necessários mais exemplos desta “mania” tão natural, democrática ( não confundir com a caridadezinha bafienta), que temos de fazer o bem, de  sermos solidários com os outros particularmente aqueles que mais precisam de todos?

Verdade, pois, continuarei sempre a crer que as instituições democráticas e democraticamente eleitas pelos cidadãos, falam, genericamente, verdade (não serão elas um reflexo de todo e qualquer cidadão, com as suas virtudes e os seus defeitos?); não foi isso que Vítor Alves fez ao afirmar que ali (a propósito do 25 de abril), não havia chefes? Acaso Vasco Lourenço faltou à verdade enquanto líder do MFA sobre os objetivos da revolução? Acaso Melo Antunes, Salgueiro Maia, Sousa e Castro, Otelo Saraiva de Carvalho, Rosado da Luz, Rui Guimarães entre muitos outros, faltaram à verdade quando questionados sobre o que iria ser feito em Portugal? Podemos questionar as opções, mas não a sinceridade das mesmas. Hoje revejo-me numa situação muito complicada e com uma enorme pressão adicional do cidadão ciente dos seus direitos e esquecido dos seus deveres, na forma e no conteúdo dos nossos mais distintos representantes (Primeiro ministro, ministra da Saúde, diretora geral da Saúde, como mais significativos) e na sua tentativa de não faltarem a este valor essencial para todos;

Conhecimento  refundado e reconstruído pelos militares de Abril na construção de uma escola de todos, para todos e com todos, lançando-se as bases daquela que para mim ( a par do SNS), é uma das obras da Revolução: a Escola Pública, querida, amada, odiada, contestada, criticada, mimada por todos e que nos dá, pese embora algumas tentativas de destruição da mesma, o conhecimento essencial para combatermos pela democracia ( numa época de populismos e demagogias, um cidadão conhecedor, informado das várias realidades, toma as suas opções… mas exige tomá-las livremente e não “atrelado” a um qualquer cacique ou capataz ideológico que viva da ignorância dos outros concidadãos); podendo discordar da forma ( e assumo a minha discordância em alguns parâmetros), não é a reação da Escola Publica e de todos os seus agentes ( Professores, Alunos, Pais e as próprias estruturas-algumas-do ME) a esta crise, a resposta da democracia e do conhecimento? Acaso a ligação que queremos manter dos nossos alunos à escola Pública (para mim o fundamental de tudo isto), não é um exercício de democracia? Não é um exercício de conhecimento?

Hoje com 55 anos, 2 filhos e uma profissão (desculpem, mas para mim continua a não ser um emprego), tenho de continuar a ser capaz de praticar Abril; de não só dizer mas mostrar com ações concretas e aos meus filhos e aos meus alunos que ainda acredito, que luto e que espero ajudar a construir um Portugal cada vez melhor, cada vez mais democrático, cada vez mais integrador, sem medo da diferença e com um enorme respeito pela opinião do outro. E que se essa opinião for validade pela maioria do povo, assim seja (acreditando que ela é na sua exata medida, respeitadora da opinião dos outros).

Constrói-se assim a democracia e a cidadania democrática; pensando no que significa, vendo quais as pontes que podemos construir com o outro, derrubando os “muros” da ignorância e da demagogia (e é tão fácil derrubarmos a ignorância e a demagogia), criticando o que entendemos ser criticável, construindo consensos após debatermos e dialogarmos de forma democrática com todos, nunca suspendendo a democracia nem as instituições que nos representam.

Quanto mais não seja, devo isso a quem me possibilitou escrever este texto… devo aos capitães de Abril… devo isto ao meu país… devo isto a mim mesmo!