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Um Corredor “pintado” de Verde
Quinta-feira, Dezembro 28, 2017

Em 2015, Guimarães aderiu à Associação Portuguesa de Corredores Verdes (APCV), com o objetivo declarado de “enriquecer e valorizar os possíveis corredores verdes que se possam criar no concelho”, obtendo vantagens com a partilha de experiências que decorre da parceria desta com a EGWA – European Greenways Association. Para estas associações, corredores verdes são, na sua essência, “vias de comunicação reservadas exclusivamente para viagens não motorizadas”.

Sabendo, portanto, que este conceito não é estranho ao município, quando em Agosto deste ano li a notícia/comunicado da Câmara Municipal de Guimarães, a anunciar um “Corredor verde arborizado a ligar as Hortas ao Parque da Cidade”, podia ter sido levado a acreditar no seu conteúdo.

Esse comunicado informava que o “Parque das Hortas e o Parque da Cidade vão passar a estar ligadas por corredores verdes e espaços de lazer arborizados, com vias pedonal e ciclável, mas também com a criação de uma zona 30, de acalmia de tráfego”, afirmando que “a obra vai criar um corredor verde que acompanhará a par e passo a Ribeira de Couros”, e que “tem por objetivo uma clara valorização ambiental e paisagística do percurso entre o centro urbano e o Parque da Cidade”, e ainda que “o projeto vai alterar o paradigma de vivência deste percurso, através da coexistência de uma nova mobilidade que contempla a inversão da pirâmide de hierarquias na gestão da circulação dos diferentes modos de transporte”.

Tudo isto levava a crer que seria ali implantado um corredor verde, e que apesar de permitir o acesso a veículos motorizados, isso seria atenuado por uma Zona de Coexistência, do tipo previsto no novo Código da Estrada (artigo 78º-A).

Não acreditei! E confesso que partilhei a notícia com alguns amigos, acompanhada do comentário: “É só rir…”

Apesar de não ter piada nenhuma, o facto é que, concluída a obra, a Ribeira de Couros continua entubada, não há mudança de paradigma nem inversão da pirâmide de mobilidade, não há zona de coexistência (nem sequer zona trinta, pois o sinal que lá está é de velocidade aconselhada e não de proibição), não há ciclovia, e como é bom de ver, não há corredor verde, pois estes não são estradas para automóveis com árvores plantadas na berma.

O que lá existe é o cinzento do microcubo do passeio e do paralelo da estrada. E apesar disso, dou comigo a pensar: será que uma zona de coexistência, ou zona 30 de acalmia de tráfego serve a mobilidade da zona? Não é este acesso a porta de entrada da freguesia da Costa? Se o tráfego for desencorajado neste percurso, por onde será feito? Junto à escola João de Meira e Martins Sarmento? Que hierarquia representa esta via na rede viária concelhia?

Não digo que teria respostas para tudo, mas certamente que o Plano Municipal de Mobilidade ajudaria a esclarecer e decidir sobre estas e outras questões. Em Guimarães continua-se a intervir no território sem ter em conta este importante instrumento estratégico e orientador.

Só podendo conjeturar, direi que provavelmente a solução encontrada até pode ser equilibrada e ajustada. Fruto do acaso, ou de caso pensado, não sei! O que sei, é que não posso concordar com a recorrente “pintura” verde com que a comunicação do município mascara algumas notícias.