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Um homem cego nas Caldas das Taipas, em 1713
Quinta-feira, Janeiro 2, 2020

Através de um assento de óbito, existente nos livros paroquiais da freguesia de São Tomé de Caldelas, encontrámos a única referencia documental da existência de um homem cego nesta freguesia, durante todo o século XVIII.

Segundo o registo de óbito, redigido pelo pároco de Caldelas Gabriel de Matos, sabemos que a 12 de dezembro de 1713, António da Silva, solteiro, cego, morador no lugar da Poça, da freguesia de Caldelas faleceu com todos os sacramentos necessários. Continuando a leitura deste documento, percebemos que este taipense invisual, não fizera testamento. No entanto, tinha dotado a sua sobrinha Águeda da Silva da sua propriedade da Poça, quando esta casara com Sebastião Fernandes. Em contrapartida, a sua sobrinha comprometia-se a lhe satisfazer os bens da alma quando falecesse, que corresponderiam a três ofícios de nove lições e dez padres cada um, e pagaria os direitos paroquiais conforme o costumo e uso desta paróquia.

O mesmo registo paroquial, informa-nos que pouco tempo antes de falecer, António da Silva fizera outra escritura nas notas do tabelião Manuel da Costa, em Guimarães. Nesta escritura afirmava que possuía uma leira “dizima a Deos” na veiga de Borges, que reservara quando dotara a sua sobrinha com a sua propriedade, para que dela fizesse o que quisesse, e outra leira que confrontava com essa, do mesmo cumprimento e largura, que comprara a Domingos João do Souto, da freguesia de Caldelas. Esta última leira dava e doava aos párocos da freguesia, com a obrigação destes lhe dizerem por sua alma e seus familiares uma missa rezada com seu responso, no altar de Nossa Senhora das Candeias, da Igreja paroquial de Caldelas, nas oitavas do Natal de cada ano. Esta missa reservava em sua vida e de sua irmã Catarina Martins, viúva.

António da Silva foi sepultado no interior da igreja paroquial de São Tomé de Caldelas, no dia 12 de dezembro de 1713, tendo-lhe sido celebrado um ofício de dez padres, conforme o estalecido em vida.

Pesquisando os livros paroquias desta freguesia existentes no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, deparamo-nos com o assento de casamento da sua sobrinha. Águeda da Silva casou com Sebastião Fernandes, na igreja paroquial de Caldelas, a 9 de novembro de 1710. Águeda da Silva era filha legitima de Jerónimo Marques, já defunto, e de sua mulher Catarina Martins, moradores no Casal da Poça, da mesma freguesia. Por seu turno, Sebastião Fernandes era filho de Francisco Fernandes e de sua mulher Maria Mendes, residentes no lugar de Selho, da freguesia de Santa Eulália de Fermentões.

Até ao momento, não possuímos qualquer dado, que nos possa fornecer mais pormenores sobre a sua cegueira. No entanto, podemos concluir, que António da Silva vivia num certo desafogo económico, que lhe permitiu dotar a sua sobrinha de bens, três anos antes de falecer, e doar uma leira à sua paróquia.