PUB
Um monumento guardado noutro monumento
Quinta-feira, Dezembro 17, 2020

Embora todos saibamos que várias peças históricas e obras de arte são consideradas, por si só, “monumentos”, o significado deste título é literal, pois que se refere a um Monumento Nacional em cujo interior se guarda uma peça também ela classificada como Monumento Nacional…

Um marco miliário da via romana que ligava Bracara Augusta ao Vale do Ave, encaminhando-se para Sul, para o Douro, foi colocado em finais do século I, ou início do século II da nossa Era. Séculos depois parece ter sido reaproveitado numa parede da igreja paroquial de São Clemente de Sande, perto da qual terá passado a dita via, até que, em 1640, com um desmoronamento, o marco foi colocado numa esquina da sacristia da mesma igreja.

Em 1808, com o desmantelamento da sacristia e construção de nova capela-mor, o marco romano foi colocado “de parte”, até que, com a construção da residência paroquial, em 1816, foi parcialmente cortado no sentido longitudinal, para ser reaproveitado como degrau das escadas.

Já em finais do século XIX, novas obras na residência paroquial levantaram a curiosidade acerca dos dizeres da peça, que foi, em 1885, analisada por Francisco Martins Sarmento e João de Oliveira de Guimarães (Abade de Tagilde), que se deslocaram a São Clemente de Sande para tomar nota desta e de outras novidades arqueológicas. A coluna miliária foi, assim, transportada para o Museu Martins Sarmento, depois de ter sido doada à SMS através de João de Sousa Machado, no mesmo ano de 1885.

No início do século XX não se diferenciava claramente o conceito de monumento, enquanto património edificado, da ideia de peça arqueológica móvel. Posto isto, o decreto de 23 de Junho de 1910, que classificou vários imóveis e peças como Monumento Nacional (incluindo os monumentos mais conhecidos do Concelho de Guimarães), classificou o Claustro de São Domingos, onde já se encontrava o Museu Martins Sarmento, bem como o nosso marco miliário de São Clemente de Sande. Temos assim uma peça classificada como Monumento Nacional, guardada, há mais de cem anos, no interior de outro monumento classificado.

As obras que presentemente decorrem no Claustro de São Domingos preveem também uma valorização deste outro monumento, testemunho viário da época romana, de alguma raridade nesta zona. A rarefeita inscrição, truncada para formar o degrau da escada da antiga residência paroquial, permite ainda ler parte da dedicatória a César Nerva Trajano, o mesmo personagem imperial do célebre monumento das Taipas.

Marco miliário de Trajano recolhido em São Clemente de Sande, classificado como Monumento Nacional