Um carpinteiro de São Lourenço de Sande sepultado no concelho de Ponte de Lima (1708)
Quinta-feira, Abril 18, 2019

Ao realizarmos a nossa pesquisa no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, com vista ao estudo da História de Arte vimaranense nos séculos XVI a XVIII, consultámos manuscritos que julgamos de extrema importância para a história dos ofícios e mesteres das Caldas das Taipas e da freguesia contígua de São Lourenço de Sande.

Nas nossas edições semanais de História do “Reflexo Digital”, publicadas em abril e maio de 2016, extraímos do anonimato dois carpinteiros taipenses. Um desses carpinteiros taipenses faleceu a 2 de maio de 1712, na freguesia de Senharei, termo dos Arcos de Valdevez, sendo sepultado na igreja da referida freguesia. Trata-se de Gonçalo Lopes, que na altura da sua morte “andava travalhando pello seu oficio de carpinteiro” na freguesia de Senharei. Era solteiro, filho de Jerónima Gonçalves, viúva, moradora no lugar das Caldas, da freguesia de São Tomé de Caldelas.  Continuando o nosso percurso nos registos paroquiais da freguesia de São Tomé de Caldelas, deparamo-nos com a referência a outro carpinteiro taipense que “andava travalhando pello seu oficio” na então vila da Guarda. Referimo-nos a Custódio da Silva, carpinteiro, morador no lugar da Lameira de São Tomé de Caldelas, casado com Mariana de Freitas, que faleceu em 1724. Segundo o registo de óbito, redigido pelo Padre Gabriel de Matos, pároco de Caldelas, a 15 de novembro de 1724, chegara “noticia serta” a esta freguesia, que a 18 de outubro desse mesmo ano, Custódio da Silva, carpinteiro, “falecera da vida prezente”, sendo então sepultado na Guarda. Um mês após o seu falecimento, a 21 de novembro, a viúva fez “seu sahimento” nas Taipas, mas sem corpo presente. Nesse mesmo dia, mandou fazer um ofício de cinco padres, pagando a respetiva oferta. Mais tarde, Mariana Freitas determinou que se celebrasse o segundo ofício com cinco padres.

Prosseguindo o nosso estudo, hoje apresentamos, um carpinteiro da freguesia de São Lourenço de Sande, do termo de Guimarães, que faleceu no concelho de Ponte de Lima. Trata-se de Jerónimo Gonçalves, carpinteiro, casado, morador na Rechã, freguesia de São Lourenço de Sande, que falecera de repente, a 5 de outubro de 1708, na freguesia de São Vicente de Fornelos, termo da vila de Ponte de Lima, “estando nella trabalhando com o seu officio de carpinteiro”. No assento de óbito, o padre de São Lourenço de Sande Domingos Pinheiro Pereira, escreve que o carpinteiro morrera de repente “sem sacramento algum quando o Cura o acudio o não achou capaz”. Neste assento é dito que fora o Reverendo Reitor Gaspar dos Reis, da freguesia de São Vicente de Fornelos, avisara por carta o pároco de São Lourenço de Sande da morte deste carpinteiro. Nessa missiva é dito que o Reverendo Gaspar dos Reis lhe fizera dois ofícios de quatro padres “com suas ofertas e lhe deu a viúva o dinheiro de meia reza que diz ser mieiro

Estes registos de óbito destes três carpinteiros de duas freguesias do termo de Guimarães, constituem uma importante fonte documental, não apenas para o aprofundamento do estudo destes três carpinteiros sepultados respetivamente em Senharei, São Vicente de Fornelos e na Guarda, tanto em termos pessoais, como profissionais, mas também para podermos retirar alguns elementos para o estudo da migração da população de Caldas das Taipas e de São Lourenço de Sande no primeiro quartel do século XVIII. Simultaneamente permite-nos redescobrir que estes artistas exerceram a sua atividade no Norte e Centro de Portugal, para onde foram chamados para dar corpo a empreitadas de maior ou menor envergadura. Estas obras executadas em Arcos de Valdevez, Ponte de Lima e na Guarda, permitiram certamente a estes carpinteiros um contato com a obra artística de outros mestres e oficiais.